O antissemitismo manifesto dentro do governo Bolsonaro, por Bruno Lima Rocha

Nada do que foi narrado é “brincadeira” ou tema secundário, mas parece que o governo do premiê (ainda no cargo) israelense Benjamin Netanyahu ignora solenemente a ameaça real.

O antissemitismo manifesto dentro do governo Bolsonaro

por Bruno Lima Rocha

No dia 17 de janeiro de 2020, o então secretário especial de Cultura do governo Jair Bolsonaro foi demitido (ver aqui). O motivo? Descuido. Em vídeo institucional gravado para difundir o Prêmio Nacional das Artes (ver aqui) , o dramaturgo praticamente copiou trecho de seu colega de profissão, o também autor de teatro e criminoso de guerra, o ministro da Informação e Propaganda do III Reich,  Joseph Goebbels.  Na véspera, 16 de janeiro, Alvim participou da transmissão ao vivo pela internet em companhia do próprio capitão reformado de artilharia (ver aqui), compartilhando a mesa com o secretário nacional da Pesca (aquele que elogiou a inteligência dos peixes para desviarem do óleo contaminando o litoral nordestino). Durante a transmissão, a “genialidade” de Bolsonaro reforçou a confiança no autor de dramaturgia para garantir uma cultura que garanta “o conservadorismo em arte”, para “salvar os jovens” e “dignificar o ser humano”.

Um dia depois, Alvim grava em vídeo a seguinte frase “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – ou então não será nada.” Já o seu referente afirmara em 1933: “A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada.” Logo, a ênfase no páthos, no sentido de uma epopeia da cultura nacional (no caso de Alvim seria uma nação imaginada, um país de invasores “brancos”, pois os povos dos Brasis estão centrados em Palmares e Pindorama) implicaria em algo “grandioso”, como uma queima de livros, execração cibernética, celebrações de pentecostalismo capitalista?! Algo assim, premiado pelo Estado através do governo de turno. Talvez.

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Alvim foi demitido porque se descuidou. Como provar? Porque na véspera fora elogiado ao vivo pelo próprio presidente. Com sua exoneração, já é o quarto a ocupar o cargo em um ano de desgoverno. Sua pregação foi antissemita? Sem dúvida. Elogiou, plagiou, repetiu um discurso nazista? Com certeza. Uma das evidências do desconforto com tal discurso veio do próprio embaixador de Israel (ver aqui), que apoiou a demissão do dramaturgo, assim como a nota da Confederação Israelita do Brasil (CONIB, ver aqui). Repito: vimos um sintoma, um aspecto tangível, a relação de fascínio da extrema direita protofascista com o nazismo e sua ascensão é permanente. Após a demissão, Roberto Rego Pinheiro (nome de registro de Roberto Alvim) cogitou que todo o evento teria base em alguma “ação satânica” (ver aqui). Como não se pode rir dessa situação, só nos resta aumentar ainda mais a indignação.

Nada do que foi narrado acima é “brincadeira” ou tema secundário, mas parece que o governo do premiê (ainda no cargo) israelense Benjamin Netanyahu ignora solenemente a ameaça real. Para o carcomido do mais que suspeito  primeiro-ministro, nos países “ocidentalizados”, ter boas relações com governos mais à direita – como Bolsonaro e Trump – e ignorar os apoios de antissemitas declarados que tais governantes têm, forma um tipo de “pragmatismo político” que só ajuda a relativizar os efeitos danosos da laia. Para quem duvida ou pensa ser exagero, sugiro assistir às “comemorações” da Alt-Rigt (ver aqui) depois de um ano da Batalha de Charlottesville, em agosto de 2017 (ver aqui).

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Tem limite o cinismo das relações internacionais?! Há limite para a hipocrisia da direita brasileira? Não para ambas as perguntas.

Bruno Lima Rocha é cientista político e professor nos cursos de relações internacionais, jornalismo e direito  (blimarocha@gmail.com)

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