O auxílio emergencial não chega às mães, por Paola Loureiro Carvalho

Passados mais de 30 dias do lançamento do Auxílio Emergencial, somente 27% destas mulheres conseguiram receber o benefício.

Foto Oxfam

O auxílio emergencial não chega às mães

por Paola Loureiro Carvalho

No brasil temos mais de 11,5 milhões de mulheres que são mães-solo, sendo que 75% delas solicitaram o Auxílio Emergencial do Governo Federal, como aponta pesquisa do Instituto Locomotiva. A mesma pesquisa, nos mostra que 57% delas, vivem abaixo da linha da extrema pobreza, que em 31% das casas já faltou dinheiro para produtos de higiene e em 35% faltou alimentação. Número que seria ainda maior, se não fossem as ações dos movimentos sociais e organizações da sociedade civil.

Vale lembrar, que a pressão popular e das bancadas de oposição, garantiram a alteração da proposta do governo e a aprovação do valor de R$ 600,00, podendo chegar a R$ 1.200 para mães solo. Resolução importante para atender as mães que precisam garantir alimentação, aluguel, gás, energia elétrica e tantas outras demandas básicas. Esta aprovação, é o reconhecimento de uma situação recorrente nas famílias brasileiras, demonstrando a relevância de proteger as famílias mais vulneráveis, em que as mulheres negras são maioria como chefes de família. O valor aprovado é uma importante garantia de do direito ao isolamento, para tantas mães que estão com os filhos em casa, sem escola e sem a possibilidade de manter os seus trabalhos, mesmo que eventuais. É a principal ação para preservação da vida e de cuidado com a população, em especial, para aquelas que estão sozinhas com seus filhos.

Porém, passados mais de 30 dias do lançamento do Auxílio Emergencial, somente 27% destas mulheres conseguiram receber o benefício. Milhares seguem em análise, outras tantas tiveram benefício negado, com justificativas sem nenhuma conexão com a realidade e até mesmo as mães do Programa Bolsa Família, que deviam ter migrado automaticamente para o auxílio emergencial, não receberam o que garante a lei, pasmem, os números e relatos são alarmantes. Muitas delas, passando noites expostas ao coronavírus e à humilhação, nas portas das agências da CAIXA.

Mas os números viram mulheres, que resistem a invisibilidade e violência por parte do estado. Os relatos que temos recebido são dolorosos: “tenho um filho de dois anos e não tenho mais como comprar o leite dele, tenho engrossado água com farinha”, ou “estou desesperada sem conseguir receber o auxílio, sou cabelereira e não posso trabalhar, na sexta feira tive que me prostituir para comprar comida para dentro de casa” ou ainda “vão me despejar com meus filhos, não sei mais o que fazer sem o dinheiro”. Essa é a realidade de milhares de mães brasileiras, que passaram o dia das mães pensando em como sobreviver.

Um governo que executa uma política pública tão essencial e mundialmente defendida para que se garanta vida, da forma mais irresponsável e cruel possível é tão nocivo quanto o vírus. É inadmissível passados mais de um mês de isolamento, e a fome e desesperança serem o cotidiano dessas mulheres. Estão fora da prioridade? Escolhidas para morrer? Invisíveis? Assim é um Governo violador de direitos!

E o que tenho eu pra dizer pra essas mães? Resistam! Pela sua filha, pelos seus filhos. Resistam mulheres das mais diferentes comunidades! Estamos na luta pela implementação plena do Auxílio Emergencial, para que o país caminhe para uma Renda Básica Universal e Incondicional, que pare de estabelecer condicionalidades e critérios que geram exclusão e exposições cotidianas. Queremos respeito! Queremos nossa dignidade e o direito de sermos mulheres e mães.

Paola Loureiro Carvalho, Assistente Social, Diretora de Relações Institucionais e Internacionais da Rede Brasileira de Renda Básica

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