O Dia da Consciência Humana. Têm certeza?, por Beatrice Papillon

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O Dia da Consciência Humana. Têm certeza?

por Beatrice Papillon

Estamos terminando o mês de novembro e, como todos os anos, vimos as mesmas queixas sobre o Dia da Consciência Negra em que gente branca, ou quase branca, evoca a já gasta proposta de alteração para um hipotético dia da “consciência humana”. Trata-se de uma tentativa mal disfarçada de lidar com a questão escondendo o incômodo que a data, e sobretudo o tema, provoca em racistas Brasil afora.

Mas me ocorre perguntar a essas pessoas: têm certeza que vocês querem celebrar a Consciência Humana? Olha lá o que vocês pedem! São duas palavras muito fortes! Estão mesmo dispostos a pôr a mão na consciência, ainda que por um único dia de novembro, para refletir sobre o sentido de humanidade?
Pois que seja! Fica decretado o Dia da Consciência Humana, em que todas as pessoas deverão pensar e agir segundo os princípios da justiça, igualdade e (ops!) autocrítica, reparação…
Vem cá, têm certeza?

Neste dia o patrão que demitiu o funcionário negro por racismo deverá ligar para ele e se desculpar, implorando que o homem aceite ser readmitido com salário igual ao dos colegas brancos. O policial que assassinou um menino negro levará suas lágrimas de vergonha àquela mãe que carrega uma perda irreparável. A jovem branca vai postar no Instagram uma foto com legenda constrangida pelas muitas vezes que pensou que o rapaz negro em Ipanema iria assaltá-la. Longos textos no facebook irão enumerar os privilégios dos brancos, que reconhecerão enfim, com base no sentido justo proposto pela data, que a escravidão foi e é uma violência contra a humanidade. Afinal, é de humanidade que se trata. Não é? Será lindo! Marchas brancas sairão às ruas, portando não mais que a consciência, para gritar contra o genocídio e o encarceramento em massa de negros e negras no Brasil.

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O Estado brasileiro, por sua vez, fortalecerá ainda mais as políticas de inclusão. O sistema de cotas será estendido aos diversos setores da sociedade onde a entrada de negros e negras ainda é dificultada pelo racismo. O estudo de Cultura e História africanas será largamente ampliado no currículo escolar. Terras quilombolas terão suas demarcações estabelecidas e respeitadas. Aliás, implementar-se-há (alô, Temer!) um programa de distribuição de terras para a população negra que, após a Abolição, foi jogada às ruas sem nenhum direito, nem sequer o de voltar ao países de onde arrancou-se seus ancestrais. As repartições públicas, as corporações policiais, o SUS corrigirão o grave racismo institucional que afeta diariamente a população negra no reconhecimento de sua cidadania. Teremos um Estado cuja lei máxima será a Consciência Humana!

O Dia da Consciência Humana deverá ser um acerto de contas com a história sangrenta que os brancos deixaram para a humanidade. Em contrapartida, os descendentes de senhores de escravos farão uma reflexão consciente de seu lugar e, quem sabe, poderão perceber que não estão condenados a serem racistas como seus antepassados. Esta será uma ocasião para meditarem sobre a construção de um mundo igualitário que, para tanto, requer abnegação, humildade e amor, em suma, humanidade.

Que boa proposta seria afinal! E aí, todo mundo topa? 
Têm certeza?

Fortaleza, 26/11/18
Twt: @molotovpapillon

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