O Day After do Lula e o Day After da Catalunha, por José Augusto Ribeiro

Por José Augusto Ribeiro

Pouco mais de um mês antes do que poderá ou não acontecer no dia seguinte ao julgamento de Lula,  em segunda instância,  pelo Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, começamos a viver o “Day After” da eleição na Catalunha, a mais importante e rebelde região autônoma da Espanha, realizada ontem em circunstâncias que seriam surrealistas se não fossem mortalmente perigosas: com os líderes das duas correntes vencedoras fora da campanha eleitoral, um refugiado na Bélgica para escapar à prisão e o outro preso em Madri.

Essa eleição foi convocada pelo Primeiro-Ministro da Espanha (oficialmente Presidente do Governo), o conservador Mariano Rajoy, do Partido Popular, depois de decretar a intervenção na Generalitat, o governo catalão, e destituir seu Presidente, Carlos Puigdemont, e todos os ministros deste, quando o Parlamento de Barcelona aprovou uma resolução que proclamava a independência da Catalunha,  sob a forma de república soberana (a Espanha voltou a ser monárquica depois da longa ditadura do Generalíssimo Francisco  Franco).

Paralelamente à intervenção, a Justiça espanhola, não a catalã, abriu processos por sedição e rebelião  (e naturalmente corrupção) contra Puigdemont, líder do partido Juntos pela Catalunha,  contra seu Vice, Oriol Junqueras, líder da velha Esquerda Republicana Catalã, e contra todos os outros ministros. Nãoi foi possível abrir processo contra os membros do Parlamento, porque a resolução que proclamava a independência e a república não foi unânime, embora quase, e tinha sido por voto secreto – o que tornou impossível saber quem votou como. Mas a Presidente do Parlamento chegou a ser presa por ter permitido a votação.

Puigdemont e os ministros do governo catalão destituído não opuseram qualquer resistência à intervenção e entregaram pacificamente o comando da força policial militar da Catalunha, os Mossos de Esquadra, assim como dos ministérios civis. Apesar disso, a Justiça espanhola decretou a prisão preventiva de todos eles.

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Puigdemont e alguns ministros refugiaram-se em Bruxelas, capital da Bélgica e sede do Conselho e do Parlamento da União Européia, enquanto Oriol Junqueras e os outros ministros da Esquerda Republicana Catalã permaneceram em Barcelona e foram presos e transferidos para Madri.

Mesmo sem poder participar da campanha eleitoral (ou, quem sabe, por causa disso?),  Puigdemont  e Junqueras venceram a eleição e conquistaram juntos a maioria absoluta das 135 cadeiras do novo Parlamento catalão. É verdade que isoladamente  o maior número de cadeiras, 37,  foi conquistado pelo partido Cidadãos, neoliberal e contra a independência, o que passou a ser trombeteado pelo governo de Madri e pela grande mídia como uma derrota dos independentistas. Estes, porém, conquistaram a maioria absoluta do Parlamento, 70 cadeiras – 34 do partido de Puigdemont, 32 da Esquerda Republicana de Junqueras e 4 do partido “anticapitalista” CUP, Candidaturas  de  Unidade  Popular.

A líder do Cidadãos, Inês Arrimadas, proclamou-se vencedora, argumentando ser praticamente impossível os deputados de Puigdemont e Junqueras se unirem para  garantir a investidura de um governo chefiado por Puigdemont. Imediatamente  foi contestada pela secretária-geral da Esquerda, Marta Rovira, que comandou a campanha do partido devido à prisão de  Junqueras. A Esquerda Republicana Catalã – disse ela – não cogita de qualquer alternativa à recondução de Carles Puigdemont à presidência do governo da Catalunha. 

Menos de uma hora antes, a mídia informava que Marta  fora incluída em nova lista do relator da operação Catalunha no Tribunal  Supremo da Espanha, Pablo Llarena, que tinha decidido abrir investigações pelo crime de sedição contra ela,  contra o ex-Presidente da Catalunha Arthur Más e contra a ex-deputada da CUP Ana Gabriel, a presidente do grupo parlamentar desse partido, Mirella Boya, e a presidente da Associação  de  Municípios pela  Independência, Neus  Lloveras – quatro mulheres e um homem, numa Catalunha com grande presença das mulheres na cena política.

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Do exílio em Bruxelas, Puigdemont propôs um encontro ao Primeiro-Ministro Rajoy, para negociarem uma solução pacífica e civilizada – um encontro sem condições e em qualquer lugar na União Europeia, menos da Espanha, onde continua em vigor a ordem de prisão contra ele. Rajoy respondeu que se tivesse de negociar seria com a suposta  vencedora da eleição, Inês Arrimadas, mas em seguida deu um passo atrás, talvez percebendo a fragilidade dessa postura, e admitiu negociar, não disse com quem, se a “unilateralidade”  for abandonada.

Estes os fatos até o meio da tarde no Brasil. Muita coisa ainda pode acontecer na Espanha e na Catalunha ainda hoje, porque ambas têm pela frente as muitas horas úteis depois da sesta. Mas o que já aconteceu neste “Day After” ibérico mostra que o autoritarismo e a linha dura do governo e da Justiça da Espanha não conseguem aceitar as seculares aspirações nacionais da Catalunha.

No Brasil já tivemos antecipadamente grande medo de um “Day After”, o que se seguiria à votação da emenda das “Diretás Já!”,  derrotada pelo autoritarismo e pela linha dura civil-militar que impôs ao governo do Presidente Figueiredo a decretação de medidas de emergência em Brasilia e a censura à TV e ao rádio em todo o país, proibidos de transmitir a sessão do Congresso Nacional porque se ela fosse acompanhada ao vivo  a emenda seria aprovada.

Felizmente a oposição teve a serenidade e a inteligência de não permitir que a decepção se tranformasse em revolta e ofereceu imediatamente ao país a alternativa de mudança que foi a candidatura Tancredo Neves. Logo os comícios de Tancredo eram tão grandes quanto os das Diretas e aquela eleição indireta transformou-se em virtual eleição direta, que ele teria vencido com mais de 70% dos votos, segundo as pesquisas da época.

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Daqui a um mês, o Brasil  terá  outro “Day  After” que  o mantém em suspenso, entre a apreensão e a angústia: o dia seguinte ao julgamento de Lula em Porto Alegre.

Já se sabe,  a julgar pela uniformidade das decisões da turma do tribunal de Porto Alegre encarregada dos processos da Lava Jato, que a condenação de Lula deve ser confirmada e talvez agravada. Não se sabe se essa turma vai determinar a prisão imediata de Lula. Pode ser que as implicações do caso da Catalunha já tenham chegado até lá, mas independente disso é claro que no próprio aparelho judiciário ninguém desconhece que desde sua condução coercitiva no início do ano passado a candidatura de Lula não parou de crescer e hoje nem o juiz Sérgio  Moro conseguiria derrotá-lo nas urnas. 

O novo Parlamento da Catalunha deve ser instalado em janeiro, dias antes do julgamento de Lula. Até lá saberemos se o resultado da eleição de ontem poderá ser respeitado  ou se aquelas nações agrupadas em torno da monarquia de Madri e tão diferentes uma da outra, em cultura, idioma, história e aspirações políticas, entrarão  em sua mais grave crise política desde a Guerra Civil  Espanhola. 

P.S. Que beleza saber de tantas mulheres ocupando posições de liderança e comando na vida política da Catalunha!

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5 comentários

  1. Não vejo a mais remota

    Não vejo a mais remota relação entre a situação da Catalunha e o o julgamento de Lula. Absolutamente nada a ver.

    E o fato de os independentistas teram tido uma vitoria nas cadeiras mas não no voto popular na Catalunha não significa

    automaticamente que a Catalunha fica independente. Isso é impossivel pela Constituição Espanhola , não há previsão para secessão de uma provincia do Pais a não ser por plebiscito em TODA a Espanha, votando todos os eleitores espanhois e não só os catalães. A maioria dos eleitores catalães votou CONTRA a independencia, que é uma ideia tosca em um mundo globalizado,

    não apoiada pela União Europeia e que pode destruir a economia da Catalunha que só é prospera porque fornece para a Espanha, se independente não terá seu maior cliente e fatalmente entrará em decadencia e desimportancia.

  2. O….

    Catalunha. Num dia normal de semana. Num dia de trabalho, como outro qualquer. Sem Eleições OBRIGATÓRIAS E DITATORIAIS. Eleições Livres e Facultativas. Sem Biometra. Sem Urna Eletrônica. Sem Horário Político OBRIGATóRIO. Numa Urna Plástica, das mais baratas possíveis. Num simples pedaço de papel como cédula. O menor custo possível. Com comparecimento de quase 85% da População. Sem uma infinidade de Párias e Parasitas de TRE’s ou TSE’s. Sem Fundo Partidário Criminosos e Bilionário. Estas pessoas foram decidir seu futuro e seu destino. E aí Brasil? Até quando a aceitação da mediocridade e do cabresto? (P.S. Nossa Imprensa também precisa parar de só reproduzir a grande imprensa ocidental e das grandes potências. Quando houve divisão na Catalunha? O que houve foi uma lavada dos Separatistas) 

    • o….

      E o melhor de tudo. Aqui no Brasil, certos apoiadores desta imbecilidade ditatorial, argumentou que no Plebiscito na Catalunha  a adesão havia sido baixa, o que justificaria a obrigatoriedade do comparecimento, para legitimar tais eleições. As atuais eleições com comparecimento superior a 80% ( maior que na nossa escravidão) mostrou que o resultado foi exatamente semelhante. Mas sabemos o porque deste Brasil2017. É de muito fácil explicação.

  3. Dos 3 partidos

    Dos 3 partidos independentistas (Esquerra Republicana, PDCat e CUP), apenas a CUP anticapitalista e antisistema é coerente com o pedido de independência. isso porque a CUP também é anti Europa, ao contrário dos outros dois. É inacreditável que queiram se livrar do jugo de Madrid mas aceitem o jugo de Bruxelas.É surreal. 

    Além do que a história do independentismo ganhou força cerca de 10 anos atrás quando a justça começou a investigar a família Pujol que gerou o PDCAT foi flagrado com inexplicável fortuna em Andorra e outros paraísos fiscais. A opartir daí eles que fazem parte da elite catalã começaram a pedir um país só para eles. Além do enrosco do Estatut da Catalunya provocado pelo Partido Popular de Mariano Rajoy. 

    Por outro lado, a Catalaunha foi uma das mais ricas e prósperas Autonomias da Espanha. A cultura catalã é amplamente divulgada e.. os que reclamam, reclamam porque dizem que pagam mais impostos e não recebem o mesmo retorno. Isso não é verdade. Como em um país federativo, a lei de orçamentos na Espanha prevê a solidariedade entre autonomias como em um país federado. 

    Portanto, apoiar os independentistas é principalmente apoiar a direita reacionária de Puigdemont e dos Pujol… Melhor seria apoiar Oriol Jonqueras de Esquerra Republicana que Puigdemont que abandonou os companheiros de luta na prisão e correu para Bruxelas onde come mexilhões e frequenta óperas. 

    Estudando a história da Espanha com seriedade, muito mais motivos teria o País Basco em querer ser independente..com língua e culturas próprias, muito mais que a Catalunha. No entanto, neste momento, os bascos estão felizes e quietinhos. A ETA já deixou de existir. 

    Como disse Bono do U2 sobree a crise da Catalunha: ;;;”nos dias de hoje devemos lutar para acabar com as fronteiras e não para criar mais.”

     

     

     

  4. As “similitudes” dos planos

    As “similitudes” dos planos econômicos brasileiro e espanhol que trouxe ao Brasil o primeiro com certeza amplificou o sentimento separatista…

    Aqui ainda não apareceu…

    Mas quando aparecer vai ser uma pedra no sapato!

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