O caso dos diplomatas venezuelanos, por Andre Motta Araujo

O Brasil não pode remover a Venezuela de suas fronteiras, que SÃO AS MAIORES de todo o continente, 2.700 quilômetros. Como então NÃO ter relações diplomáticas com um País vizinho em tal dimensão?

O caso dos diplomatas venezuelanos

por Andre Motta Araujo

Quebrando mais uma tradição secular de boa diplomacia, o Itamaraty expulsa diplomatas credenciados como representantes do Estado da Venezuela no Brasil, quebrando todas as convenções de Viena e toda a regra de relacionamento diplomático seguida pelo Brasil desde 1822, mais ainda, pela primeira vez em quase 200 anos o Brasil não tem representação diplomática em um País vizinho com o qual não está em guerra. Como diria Talleyrand, além de um crime, é um erro, o Brasil só perde e não tem como ganhar.

O Brasil não está em guerra com a Venezuela e o atual Governo da Venezuela, péssimo que seja, CONTROLA o território, portanto é governo até agora de direito e de fato.

Pode e deve o Brasil ter as maiores reticencias contra esse errático governo, MAS há um imperativo, a REALIDADE GEOGRÁFICA. O Brasil não pode remover a Venezuela de suas fronteiras, que SÃO AS MAIORES de todo o continente, 2.700 quilômetros. Como então NÃO ter relações diplomáticas com um País vizinho em tal dimensão?

Os Estados Unidos NÃO TINHAM relações diplomáticas com Cuba, APENAS OFICIALMENTE, mas tinha em Havana uma Embaixada de fato, sob a bandeira da Suíça, A SEÇÃO DE INTERESSES EM HAVANA, que funcionava no prédio da antiga Embaixada e abrigava 244 diplomatas além de 360 funcionários cubanos, quer dizer, era uma EMBAIXADA DE FATO embora não “de jure”, para proteção dos interesses americanos em Cuba, que são enormes, fora da retórica e das crenças dos ingênuos.

Esse arranjo perdurou até 20 de Julho de 2015, quando a Embaixada dos EUA em Havana foi reaberta como representação oficial, após décadas de não relações oficiais.

Durante a Segunda Guerra, com a França dominada pelo Terceiro Reich, os EUA mantiveram uma Embaixada em VIchy, sede do governo colaboracionista do Marechal Petain, conhecido como Estado Francês ou a “França de Vichy”, uma Embaixada plena, chefiada pelo Almirante Lehay, amigo pessoal do Presidente Roosevelt, que funcionou até Junho de 1944, quando tropas americanas desembarcaram na Normandia. Porque esse interesse em manter uma Embaixada em Vichy? Muito alto e lógico, para MANTER UM POSTO DE OBSERVAÇÃO dentro do território inimigo, essa deveria ser a lógica do Iramaraty em Caracas, se houvesse um estrategista em função.

O Brasil deve ter ALTÍSSIMO INTERESSE na situação da Venezuela, com ou sem Maduro, neste governo e em um futuro governo, a Venezuela é um grande País e onde o Brasil deve ter INTERESSE PERMANENTE com qualquer governo que esteja em Caracas, há o interesse óbvio de uma fronteira comum, há um enorme potencial mercado na Venezuela para a indústria brasileira, especialmente de alimentos e construção civil, a Venezuela vai precisar de grandes investimentos em reconstrução e o Brasil precisa estar lá presente, não há nenhuma lógica em fechar a Embaixada em Caracas, porque ela será sempre um posto avançado do Brasil em qualquer situação.

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A “operação Guaidó” não deu resultados práticos, foi um gesto meramente simbólico e não conseguiu resultados políticos concretos, uma aposta mal colocada.

Para muitos países a situação é retorica, para o Brasil não, somos o maior vizinho da Venezuela em fronteira física, partilhamos com esse País a Amazônia norte, há uma imensidão de interesses em jogo na região, todas as fichas devem ser jogadas, SEM TEMPERO IDEOLÓGICO, trata-se de geopolítica e nada mais.

A Colômbia, outro grande vizinho da Venezuela, tem posição ativa dentro do território venezuelano, com Embaixada aberta em Caracas PORQUE HÁ INTERESSE DE CIDADÃOS de ambos países que necessitam de amparo consular, um País só deixa de ter representação consular em caso de guerra declarada, porque precisa dar assistência a seus cidadãos. Há brasileiros na Venezuela e há venezuelanos no Brasil, todos precisam de documentos, de vistos, de papeis, países mantém relações diplomáticas até mesmo durante guerras, por interpostos países, a geopolítica não acaba por causa de governos de que o vizinho não gosta, é uma postura infantil.

Durante a Segunda Guerra, a Romênia e a Hungria, satélites então da Alemanha nazista, tinha Embaixadas no Cairo até 1943, o Egito era oficialmente neutro embora dentro de seu território se travassem sangrentas batalhas entre ingleses e alemães, liderados pelos Generais Rommel e Montgomery, as Embaixadas só foram fechadas por extrema pressão da Inglaterra, todos os países têm INTERESSE em se posicionar dentro de território, mesmo inimigo, porque geralmente isso traz vantagens para quem está dentro.

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O PAPEL CENTRAL DO BRASIL

Maior país do continente, o Brasil tem por força de seu tamanho e contorno geopolítico papel CENTRAL nos destinos políticos da região, não pode enfiar a cabeça na areia como avestruz se fingindo de zangado e se RETIRANDO da cena com fechamento de sua Embaixada e expulsão de diplomatas venezuelanos. O QUE O BRASIL GANHA COM ISSO?

O atual governo em Caracas pode e deve cair por sua inviabilidade e se isso ocorrer o BRASIL NÃO ESTARÁ PRESENTE nessa transição, terá que reabrir sua Embaixada, isso leva tempo e o Brasil já entrará atrasado em um novo cenário, com as perdas que isso vai gerar. Veja-se bem que não se trata aqui da Bélgica ou Dinamarca, trata-se do MAIOR VIZINHO da Venezuela, com macro interesse na região. Na história diplomática brasileira, a retirada de pessoal diplomático sempre se deu APÓS declaração de guerra, assim foi a Embaixada em Berlim em 1941, mais tempo ainda demorou o fechamento do Consulado em Paris, que salvou mais de 300 vidas com vistos que significaram salvo conduto vital, da mesma forma a Embaixada alemã no Rio foi fechada com prazos civilizados, o Embaixador Karl Ritter teve tempo de sair em boa ordem, isso depois da declaração de guerra do Brasil, em PLENO CONFLITO as retiradas de pessoal diplomático foram dentro de prazos programados com espaço suficiente e sem atropelos.

Pelas normas da Convenção de Viena de 1961, o País que cessa relações diplomáticas com outro pode designar um terceiro País para cuidar de seus interesses, porque sempre se deixam interesses inconclusos para trás, no caso da 2ª Guerra o Brasil designou a Suíça, país sempre neutro, tudo dentro de regras protocolares e civilizadas.

Há mais um capítulo nessa questão: é possível o País anfitrião oferecer ASILO a diplomatas dissidentes do regime que o Brasil repudia, QUE SE ACEITO, se volta como propaganda a favor do Brasil, nada disso foi feito na decisão violenta de simples expulsão de diplomatas venezuelanos em plena época de pandemia e ausência de voos para Caracas, são expulsos e como sairão do Brasil? Tudo improvisado e sem um objetivo claro, mera elucubração ideológica barata, sem estratégia e sem visão geopolítica, sinal dos tempos de uma diplomacia de jardim da infância, de gente tosca, amadora, sem noção de História, de grandeza, de visão geopolítica de alto nível.

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12 comentários

  1. Esperar racionalidade de verdadeiros jumentos genocidas é esperar demais. O Brasil virou escracho internacional, uma vergonha em termos de economia, política, democracia, soberania, justiça, e agora mais do que nunca, em irresponsabilidade sanitária para a comunidade internacional. Tudo isso, sob as benções de um congresso covarde de corrupto, umas forças armadas golpistas e patéticas, uma imprensa lesa-pátria e corrupta e um gado analfabeto mugindo diariamente. Estamos ferrados.

    • Ouvi, trata-se de um personagem menor, não tem estatura para derrubar Maduro, esse papel tem mais personificação em Leopoldo Lopez ou Henrique Capriles mas Maduro não cairá a NAÕ ser por uma
      derrubada militar, cada vez mais improvavel OU uma operação de intervenção sob o patrocinio
      da OEA com ação aerea dos EUA e tropa de terra da Colombia e Brasil. O Exercito venezuelano
      nunca foi bem avaliado e hoje está neutralizado por cooptação ao regime, portanto desse lado não vejo solução. Se Biden ganhar nos EUA a operação militar é mais provavel, os Democratas são mais intervencionistas do que os Republicanos, estes tem medo hoje da Russia, que está apoiando Maduro.

      • O atual Governo Venezuelano é consequência de 1 século de exploração norteamericana sobre seu território e petróleo. Quando ‘rompeu a represa’, esperavam consequências controláveis? Mesmo que não concorde, Chavez e Maduro foram escolhas do Povo Venezuelano. Inclusive depois do Golpe produzido por CIA e alguns Militares deste país. Guaido é o que? Defensor da Democracia, se auto-proclamando Presidente? Ou Deus-Sol? Democracia assim, temos muita no Brasil também. A desgraça é termos a Venezuela em nossa s fronteiras e amizade e permitirmos que seja pasto para EUA ou Russia ou China. Uma vez doutrinado a Anão Diplomático é duro libertar-se de quase 1 século de cabresto. Pode até tirar a canga, que o animal cumpre sua tarefa. Pobre país rico…..

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  2. ANÃO DIPLOMÁTICO. Relações Internacionais e Diplomacia são outras páginas que explicam este abismo de 90 anos de tragédias. Até 1930, Barão do Rio Branco. Precisa ser dito mais alguma coisa? A partir da Ditadura Fascista QuintoMundista, Osvaldo Aranha, que foi até a ONU dizer amém para a Fundação de Israel. Como se importasse a opinião do “Bobo da Corte”?! E olha que o Bobo da Corte pode se gabar que viver entra a Realeza. É o Brasil destas 9 décadas, salvo grande período do Regime Militar, principalmente Geisel e Governo Lula nas figuras de Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães. Mas este último não teve tão eficiente Visão Diplomática, afastada da Ideológica, quando o Regime Militar. Ainda assim foi brilhante. Política de Estado que deve direcionar a Diplomacia do Brasil, tratada com o amadorismo e ignorância notórios das mudanças de Governos medíocres substituídos por outros tão ou mais medíocres. 90 anos de ‘coma institucional’ prolongados por mais 4 décadas da mesma NecroPolitica (Safatle). Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação. (P.S. Então entendemos porque não dispomos e vivenciamos a parceria da intelectualidade de Nóbeis Argentinos, Peruanos, Colombianos, Chilenos,Venezuelanos,…. suas magnificas Sociedades e histórias e magníficos territórios e amizade.

    • Zé Sérgio diz: “Até 1930, Barão do Rio Branco. Precisa ser dito mais alguma coisa?”
      O Barão faleceu em 1912.
      A ignorância e a desinformação são fontes certas de opinião e visão muito abaixo da mediocridade.
      O conhecimento do comentarista é formado por leitura de papel em rolo usado.
      De muito fácil explicação.

      • Pen Taylor esta fantástica característica de conseguir ler sílabas e palavras mas não compreender o escrito pode ser Analfabetismo Funcional. Não sei se o seu caso, mas para facilitar, da próxima vez tentarei desenhar. Como não pude ir ao Velório, não lembrava do falecimento do Barão. 2.o Reinado e 1.a República ou República Velha, período ao qual pertenceu Figura tão ímpar da História Brasileira. Esta é a referência, se não ficou claro o que escrevi. Letras, sílabas, palavras,…Tudo ficaria tão mais fácil em historinha de quadrinhos. Quem sabe um dia se GGN permitir. abs.

  3. Para entender esse infindável problema com a Venezuela.

    Onde se lê Venezuela, leia-se (muito) petróleo (perto dos EUA).
    Onde se lê Brasil, leia-se governo Trump.

    Em resumo, os EUA precisam estar seguros de que podem contar com uma das maiores reservas de petróleo do mundo perto no “seu quintal”. Por “quintal”, leia-se América Latina.
    Ah, e por falar nisso. Cuba foi um lapso imperdoável para o brother Sam. Por sorte, em Cuba não tem grandes reservas de recursos naturais exploráveis. Então, os EUA desistiram de invadir e só impuseram um bloqueio.
    Mas, na Venezuela, também no quintal norte-americano e com todo esse petróleo, eles não brincam.

    E um bom argumento para colocar em marcha um processo de retomada desse país, é dizer que se trata de ditadura cucaracha, incompetente e perversa. Esse discurso cai muito bem na classe média. Aquela classe que opera as armas midiáticas, econômicas, judiciais, militares e políticas para os donos do capital – que estão de olho no controle das maiores reservas de petróleo próximas aos EUA.
    É importante ter serviçais desse nível intermediário convencidos de sua missão redentora.
    Basta ver como o governo da Arábia Saudita é tratado. E, consequentemente, é visto pelo senso comum das pessoas que se informam pela mídia mainstream.
    Ah, por falar nisso. Tem um filme muito bom sobre a hipocrisia americana, no caso, não é em relação a “democracia”, mas em relação ao “combate as drogas”: Made American.
    Esse filme retrata muito bem essa relação entre o falso combate as drogas e o verdadeiro combate para controlar territórios e recursos na América Latina.
    Aliás, temos que tirar o chapéu para o senso de humor dos americanos, eles sabem como rir de suas hipocrisias.

    E o problema da embaixada?
    É consequência dos ineptos que os donos do capital foram obrigados a colocar no comando do Brasil. Foi o preço pago para tirar esses brasileiros metidos a bestas, como Getúlio, Lula e cia, que não sabem o lugar reservado ao seu país no jogo das grandes nações.

  4. Andy
    Esquece. No Bolsoverso não tem espaço para racionalidade. Foi para o lixo mais de um século de uma diplomacia que fez escola. Nem na época do alinhamento automático desceu o nível a patamares tão baixos. Põe na conta dos astrólogo.

  5. Essa bolsonarada contra a Venezuela faz lembrar a declaração da contrariada rainha Vitória, há cerca de 150 anos, de que a “Bolívia não existe mais”. Mas isso foi a poderosíssima rainha, não o paspalho que ora nos (des)governa junto com asseclas de baixíssima extração, o riff-raff desta infelicitada nação.

  6. O autor do artigo é excelente, muito bem informado e publica textos sempre lúcidos e esclarecedores.
    No entanto, deixa transparecer uma espécie de miopia geopolítica em relação à Venezuela, dando a entender, nas entrelinhas, que trata-se de um governo moralmente ilegítimo ou uma republiqueta de bananas, que no fundo o autor concorda que deveria cair ou ser derrubado, embora o pragmatismo político não recomende loucuras nem aventuras diplomáticas.
    Talvez o autor, no campo geopolítico, esteja excessivamente enviesado por uma narrativa ideológica liberal, a qual desconsidera totalmente as realidades históricas a que estão sujeitos todos os países. Uma leitura mais justa e menos preconceituosa do tema Venezuela levaria a considerações e comparações evidentes.
    Por exemplo, como falar de Venezuela e qualquer pretensa incompetência gerencial de seu governo, sem falar do terrível e genocida embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, equivalente a um cerco da literatura militar?
    Sem mencionar as sucessivas tentativas de golpe que o país vem sofrendo todos os anos, patrocinadas pelos Estados Unidos?
    Sem mencionar a ridícula inclusão, pelos Estados Unidos, de Maduro no rol de procurados, inclusive colocando sua cabeça à prêmio, como narcotraficante, emulando os ocorridos do Panamá de outrora?
    Sem mencionar o apoio popular interno que o regime tem, mesmo com tantas dificuldades?
    Sem mencionar que seu governo é reconhecido internacionalmente, a não ser pelos títeres norte-americanos?
    Como pode dar a entender que as Forças Armadas venezuelana são, de alguma forma, “cooptadas” pelo regime, sem mencionar o necessário papel e as imensas dificuldades de qualquer exército de um país latino-americano em manter sua soberania e independência?
    Como pode esquecer que os próprios Estados Unidos possuem Forças Armadas cooptadas ideologicamente há um século pelo mesmo partido, qual seja, o partido do capital financeiro e da guerra, representado na “águia de duas cabeças” democratas-republicanos – que por sua vez, para efeitos práticos, são tão diferentes quanto Coca e Pepsi? E o que dizer das Forças Armadas brasileiras então, que não conseguem, por vontade própria, se desvencilhar ideologicamente da subalternidade automática aos EUA, do macarthismo e do golpismo? Isso não é cooptação a um governo específico?
    Como não compreender que a dupla democratas-republicanos é engenhoso fruto político da luta secular por hegemonia no poder, tal qual o partido de Chavez-Maduro na Venezuela?
    E as lutas intermináveis por poder no Brasil, onde o Presidencialismo de Coalizão não permite que partido nenhum tenha hegemonia para governar com estabilidade, prolongando uma sangria política ad aeternum? Nosso regime, por exemplo, tem algo a oferecer ao mundo?
    Como pode não citar a histórica guerra por território e petróleo do imperialismo norte-americano como fator chave para compreender a política da região da Venezuela?
    Esses, entre outros fatores, demonstram que não se pode tratar do tema Venezuela, nem de passagem, com simplicidade ou desdém. É um assunto geopolítico complexo e muito interessante, que demanda um pouco mais de profundidade, pragmatismo, observação histórica, e menos ideologia.
    De resto, reitero meus frequentes elogios ao autor, pessoa do mais alto nível pesoal e intelectual.

  7. + comentários

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