O desastre Trump, o mundo sobreviverá?, por Andre Motta Araujo

Trump é ignorante, grosso, egoísta, não solidário, jogador, sem visão estratégica, mas temos que reconhecer que Trump tem uma qualidade, ele é sincero, nunca enganou o eleitor, quem votou nele votou sabendo em quem votava.

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O desastre Trump, o mundo sobreviverá?

por Andre Motta Araujo

Graças aos graves erros de governança do Partido Democrata há uma chance de Trump ser reeleito. O articulista do THE GUARDIAN Martin Wolff, um dos melhores jornalistas da Europa, cuja opinião é mundialmente ouvida, traça em artigo da semana passada um cenário tétrico da geopolítica mundial se essa catástrofe ocorrer.

Trump, segundo Wolff, é o horror absoluto, um vigarista com atitudes de tirano, intimidando o Partido Republicano como nenhum outro Presidente conseguiu antes, agora no segundo mandato sem freios e mais empoderado do que nunca, o que será dos EUA e do mundo? Trump não tem plano estratégico algum, é negociador de imóveis que faz transações dia a dia, sem qualquer visão geopolítica de mundo onde os EUA se inserem, não tem escrúpulos em negociar com qualquer um que lhe de vantagens a curto prazo mesmo à custa de um horizonte de longo prazo para o papel dos EUA no mundo. Qualquer negócio serve desde que Trump ganhe pontos na política doméstica e impressione seu eleitorado tacanho do meio oeste.

Nesse tabuleiro vale jogar fora aliados de décadas, amigos tradicionais dos EUA, queimar pontes e atrair tiranetes malandros para acordos de validade vencida, sacrificando interesses estratégicos dos EUA pós Trump. Mas o arsenal está se esgotando porque o capital inicial da novidade Trump já se foi e o cenário de um segundo mandato é outro, mais complicado e mais arriscado.

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1.DIFICULDADES NA ECONOMIA MUNDIAL – O mundo está entrando em um ciclo negativo na economia, já era essa a tendência antes do Coronavírus, agora aumentou, com projeções de significativas (0,5 a 1%) quedas do PIB nas economias asiáticas, especialmente China e Japão, o que afetará a economia americana. O acordo comercial China-EUA vai ter que sair da retórica de twitter de Trump para a realidade da mesa de negociações com o Departamento de Comércio onde a crucial dependência da indústria de alta tecnologia americana de componentes chineses será uma das faturas a entrar na equação.

2.POLARIZAÇÃO DO PAÍS – Os EUA rachados como nunca depois da Guerra Civil de 1865. Trump joga tudo na divisão do País, no estímulo ao ódio aos mais fracos como imigrantes latinos, contra os intelectuais, contra a mídia, contra os muçulmanos, contra os chineses, se vencer a reeleição só lhes resta aumentar a pressão contra minorias dentro e fora do País, um desagregador de seu próprio povo e sem empatia com a humanidade.

3.ANIQUILAMENTO DO PARTIDO REPUBLICANO – O Senado Republicano salvou a pele de Trump no caso do “impeachment”, mas as cicatrizes ficaram. A imagem de um partido intimidado e submisso como nunca antes. Nos governos Nixon, Reagan, Bush pai e filho, havia alas independentes no Partido, um partido fechado à moda soviética é novidade e só existe porque Trump intimida quem discordar dele, especialmente no próprio partido, que nunca foi dele. Trump não é um Republicano de raiz, é um pirata que tomou de assalto um partido acovardado cujo símbolo é o líder da maioria no Senado, o rastejante e sabujo Mitch McConnel, com sua dicção cuspideira, uma alma penada política, a isso Trump reduziu o partido de Lincoln.

4.REVOLTA  DA BUROCRACIA – A sólida burocracia americana foi vilipendiada no primeiro mandato, com intervenções e expurgos nunca antes vistos contra funcionários que desafiaram os desmandos de Trump, demitidos com humilhação, como o diretor geral do FBI, o ilustre Secretário de Estado Rex Tillerson, que se demitiu para não ser demitido, John Bolton, Assessor de Segurança Nacional e dezenas de assessores, embaixadores,  diretores de departamentos.  Em um segundo mandato, esse comportamento encontrará resistência, o relógio do mandato final opera em outra frequência.

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Um novo mandato de Trump será uma tragédia para o mundo, sinalizando o fim da Era dos Estadistas quando o mundo teve, quase ao mesmo tempo, Churchill, De Gaulle, De Gasperi, Adenauer, Roosevelt, Marshall, Bevin, Nehru, Harriman, Kennan, Eden, JK, Einaudi, e hoje temos um Trump, ignorante, grosso, egoísta, não solidário, jogador, sem visão estratégica, mas temos que reconhecer que Trump tem uma qualidade, ele é sincero, nunca enganou o eleitor, quem votou nele votou sabendo em quem votava, o eleitor americano é o único responsável pela Era dos Demagogos, que vai custar caro aos EUA.

Uma nota pessoal, estive nos EUA pela primeira vez em 1949 e depois, mais consciente, em 1953, quando vi o Presidente Eisenhower na TV, um grande general, depois político, a impressão que me causou foi profunda, um País sólido presidido por um estadista histórico, hoje parece um sonho desfeito.

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5 comentários

  1. Para nós, brasileiros, não faz a menor diferença: a política externa dos EUA não é atribuição do presidente, apenas as firulas, aparências e o jogo de cena é que são. A política de estado, sob o governo que for, (“Se não ganho por minha superioridade, saboto para que os outros sejam inferiores”) bárbaro, desleal, sujo, incivilizado, hipócrita, imoral… em uma palavra, nefasto, não muda pois que é orientação dos bilionários donos de grupos privados, e vem sendo a mesma faz uns 150, 200 anos.

    Já o mundo (“vasto mundo”) é claro que sobreviverá às ações desse grupo privado. Ninguém precisa tanto dos EUA quanto os EUA dependem do mundo, vasto, diverso, enorme e muito, mas muito maior que apenas esse país. Esse país, sim, que não sobreviverá à vileza que ele mesmo vem impondo ao mundo faz algum tempo. E a sinuca de bico: se interromper a violência, os outros países o devoram; se não interromper, os outros reagem, ou com violência ou com desprezo.

    De qualquer forma, o enaltecimento do indivíduo – como herói ou vilão – é fantasia esquizóide capitalista; quem orienta um país é um grupo de pessoas. Trump é só um cara.

  2. Paul Krugman vem apontando que a depravação e o cinismo do partido republicano precede o imbecil rico do Trump.

    Não é de hoje também que os EEUU agem na cena internacional como um estado gângster.

    O fato é que Trump REPRESENTA uma larga parcela de eleitores norte americanos

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  3. Trump fez o que os democratas não conseguiram: reduziu o partido republicano a uma anedota!
    Os republicanos lamentarão não ter dado prosseguimento ao impeachment.
    O mundo depende mais do que nunca da sabedoria chinesa…

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