O comitê golpista é o incrível exército de Brancaleone, por Vilma Aguiar

O fato é que para um golpe é preciso mais que o desejo megalomaníaco de meia dúzia de celerados. Senão, vejamos os modelos disponíveis.

O comitê golpista é o incrível exército de Brancaleone

por Vilma Aguiar

A ofensiva golpista da família Bolsonaro é cada vez mais explícita e laboriosa. Mas tem se mostrado, na mesma medida, um delírio.  Isso não quer dizer que o trabalho de criação de um Estado autoritário não tenha seus momentos de eficácia e que uma potente corrosão democrática não esteja ocorrendo. Por isso mesmo, é preciso saber exatamente onde o monstro se aloja para melhor o combater.

A palavra golpe já deve ser uma das mais citadas de 2020. Não sem razão.  Reintroduzida recentemente pelo deputado Eduardo Bolsonaro, o chanceler frustrado e ventríloquo do pai, o mesmo que, em 2018 já proclamava que para fechar o STF “bastam um soldado e um cabo”,  agora se sente à vontade para dizer que “não é uma questão de se, mas de quando” haverá uma ruptura. A ameaça de golpe deixa de ser um mero método de governo, para ser um horizonte perseguido pela família.

Condenados ver aqui a história se repetir indefinidamente, sempre como farsa, hoje precisamos voltar a proclamar “não vai ter golpe”.

Mas quais as chances reais de um golpe ocorrer?

Julgo que remotas e, diria mesmo, cada vez mais remotas. O tempo dessa vez não trabalha a favor dos golpistas.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que não há explicações políticas para o golpismo dos Bolsonaros.  Eleito numa conjuntura extravagante em que se misturaram fanatismos (o antipetismo e o lavajatismo), crise econômica aguda e espetacular facada, Bolsonaro, assessorado por seus filhos, soube aproveitar e catalisar esta tempestade perfeita. Foi alçado à presidência saído do submundo no qual vivia e se reproduzia. Estavam (estão) com a faca e o queijo na mão para perpetuar uma dinastia política. Há 24 anos todos os presidentes eleitos do Brasil se reelegeram. Casos de familiares de políticos que seguem os passos do pai e acabam chegando aos mesmos cargos deste, grassam na filhocracia brasileira.

Mas ele e sua prole, medíocres, despreparados, transitando nas beiradas da “vida honesta” com a criminalidade, servidos pelo poder, passaram a achar pouco possuir os cargos públicos mais cobiçados, a máquina pública toda à sua disposição. Mal comparando, é como se o sujeito que ganhou um polpudo bilhete premiado, uma vez que o prêmio está nas suas mãos, começasse a vociferar por aí que merecia a Mega-Sena da virada.

As explicações disponíveis para a obsessão golpista, no ramo da psiquiatria e do direito penal, deixo para os especialistas.

O fato é que para um golpe é preciso mais que o desejo megalomaníaco de meia dúzia de celerados. Senão, vejamos os modelos disponíveis.

A “parlamentada” foi o adotado pela onda de golpes que assolou a América Latina nos anos recentes e atingiu Honduras, Paraguai, Brasil. Nesta, os parlamentos, apoiados pela opinião pública diligentemente construída, destituíram presidentes eleitos. No mais das vezes, foram guiados pela oposição que não conseguia, por outro caminho, chegar ao poder. Uma variação disso ocorreu meses atrás na Bolívia. Nesta, grupos militares e paramilitares, aliados ao Parlamento, forçaram o exílio de Evo Moraes usando o pretexto da falta de lisura das eleições.

Mas Bolsonaro, apesar de não governar, apenas desgovernar, na maior parte do tempo, tampouco está na oposição. Sem apoio maciço do parlamento e já sendo governo, ele mira outro exemplo, que parece ser o de Hugo Chaves, na Venezuela. Neste modelo, um presidente popular e populista forma e arma milícias, mobiliza militares, recria a institucionalidade (como a reconfiguração do tribunal constitucional), controla a imprensa e o parlamento para se perpetuar no poder. O problema é que falta a Bolsonaro o que Chaves dispunha, que é o capital político por fazer um bom governo do ponto de vista dos interesses populares.

Até agora, não há uma única medida, um único projeto que beneficie o conjunto da população que tenha sido liderado pelo governo. Muito pelo contrário.

É  verdade que Bolsonaro foi eleito com um amplo apoio da elite econômica e que parte desse apoio permanece. Mas o que ele ainda pode entregar para manter esse apoio está se reduzindo. Do programa original, a reforma da previdência e a desregulamentação do mercado de trabalho já foram realizados. Sobram umas poucas privatizações e uma reforma fiscal e tributária ainda mais regressiva. Mas são agendas para as quais uma há uma fila de candidatos ávidos por assumi-la.

Por outro lado, se o que ele pode entregar diminui, o que ele entrega efetivamente é cada vez mais calamitoso. Uma montanha crescente de mortos e uma recessão sem precedentes já são realidade. Também o são um governo cambaleante, inseguro, histriônico, incapaz de enfrentar qualquer problema e assumir responsabilidades. É um governo irracional, incompetente, paralisado e beligerante, que se afirma na fanatização de seus seguidores e na transformação de antigos aliados em  inimigos. A escalada da degradação é exponencial. Já somos os párias do mundo em várias modalidades de iniquidades.

Por isso, ele já tem contra si uma parte considerável da sociedade civil organizada, dos poderes judiciário e legislativo, das universidades, do ministério público, dos governadores, da imprensa e mesmo da opinião pública. Talvez isso não seja suficiente para afastá-lo, mas o é para impedi-lo de fazer outra coisa que continuar a rosnar.

É verdade que ele mantém cerca de 30% de apoio, mas a maior parte deste é amorfo e o apoia como presidente eleito; o apoiaria como ditador?

Vista a questão por outro lado, a quem interessaria um golpe de Bolsonaro além de a ele mesmo e à sua família, a umas dezenas de milicianos (policiais ou não) e talvez a umas centenas de militares? Mas mesmo militares e policiais, a troco de quê exatamente?  Uma pauta corporativista? Interesses pessoais plasmados em cargos de poder? Estariam dispostos a disparar suas armas a serviço de um governo que produz apenas espetáculo e pobreza, caos e morte?

É verdade que muitos militares,  sobretudo os que fazem parte do governo, subscrevem o que faz e diz Bolsonaro. Para além do alinhamento ideológico e de seus interesses pessoais implicados, soaria como uma espécie de traição ao homem que os levou de volta ao poder agir de outro modo. Por isso, parece terem mudado de tática e em vez de controlar o presidente, o que se mostrou impossível, pretendem controlar o governo. Eles agora são o governo. Não que o resultado disso seja melhor, haja vista o que está sendo feito no Ministério da Saúde. Como governo, eles não podem desautorizar o presidente, o que daria fôlego ao movimento pelo seu impedimento. Por outro lado, também não convém dar-lhe esperanças demasiadas de que seu delírio golpista tem sustentação. Bolsonaro, na real, não convém a ninguém como ditador. Mantêm-se então no jogo de assopra e morde, avança e recua. Fazem ameaças e depois afagos. Pretendem ser os maestros do baile fúnebre que se instalou entre nós.

Não se trata aqui de desprezar o risco nem de dizer que as instituições estão funcionando. Mas é preciso pensar no tipo de corrosão a que de fato estas estão submetidas. É preciso pensar no avanço do fascismo e do autoritarismo enquanto tais.

Finalmente, é antes o caso de dizer que comitê do golpe bolsonarista é o incrível exército de Brancaleone e, se não o encararmos com o tamanho e importância que ele de fato tem, deixaremos a sombra do golpe turvar a nossa vista.

Sejamos atentos. Há profecias que se autorrealizam.

Vilma Aguiar é socióloga e feminista. Doutora em Ciências Sociais. Durante a pandemia está escrevendo O livro da quarentena https://www.instagram.com/aguiar_vilma/?hl=pt-br

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora