O caso de amor entre Bolsonaro e o jornalismo, por Gustavo Conde

Talvez seja essa a função precípua do jornalismo: monitorar não os governos, mas a própria realidade.

Charge: Renato Aroeira

O caso de amor entre Bolsonaro e o jornalismo

por Gustavo Conde

Vou selecionar dois parágrafos do artigo de Vinícius Torres Freire na Folha de S. Paulo de hoje, o primeiro e o último. Depois comento:

“Gente graúda de empresas e finança parece animada com o governo de Jair Bolsonaro em 2020, a julgar por uma rodada de conversas e por declarações dispersas pelos jornais. Não é pesquisa, é “evidência anedótica”, mas a diferença de tom é notável em relação a meados do ano que passou e mesmo aos humores já melhorados de fins de 2019, depois de aprovada a reforma da Previdência.

(…)

Trocando em miúdos as observações impressionistas, trata-se em geral do seguinte: 1) governo e Congresso teriam chegado a algum modelo de convivência; 2) a “interlocução” dos congressistas com empresários seria “muito boa”; 3) não há oposição capaz de abalar esse esquema e há paz política ‘nas ruas’.”

O jornalismo convencional se tornou isso: torcida. O primeiro sintagma enunciado por Torres Freire é explicativo: “gente graúda”. É essa “gente graúda” que os jornalistas de economia escutam para formular suas teses. E só. Aquela história de “ouvir os dois lados” é coisa boba de manual de jornalismo, nada mais.

Essa prática abjeta de opinião econômica ativa a memória para o comportamento da imprensa conforme a música de turno. São, a rigor, duas faces da mesma moeda.

Nos governos Lula e Dilma, os jornalistas de economia e política dedicaram todo o seu tempo de trabalho a fazer previsões catastróficas, enquanto o país acumulava reservas, pagava a divida externa, combatia a pobreza e gerava crescimento e emprego.

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Freire era um desses. Para ele, tudo ia mal no Brasil nos idos de 2010, quando o crescimento foi de 7,8%, “um crescimento pífio, no vácuo da ‘bonança’ internacional.”

Agora, com Bolsonaro o quadro é outro. Os dados empíricos, publicados pelo próprio IBGE aparelhado, revelam um cenário de terra arrasada, retomada econômica que nunca chega, aumento da pobreza, aumento da concentração de renda, destruição da Amazônia (Inpe) e retorno sorrateiro da inflação.

Mas para Vinícius Torres Freire, a “gente graúda” está otimista. O governo se entende com o Congresso, o tom da voz dos empresários melhorou e a palavra corrupção nem aparece no discurso. Não há crise, não há rachadinha, não há cartão corporativo, não há erros na condução econômica de Paulo Guedes.

O missivista tem mestrado em Harvard, ele sabe das coisas.

O rescaldo geral dessa humilhação que é testemunhar o estado de miséria do jornalismo brasileiro é ver confirmada pela undécima vez que “é assim mesmo que funciona”: a soberania popular é inimiga das redações de jornal. “Povo” é uma coisa brega. Falar em “trabalhador” é prática vulgar.

Jornalistas da Folha são chiques, lidam com “gente graúda”. É essa “gente graúda” que entende de economia, de investimentos, de crescimento econômico.

Mas e a boa prática jornalística de dar voz a dois lados? Que se lasque! Não existe fiscalização no jornalismo, então eu faço o que eu quero, fim.

Nos governos Lula e Dilma, assistimos o jornalismo “torcendo contra” 13 anos seguidos, com conspirações, sabotagens, mentiras e, sobretudo, com o tom cético dos derrotados.

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Agora, nos governos Temer e Bolsonaro, vemos o nosso jornalismo debutar em êxtase, com esperança, otimismo e uma fé inaudita na honestidade do governo e dos empresários.

Ironia das ironias, Bolsonaro pisa nesse jornalismo como se ele fosse um inseto repulsivo – e é – e faz-se de vítima, emulando a síntese de perseguição midiática dos governos Lula (e Dilma) para habitar a posição antissistema e “repetir a história como farsa”, flanando na memória confusa da cadavérica opinião pública brasileira.

Talvez seja essa a função precípua do jornalismo: monitorar não os governos, mas a própria realidade. Gerenciar a verdade, de modo a torná-la palatável para seus anunciantes, para os donos do dinheiro em geral e para a classe média que ainda tem tempo de ler jornal – e que se equilibra na corda bamba da ignorância de grife.

O Brasil criou 42 novos mil milionários em 2019. É o combate à pobreza 4.0 de Temer e Bolsonaro, em que o lema poderia ser “Brasil, um país de milionários”.

Porque ser “só” rico é coisa de “gente pobre”. O bom mesmo é ser milionário, gente graúda, que opina para jornalistas de economia de jornal importante.

Esqueça de uma vez por todas o romantismo ingênuo que habita os significados da palavra “jornalismo”. Jornalismo é manutenção de poder, é a repartição privada que administra os sentidos e não permite que eles possam desgarrar da sua estabilidade classista.

Jornalismo é controle – mas um controle glamourizado, pintado de democrático e envernizado com a tinta gasta da ideia de liberdade de expressão, outro subproduto espancado pelo vale-tudo da notícia monocórdica.

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Isso não é novidade? Claro que não. O caso é que até as coisas velhas e largamente sabidas precisam ser ditas de vez em quando.

Ah, o jornalismo.

Talvez, ele esteja certo. A verdade é autoritária e prepotente. Um mundo repleto de verdades seria insuportável.

Eis uma verdade insofismável – e desagradável.

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