O Dia Nacional da Luta Contra o Fascismo, por Beatrice Papillon

O Dia Nacional da Luta Contra o Fascismo

por Beatrice Papillon

O levante feminino que arrastou multidões em todo o Brasil nas marchas do dia 29 de setembro transcende a figura do fascista contra quem gritamos “ele não”. O movimento surgiu de mulheres brasileiras para dizer não à ele, mas sobretudo para dizer sim à igualdade, à liberdade, à vida, ao amor. “Ele” é somente a pústula sintomática de um processo histórico de séculos de opressão e massacre no Brasil. 
A marcha é muito maior do que ele. Ele não é nada. Nem nome ele tem mais. 

Por outro lado, “ele” é o que representa. A disseminação do fascismo na sociedade brasileira, para além de todas as violências físicas e simbólicas que já carregávamos historicamente, agora toma corpo como uma doença alarmante, na esteira do recrudescimento da extrema direita em todo o mundo. A elite brasileira, violenta e ignorante, insiste em importar que há de pior no hemisfério norte e, de suas muitas antenas transmissoras e bonecos ventrílocos, vem alastrando o mal entre a população. É contra isso, numa esfera bastante ampla, que as mulheres se insurgem.
Cabe uma observação sobre a escolha inteligente das palavras de ordem: “Ele não!” Além de suprimir o nome do coiso, diferentemente de um “fora Temer” por exemplo, este grito trata o objeto de repúdio na terceira pessoa, se dirigindo a outro interlocutor, outras, as manas. Por ser ele uma figura que se baseia no conflito direto para garantir sua existência na vida pública, as mulheres que lideraram esse movimento decidiram não confrontá-lo nas suas palavras, ignorá-lo, e direcionar o diálogo a suas irmãs e irmãos compatriotas.

Leia também:  E os neoliberais querem voltar a ser "social-democratas"..., por Rogério Mattos

O grito delas contém uma proposta conjunta de sociedade. É um chamado à razão e a um mergulho da cidadania nos sentimentos profundos da compaixão e do amor. É a política no seu viés mais humanitário.

Mas é importante notar que o “ele não” vai além, e é também uma recusa anterior à campanha presidencial. A mera participação de um representante do fascismo no pleito democrático é em si ultrajante e perigosa. 
Não faltando evidências e denúncias do comportamento anti republicano, de desrespeito aos direitos humanos e, diversas vezes, criminoso, por racismo, lgbtfobia e apologia ao ódio e à violência, ainda assim o Tribunal Superior Eleitoral deferiu a inconstitucionalíssima candidatura do dublê de mussolini. 

Com essa candidatura, através do TSE e da silenciosa conivência do Supremo Tribunal Federal e das comissões de ética do parlamento, que há muito já deveriam tê-lo cassado, o Estado brasileiro se mostra permissivo à infiltração de ideias fascistas no país. E pior, no seio das instituições. Não pode ser mais grave!
Legitimada por poder superior, essa criatura tem disseminado o ódio, autorizando fascistas a agirem livremente, agredindo pessoas e grupos sociais.

Portanto, o levante de 29 de setembro veio também para puxar as orelhas moucas do judiciário brasileiro. Se o período eleitoral é o momento em que o Estado brasileiro se submete à vontade popular, o recado está dado. “Não haverá espaço para o fascismo no Brasil”. Lutaremos juntxs até o último homem, até a última mulher.

Assim, compreende-se, ficam propostas pelas marchas das milhões de mulheres e cidadãos duas medidas para que o Estado brasileiro cumpra o seu papel de representante e articulador da vontade popular. A primeira é que, estando fartamente evidenciada a conduta antidemocrática e desumana do sujeito, sua candidatura seja impugnada a tempo de evitar a completa desmoralização dos tribunais responsáveis pelo processo eleitoral. Que se faça valerem os princípios do respeito à diversidade e à dignidade humana expressos na Constituição Brasileira de 1988, bem como nos tratados internacionais de promoção da paz e dos Direitos Humanos assinados pelo Brasil.

Leia também:  O caso do candidato a PGR: o bolsonarista nato que era marxista convicto quando tentava o STF nos anos Dilma, por Eugênio Aragão 

E, por fim, como segunda medida, considerando o histórico ato popular, registre-se a data de 29 de setembro no nosso calendário oficial como o Dia Nacional da Luta Contra o Fascismo, para que se institucionalize em definitivo, na letra da lei, o compromisso do Estado brasileiro com o combate à intolerância, ao ódio e à violência.

#elenão
Fortaleza, 01/10/2018

Foto: Mídia Ninja

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome