O conceito da história de W. Benjamin e o Brasil dos tempos de Bolsonaro, por Carlos Russo Jr.

Através do conceito de história de Benjamin chegamos claramente ao desprezo que Bolsonaro e seus militares fascistas expressam para com os trabalhadores e para com nossa riqueza e diversidade natural

Walter Benjamin

do Espaço Literário Marcel Proust

O conceito da história de W. Benjamin e o Brasil dos tempos de Bolsonaro

por Carlos Russo Jr.

Em 1940, ano da sua morte ao fugir do nazismo, Benjamin escreve aquela que seria sua derradeira obra, considerada por muitos como o mais importante texto sobre o materialismo histórico desde Marx, enquanto que para outros, a antiga ortodoxia, um retrocesso no pensamento benjaminiano. São elas as “Teses Sobre o Conceito de História”.

Adorno, referindo-se àquele de quem foi o único discípulo, disse que Benjamin, apesar de não ser poeta, pensava poeticamente inclusive questões tão concretas quanto o materialismo histórico. Ele é quase sempre metafórico, na própria acepção grega de “metaphorien”, do transporte que estabelece conexões sensorialmente percebidas, dispensando muitas interpretações. O sentido da importância do progresso material, por exemplo, é por Benjamin cotejado com a excelente metáfora do Anjo da História:

Paul Klee desenhou o “Angelus Novus” e nele se inspira Benjamin. O anjo messiânico nos traria uma imagem de transparência rumo à verdade, à justiça social, à racionalidade amorosa.

“Ele representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O Anjo da História deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruínas sobre ruínas e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.”

G. Sholem, o amigo mais próximo de Benjamin, expressou em versos o sentimento deste sobre sobre o Anjo da História:

“Minhas asas estão prontas para o voo,

se pudesse eu retrocederia,

pois eu seria menos infeliz,

se permanecesse imerso no tempo vivo”.

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O “historicista” e o materialismo histórico

Para Benjamin, todo historiador que não traga em seu coração o materialismo histórico estabelecerá uma relação de empatia com os Vencedores e estes são os que dominam aqueles que têm sido sempre os Vencidos. Esta empatia diz tudo para um materialista histórico: “Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de agora espezinham os corpos dos (vencidos) que estão prostrados no chão”.

“Os despojos carregados em cortejo são o que chamamos bens culturais”. Estes devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram como à corveia anônima de seus contemporâneos, “pois nunca houve um momento da cultura que também não o fosse da barbárie”.

A luta de classes que um historiador educado por Marx jamais perde de vista é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes as coisas do espírito não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor. Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão cada vitória dos dominadores.

Dessa forma, articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como de fato ele foi”. Significa apropriar-se sempre de uma reminiscência, tal como relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como a mesma se apresenta nesse momento ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso.

Esse perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o risco é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento. “Em cada época é preciso arrancar da tradição o conformismo, que quer apoderar-se dela”.

O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. “E esse inimigo não tem cessado de vencer na História”.

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Fascismo e “o progresso”

A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de História que corresponda a essa verdade. O fascismo se beneficia da circunstância de que seus adversários, os democratas, os socialistas, os anarquistas e os marxistas enfrentam-no em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. Ora, o assombro com o século XX não gera conhecimentos, a não ser o conhecimento de que a concepção de História do qual emana é insustentável.

“Nosso ponto de partida é a ideia de que a obtusa fé no progresso dos políticos antifascistas, sua confiança no “apoio das massas” e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelhamento da máquina incontrolável são três aspectos da mesma realidade”. Como vimos, todos eles se reproduziram no caso recente dos governos petistas no Brasil, e seu fracasso abriu as portas ao fascismo.

Acontece que o conformismo, que sempre esteve na essência da de nossa “subdesenvolvida”, viciada e pobre socialdemocracia, que jamais rompeu com o militarismo repressor, não condicionou apenas suas táticas políticas, mas também suas ideias econômicas, na terrível ilusão que a formação de grande “campeões nacionais” nos conduziria ao desenvolvimento social .

No caso da Alemanha de Benjamin, nada fora mais corruptor para a classe operária que a opinião de que ela nadava a favor da corrente. O desenvolvimento técnico era visto como a água do rio. Daí só haveria um passo para crer que o trabalho industrial, sob o manto do progresso técnico, representava a grande conquista política. O trabalho era definido como “fonte de toda a riqueza e civilização”. E a socialdemocracia e com ela Marx, preferiram atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras. E esta classe desaprendeu na escola socialdemocrata tanto o ódio de classe quanto o espírito de sacrifício, “pois tanto um quanto o outro se alimentam da imagem dos antepassados escravizados e não dos descendentes que um dia serão libertados”.

A ruptura necessária

A consciência de fazer explodir o “continuum” da história é própria da revolta social no momento da ação. O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que é transição, mas que estaciona no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história. Enquanto o “historicista” apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz deste passado uma experiência única. “Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo com a meretriz que principia com o fatídico ‘era uma vez… ’”

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O trabalho do capitalismo desenvolvido visa à exploração e destruição da natureza, comparada com igual complacência à exploração do proletariado e sua transformação em despojos do processo. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde o complementar da natureza que “está ali, grátis”, para ser usada, massacrada e destruída. Ora, a natureza não se reproduz na velocidade de sua destruição, como sói ocorrer com a classe operária.

Através do conceito de história de Benjamin, concluído pouco antes de seu suicídio com overdose de cocaína diante da possibilidade de ser enviado aos campos de concentração nazistas, chegamos claramente ao desprezo que Bolsonaro e seus militares fascistas expressam para com os trabalhadores e para com nossa riqueza e diversidade natural: foram feitos para servir e serem exterminados pelo capital.

No entanto, ao final, a perspectiva histórica de Benjamin se faz soar:

“Nesse planeta, um grande número de civilizações pereceu em sangue e horror. Naturalmente é preciso desejar ao planeta que algum dia experimente uma civilização que tenha abandonado o sangue e o horror; de fato estou inclinado a pensar que nosso planeta espera por isso. Mas é terrivelmente duvidoso que nós consigamos trazer tal presente em sua festa de aniversário de 100 milhões ou de 400 milhões de anos. E se não o fizermos o planeta nos punirá a nós, com nossos irrefletidos bons votos a ele, presenteando-nos com o Juízo Final.”

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2 comentários

  1. retirar do monte de ruínas do
    processo histórico verdades que possam nos
    aervir para ultrapassar esse presente permeado
    desse estado de exceção seletivo para uma
    utopia que possa redimira humanidade.

  2. puxa vida………………vou estudar Benjamim
    porque das profundezas de tudo que já estudei, da natureza, dos átomos às galáxias, dos cinco sentidos e até mesmo da história humana sobre a Terra, ando às voltas com dúvidas e certezas a serem reveladas muito em breve, triste e horrorizado, sobre a possibilidade de que nenhum ser vivente de hoje pode se considerar parte de um mundo moderno e em movimento sem estar ou ter permanecido imóvel……………………………..a observar abismos em chama e rupturas de caminhos que se aproximam com uma das imperfeições mais perfeitas

    Hemos de enlouquecer, mas antes que aconteça tentarei me livrar dos cinco sentidos, se já não os perdemos como humanos. Eu Aprendiz, o Dr Historiador Ontem e o Dr Historiador Amanhã

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