O Brasil entre quatro paredes, por Izaías Almada

O Brasil entre quatro paredes

por Izaías Almada

Existem limites para o cinismo ou para a hipocrisia?

No Brasil da esculhambação generalizada, do deboche ao regime democrático, da ignorância política de quase toda a sociedade, do circo em que se transformaram os três poderes republicanos, pode-se afirmar, com toda a certeza, que não.

Negam a um ex-presidente da república, preso e condenado sem provas, que ele deixe por algumas horas o cárcere para se despedir do irmão falecido na véspera. Ignomínia que nem a ditadura civil/militar de 1964 fez ao então líder metalúrgico Luiz Inácio da Silva quando preso, concedendo-lhe o direito de ir ao velório de sua mãe.

Evidencia-se no nosso cotidiano a prática do ódio e da perversidade, tão cara aos incompetentes e frustrados cidadãos que, embora cinicamente digam que a lei é para todos, julgam-se acima dela. O STF é um escárnio.

Para a maioria dos cidadãos brasileiros o inferno é aqui e agora… E o inferno são os outros. Nada de fogueiras e diabos com tridentes a nos torturar, mas sim a falta de comunicação, de humanismo, da solidariedade, de justiça social, para dizer o menos e o óbvio.

O ano que marcou o final da Segunda Grande Guerra, 1945, foi também o ano em que o filósofo e escritor Jean Paul Sartre escreveu aquela que é, em meu entender, uma de suas peças mais instigantes: “Entre Quatro Paredes” (Huis Clos). Nela, a frase “o inferno são os outros” se imortalizou.

Os horrores do nazifascismo ainda estavam vivos na memória do mundo, sobretudo dos povos europeus, quando o pensador francês coloca quatro personagens fechados num recinto sem saída e os faz agir e dialogar (o criado não fala, apenas obedece a ordens) sobre liberdade, conceito que Sartre entende ser uma condenação ao homem.

Outra frase sua, “o homem está condenado a ser livre”, um dos suportes da filosofia existencialista, criou enorme polêmica entre outros pensadores e criou também um fosso entre a religião, no caso a Igreja Católica, e os escritos de Sartre. Sua obra foi condenada ao Índex.

Confundindo liberdade com libertinagem, conservadores católicos e outros pensamentos igualmente conservadores levantaram-se contra algumas das colocações de Sartre, sobretudo quando o existencialismo parecia empolgar boa parte da juventude francesa a adjacências europeias.

Liberdade sim, respondeu Sartre, e não libertinagem… Mas com responsabilidade.

Sartre teve problemas também com o Partido Comunista Francês, não só pelo tema dessa peça, mas por outra em particular: “As Mãos Sujas”, onde discute a responsabilidade de um dirigente de partido político.

Entrou e saiu do PCF na década de 50, onde o mundo polarizou-se entre o avanço do capitalismo a qualquer custo e as alternativas de construção de uma sociedade socialista.

A história da humanidade seguiu, Sartre morreu e seus livros ainda frequentam as livrarias e as grandes bibliotecas pelo mundo. A liberdade com responsabilidade, contudo, acomoda-se ao lado de outras grandes utopias e que aos poucos vão sendo condenadas a um novo Índex: a morte do humanismo.

O neofascismo, esse que o mundo atual vai configurando aqui e ali, em países desenvolvidos, em desenvolvimento e mesmo em países periféricos, tem agora ao seu lado a força de uma invenção, a internet e suas redes sociais, que dá voz a homens e mulheres que procuram a qualquer custo seus 15 minutos de fama, normalmente bem vestidos e de corpos saradas, mas com cérebros de galinha.

Tudo indica que 2019 será o início da grande desmoralização brasileira perante o mundo: a Universidade sendo somente para a elite, Jesus conseguindo subir na goiabeira, o aquecimento solar sendo obra dos marxistas e Lula não podendo ir ao sepultamento do irmão porque os helicópteros da Polícia Federal estão em Brumadinho para tirar brasileiros da lama…

Brumadinho é apenas a metáfora que anuncia os novos tempos. O país, enlameado, está se fechando entre quatro paredes.

 

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1 comentário

  1. Grande artigo. Parabéns Izaias.

     “o homem está condenado a ser livre”. Todos esses que através da burocracia do judiciario e da policia federal negaram a Lula o direito de se despedir do irmão que fora também seu pai, agiram pela livre escolha. São os Eichemann nas entranhas do Estado. 

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