O debate econômico no Brasil e o neoliberalismo, por ML

É a opção pela construção de uma sociedade neoliberal que trava a adoção de políticas anticíclicas tradicionais.

O debate econômico no Brasil e o neoliberalismo

por ML

Comentário ao post ‘Foram os economistas, não os bolsominions, que atropelaram a razão, por Luis Nassif

Penso que, na verdade, há duas questões que devem ser distinguidas no debate econômico travado no Brasil.

A primeira concerne à política a ser adotada frente a recessão. Nesse ponto, duas visões, ou modelos, pautaram as discussões pelo menos a partir de 2014: os de inspiração keynesiana e o que podemos chamar, sem muita precisão, de neoliberal.

No modelo keynesiano (adotado por Nassif), devem ser conjugadas políticas monetária e fiscal expansionistas, ou seja aumentar a demanda agregada; no neoliberal, ao contrário, deve-se promover um ajuste do setor público, o que, evidentemente, reduz a demanda agregada. Mas, o ajuste, nessa visão, restaura a confiança do setor privado que aumenta seus investimentos mais do que compensando a retração do setor público. É a famosa “fada da confiança”.

Tudo isso foi muito discutido na academia, nos jornais nacionais (aqui mesmo, no GGN) e internacionais (Krugman, p. ex.) e no FMI. A esta altura só os mais fanáticos neoliberais (mas não são poucos, Folha de SP, etc.) insistem na desmoralizada fada da confiança. Resta saber se de fato ainda acreditam mesmo nisso.

Por que, então, não se adotam políticas anticíclicas? Bem, primeiro devemos reconhecer que houve alguma redução dos juros, mas a política fiscal expansionista continua a ser tabu. Julgo que a explicação está na segunda questão que está em pauta: o modelo de desenvolvimento econômico (algo muito mais complexo do que o ajuste de curto e médio prazo) a ser adotado no Brasil.

É a opção pela construção de uma sociedade neoliberal que trava a adoção de políticas anticíclicas tradicionais. Para o construtivismo autoritário neoliberal (não há contradição nos termos), é necessário terminar a destruição do incipiente estado de bem-estar social brasileiro e do setor produtivo estatal, o que enquadraria o Brasil na “nova ordem” econômica e política hoje em crise no mundo. Trata-se, portanto, de reduzir o tamanho do setor público, o que é incompatível com uma política fiscal expansionista.

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Devemos reconhecer, no entanto, que a esquerda (digamos assim) não tem uma proposta clara de modelo de desenvolvimento. É certo que a era Lula marca a tentativa de construção de um estado de bem-estar social, mas pouco ou nada fez para implementar um modelo de desenvolvimento alternativo ao neoliberal (lembremos as escolhas para o BC, etc). E exemplos existem, o mais notório é o da China, com forte presença do estado.

 

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5 comentários

  1. Não tem o que discutir.. essa tal fada do crescimento é uma falácia.. é política fiscal e econômica na veia que traz crescimento.. neoliberalismo só interessa a banqueiros.. O jornal GGN já é o mais importante do Brasil no que tange a debates econômicos.

  2. A longa existência de um mal entendido não merece que ainda se demore nele. O Brasil não vai sair nunca desse para e anda (stop and go) enquanto não se desembaraçar da dependência do dólar e dos interesses internos e externos que sobrevivem aqui e acolá apoiados neles. Quando digo dependência, refiro-me às determinações da dominância dessa moeda nas finanças nacionais, desde a esfera fiscal até o câmbio, área onde impera a mais completa vigarice, que não se vexa de premiar exportadores com uma receita maior em reais, sempre que o real se desvaloriza, e, ao mesmo tempo, impede o BC de se apropriar dos mesmos ganhos ao final de seu exercício orçamentário, conforme mandam os apetites dos abutres nacionais e estrangeiros.
    Nessa linha de raciocínio lembro o exemplo atual e vibrante do Estado Nacional da Venezuela empenhado numa vigorosa luta contra as aves de rapina internas (em rápida extinção) e as externas, alvoroçadas de Miami a Buenos Aires e de Quito ao Rio de Janeiro, perdão, a Brasília.
    É com entusiamo que devemos acompanhar e apoiar a dura luta do povo venezuelano em alcançar sua independência ecônomica, abandonando o dólar em suas transações comerciais com o mundo, para a fúria de Trump et caterva. Desde meados do ano passado, as questões relacionadas ao desenvolvimento Venezuela já não passam pelas alternativas do keynesianismo ou do neoliberalismo.

  3. Me desculpe, mas aí que está o problema. O camarada diz que o problema é “a opção pela construção de uma sociedade neoliberal que trava a adoção de políticas anticíclicas tradicionais”.

    Pode ser que nem todos tenham percebido, mas ele não explica o por quê. Qual a razão dessa opção? Loucura? Falta de bom-senso? Maldade? Burrice? É nesse ponto que todas as dicussões travam.

    O camarada estabelece o “zero” temporal de seu raciocínio em 2014. Agora, se estabelecesse em 1974, em 1945, em 1929 ou em 1875, a análise seria completamente diferente. O que quero dizer é que o problema não são os elementos do raciocínio, mas sua “topologia”. O “pano de fundo” necessário para explicar a razão dessa opção por uma “sociedade neoliberal” extravasa em muito o período recente. O fato é, se não entendermos que vivemos sob o modo de produção capitalista, que este modo de produção tem uma evolução histórica e que as condicionantes do mundo em que vivemos hoje guardam relação causal com a etapa de desenvolvimento desse modo de produção, não entenderemos nada.

    Colocar o problema da política econômica como sendo “economistas neoliberais” versus “keynesianos desenvolvimentistas” já evidencia que se troca um problema político por um problema acadêmico. Ora, “Sir” Maynard Keynes salvou o capitalismo de si mesmo, levando a cabo políticas que eram contra o gosto da alta burguesia transnacional, mas em seu socorro. Os teóricos do neoliberalismo, por sua vez, eram uma tertúlia de neopositivistas, egressos do fascismo germânico e “pragmatistas” das “social sciences”. Nem uma corrente acadêmica, nem a outra colocam em causa o capitalismo. Não vendo o objeto, não observam seu desenvolvimento.

    Alguns fatos históricos são de suprema importância. Em 1875, o capitalismo vive sua fase de ouro, o verdadeiro éden virginal dos neoliberais. Com o “crash” de 1929, ficaram conhecidos os limites da especulação financeira, da superprodução de mercadorias e da política econômica do lasseiz-faire. Poucos se dão conta, mas o capitalismo quase deixa de existir nas décadas de 1930 e 1940, fosse o resultado da guerra outro. Quem salva o capitalismo são os Keynesianos. De 1945 a 1974, o crescimento econômico foi fulminante (poucos se dão conta que a maior parte da fatura foi simplesmente a recomposição do que fora destruído pela guerra). De 1974 até nossos dias, o capitalismo entra de vez naquela etapa que vem sendo adiada desde 1929: a crise terminal desse modo de produção, sua morte histórica.

    E imaginem, desde 1974 até o 2014 do início da análise do nosso camarada, lá se vão 40 anos de degradação econômica. E frente à crise terminal, o que é introduzido no panorama político? O neoliberalismo e a proposta de financeirização da riqueza. O consenso de Washington, Chicago’s Boys, privatifarias. O que é isso?

    A burgesia transnacional, que não é boba nem nada, e paga muito bem seus centros de pesquisa para produzirem inteligência, se deu conta de que:

    1 – Se a classe média obtiver acesso ao poder, desbanca a burguesia do controle social e implanta regimes econômicos socialistas.
    2 – Quanto à organização das relações de produção, o capitalismo é insustentável em médio-longo prazo, portanto deve-se migrar para outra forma de organização das relações de produção.

    Donde as consequências (diretrizes gerais) são, respectivamente:

    1 – Degradação do ambiente democrático, instituição de vigilância social, destruição das organizações de classe, instituição de regimes políticos autoritários, até mesmo ditatoriais e fascistas.
    2 – Endividamento de populações e estados, transferência dos tesouros nacionais para o controle privado, uso das tecnologias da informação para intensificar a concentração de riqueza e a exploração do trabalho.

    Voltemos á frase inicial do nosso camarada: “a opção pela construção de uma sociedade neoliberal que trava a adoção de políticas anticíclicas tradicionais”. Quando a burguesia transnacional e suas primas-pobres, as burguesias nacionais periféricas, agem de acordo com essas diretrizes, implementam um projeto de pós-capitalismo. Quando muitas pessoas dizem que isso é “burrice, “loucura” e etc., essas pessoas simplesmente não conseguem enxergar o caráter de classe do conflito. É burrice e loucura para quem quer o socialismo, mas não para quem quer um escravismo pós-capitalista. E nesse ponto fica claro que uma política econômica meramente “Keynesiana” não nos leva a lugar nenhum (nossa experiência recente é prova disso), o “X” da questão é: qual a diretriz POLÍTICA, o rumo POLÍTICO na escala total da sociedade? Estamos rumando para o socialismo? Vamos quebrar os ovos necessários? Ou vamos salvar o capitalismo, como fez Lula, para que em seguida sejamos o banquete?

  4. o Capitalismo industrial fordista dos anos dourados do pós II Grande Guerra encerrou-se definitivamente com a Crise de 2008. e a ele não haverá retorno.

    o neoliberalismo selvagem não tem qualquer resquício de racionalidade econômica. é apenas um dos estertores do Capital em suas derradeiras investidas desesperadas, movidas a pilhagem generalizada dos Povos e da Natureza, na alucinação de ser possível reerguer a tendência decrescente da taxa de lucro.

    as Eleições de 2018 explicitam no caso específico do Brasil a migração de um forma de governar (governamentalidade) sob o modelo da economia política para um paradigma cibernético, a partir do qual estar vivo equivale fazer parte de um amplo sistema mundial de comunicação.

    assim como a economia política reinou sobre os homens deixando-os livres para cuidarem de seus interesses, e a cada negócio que faziam se tornavam menos livres, a cibernética estimula a comunicação: quanto maior for nossa conectividade mais deixamos de interagir uns com os outros.

    conectividade e precariedade são as duas expressões desta governamentalidade cibernética.

    o tempo de trabalho se despersonalizou. o Capital se tornou impessoal. a dominação não é mais analógica, e sim digital.

    apesar de sua genialidade, Lord Keynes continua sendo como cada um de nós: prisioneiro de seu tempo histórico. um tempo perdido para sempre no passado.

    sendo assim, em nada pode nos ajudar, pois vivemos depois do futuro.
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