O ENEM em tempos de pandemia, por Renato Janine Ribeiro

Não sei sequer se o MEC tem os dados de quantos cursos estão atuando online e quantos estão paralisados. Mas, sem vaga, não há ENEM.

Foto Tania Rego - Agência Brasil

O ENEM em tempos de pandemia

por Renato Janine Ribeiro

Não há a menor condição de garantir, neste momento, a realização do ENEM este ano. Não sabemos quanto tempo demorará a pandemia. É bom lembrar que o ENEM é um dos exames e/ou concursos mais concorridos do mundo (se não me engano, há apenas um concurso, na China, com mais gente do que ele) – e que exige uma estratégia que é praticamente de guerra.

Tanto assim que as provas, uma vez impressas, são ou eram guardadas no quartel de Quitaúna (Osasco, SP), sob forte esquema de segurança.

Para garantir o sigilo absoluto das provas, os professores que as elaboram são controlados na entrada e saída das salas do INEP. Não podem sair com um pen drive, um papel, nada. Portanto, o exame precisa ser elaborado de forma presencial. Não dá para montá-lo a distância;

Na hipótese mais favorável, supondo que este ano se repitam os procedimentos de segurança do ano passado, seria preciso um mês, para elaborar o exame (isto, se houver um banco de questões atualizado, com níveis de dificuldade determinados, ou seja, se for possível montar o exame sem elaborar novas perguntas, só com as que existem e que nunca foram postas no ENEM), mais um mês, para imprimir as provas, e um terceiro mês, para distribuí-las, de Norte a Sul do país (dependendo do lugar, os caminhões que levam as provas saem de Quitaúna com várias semanas de antecedência!).

Além disso, nem todas as universidades federais estão dando aulas online. Em alguns cursos elas nem são possíveis! Se demorar a pandemia, pode ser que nesses cursos os alunos que estão matriculados hoje no primeiro ano tenham de cursá-lo no ano que vem. Isto é, não vão liberar vagas.

Não sei sequer se o MEC tem os dados de quantos cursos estão atuando online e quantos estão paralisados. Mas, sem vaga, não há ENEM.

O que se pode fazer, se a pandemia demorar mas terminar este ano (nem isso sabemos!), é autorizar o uso da nota no ENEM de anos anteriores para o SISU 2021. Traduzindo em português: SISU é o sistema integrado pelo qual os alunos escolhem o curso que querem fazer, a partir de sua nota no ENEM mais RECENTE. Portanto, para o ingresso em 2021, só vale a nota do ENEM 2020. Ora, se nao for possível realizar o ENEM em 2020, mas for viável abrir o SISU 2021, uma saída seria admitir que as notas dadas no ENEM em 2019 (e talvez 2018 e 2017) valham para o ingresso.

É uma solução emergencial, claro. O ideal é fazer o ENEM normalmente.

Mas o governo precisa elaborar planos de contingência, expô-los, mostrar que trabalha com seriedade.

E aqui quero falar dos militares. Forças Armadas existem para serem usadas o mínimo possível. É como bombeiros: o ideal é que NUNCA haja um incêndio, mas precisamos deles para o caso de haver. Da mesma forma, as FF AA existem para o caso de guerra, sendo que o ideal é NUNCA haver.

Mas as FF AA elaboram planos. Por exemplo, se o Brasil for invadido, e as comunicações por rodovia forem impedidas pelo inimigo, como vamos liberá-las?

Este é um plano que precisa existir, mas se existe NÃO foi seguido pelo governo Temer quando da greve/lockout dos caminhoneiros, em 2018.

Existem planos de contingência no governo, para situações críticas como a atual?

Não estou chamando o Exército (nem o Meirelles…). O que estou dizendo é que o governo precisa fazer os estudos e simulações para o que houver na crise.

Negar o caráter letal da pandemia, repetir que tudo deve abrir (ao contrário do resto do mundo), não ajuda nada.

É melhor dizer, claramente, que por ora não sabemos, e discutir com a sociedade as políticas que podem ser adotadas tanto para o ENEM quanto para o ingresso no ensino superior em 2021.

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