O engano de acalentar esperanças nos ciclos do capitalismo, por Álvaro Miranda

Vale dizer, que o capitalismo é que está nos levando ao fim, se nós não acabarmos com ele antes. E que o seu fim, ou sua transformação para o fim, pode ser o início de outra história possível.

O engano de acalentar esperanças nos ciclos do capitalismo

por Álvaro Miranda

Com exceção dos pesquisadores em ciências sociais, há muito não se costuma usar a palavra capitalismo numa referência aos problemas da atualidade. Jornalistas, comentadores que se consideram pós-modernos, empresários, autoridades governamentais, funcionários públicos, profissionais liberais e trabalhadores de diferentes áreas acham que falar em capitalismo é algo muito abstrato na crença de que não existiria outro tipo de sociedade possível. Enfim, o que batizo aqui, agora, de “FFF”, a velha Falácia Francis Fukuyama do fim da história.

Os fatos, porém, parecem insistir para que paremos de nos iludir. Vale dizer, que o capitalismo é que está nos levando ao fim, se nós não acabarmos com ele antes. E que o seu fim, ou sua transformação para o fim, pode ser o início de outra história possível. Mais ainda: o cíclico só se for nas invenções de olhar e imaginar relógios, com seus intervalos de tempo dentro de intervalos maiores e outros maiores num processo infinito, sem sentido algum. A própria forma de registrar o tempo não é natural, nem esotérica, tendo sido inventada historicamente.

Afinal, vamos viver de serviços? Como bem assinala Ricardo Antunes (“O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital”, São Paulo: Boitempo, 2019), a “longa transformação do capital chegou à era da financeirização e da mundialização em escala global, introduzindo uma clara tendência, quer intensificando os níveis de precarização e informalidade, quer se direcionando à ‘intelectualização’ do trabalho, especialmente nas TICS (Tecnologias de Informação e Comunicação). Não raro, as duas tendências se mesclam e sofrem um processo de simbiose.” (p. 30).

Nesse contexto, já era tempo de perdermos a ilusão do crescimento. David Pilling (“A Ilusão do Crescimento”, Rio de Janeiro: Alta Books, 2019), observa sobre essa questão de forma simples: “O crescimento é filho da era da manufatura (…). Todos nós percebemos instintivamente que algo está errado. Mas temos dificuldade para definir exatamente o que é. A crise financeira mundial de 2008 foi o aviso definitivo (…).” (p. 4-5). E poderíamos acrescentar: o capitalismo alcançou todos os territórios. Depois da descolonização e do imperialismo, o que pode vir para se criar mais mercados? E mercados do quê, exatamente?

O cíclico esperançoso só se for no devaneio de imaginar o ser humano como ente criado pelo sobre-humano, ou movido por algo além deste chão onde pisamos. Entretanto, nós, seres humanos não somos imaginários, nem evanescentes, apesar do nosso poder de imaginação, apesar do nosso “por teleológico”, na expressão de Gyorky Luckács (Para uma ontologia do ser social”, São Paulo: Boitempo, 2013).

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O fato é que deixamos de ser exército de mão de obra de reserva. E o desemprego não é mais estrutural, mas sim a própria lógica necessária da estrutura da crise e do absurdo que recusamos a ver. Essa noção de reserva, que, bem sabemos, associada, dentre outras coisas, à queda tendencial da taxa de lucro, parece estar vinculada, por outro lado, à ideia ilusória de que um novo ciclo de bonança virá mais dia, menos dia, criando novos postos de trabalho das nossas profissões.

Ideia de que o capitalismo seria um sistema processado por ciclos, e estes, por sua própria imanência, se revezariam por períodos de tempo regulares em diástoles e sístoles de oportunidades para homens e mulheres que, um dia, foram alguma coisa e, hoje, são totalmente desvalidos. Ontem eram, sem saber, “coisas” no capitalismo. Hoje são praticamente nada sem saber exatamente por quê, com a ligeira noção de não ser nada por não terem mais trabalho. Ou terem apenas tarefas de serviços e migalhas para apenas sobreviver um dia após o outro.

As crises econômicas a partir de 1929, as duas guerras mundiais, as novas crises após a década de 1970, as novas guerras mundiais em suas formas regionais e as guerras híbridas de golpismos chancelados até pelo neoconstitucionalismo nos convidam ao abandono da ilusão. Não se trata de sermos de esquerda ou de direita, mas de não sermos idiotas.

Somos hoje o que podemos e devemos evitar ser amanhã, isto é, matéria desfigurada em termos de liberdade e potencialidade, meras coisas, joguetes ou instrumentos para fins de alcateias vorazes que dão forma à maneira de ser da sociedade, ao tempo e à velocidade de uma vida vazia. Há culpados nessa história, sim, e são identificáveis, daí a inevitabilidade de pensarmos em termos de esquerda ou direita se o prisma é de forças contrárias em conflito. Deus não existe para políticas públicas ou criação de emprego. Esqueçam. Deus quis assim é o escambal!

A questão é de que lado estamos. Conversinha fiada essa de muitos que não gostam de ser classificados como de direita ou de esquerda. Entretanto, meio termo não existe nessa joça – e de nada adiantam amavios de contemporização. De nada adianta não sermos radicais e também não nos posicionados claramente. Em cima do muro só arames farpados, eletrificados ou cacos de vidro para nos separar.

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O deslumbramento parece esplendor dos que abraçam o engano, acreditando em democratização da vida pela lógica capitalista. Daqueles que esperam justiça social através da via espúria e caradura das formas novas, tais como empreendedorismo, uberismo, cinismo, cafetinagem e banditismo políticos, milícias armadas e evangélicas e pretensa liberdade de expressão pelas redes sociais.

Sem esquecer do privatismo, irmão capcioso do individualismo excessivo, primo hipócrita da liberdade natural. Privatismo de quem for mais esperto como sinônimo de meritocracia e concentração de renda, como evento pretensamente natural da existência supostamente inexorável de ricos e pobres.

Isso tudo, sem esquecer as teodiceias injustificáveis e impossíveis, a eficiência das pernadas para derrubar os mais fracos, pernadas de quem pode, pode, quem não pode, sacode seus músculos de trabalhar pesado porque não terá outro jeito, mesmo envelhecendo, mesmo não tendo onde cair morto.

A lista da essência sórdida do capitalismo não se esgota, claro, sendo imensa sua folha corrida de absurdos transformados em normalidade – dos problemas das favelas nas grandes cidades brasileiras aos conflitos geopolíticos em escala mundial. Mas, para nós, tudo pode ser normal num país que tem a terceira população carcerária do mundo, atrás de Estados Unidos e China. Um Brasil, mesmo assim, cheio de alegria nos estádios de futebol e no Carnaval.

O tempo foi mostrando o óbvio, isto é, que não se trata de nenhum azar, nem do acaso, ser demitido de uma empresa porque, em algum momento, houve necessidade de cortes. Porque uma suposta crise passageira precisou sanear as perdas de empresas. Mas sim da própria lógica previsível da sociedade destinada a valorizar o valor.

Valorizar o valor, não esqueçamos!

O valor do valor da mercadoria (não seu preço sazonal e nem a própria mercadoria), o valor de troca e sua mais valia. Também não um “valor humano” a quem não caberia essa expressão por “imprecificável”, para mais ou para menos, o que se considera pessoa de afetos, sangue, suor, esperma, expectativa de futuro para filhos e netos, Natal, Ano Novo, festa em família, viagens, encontro com amigos etc.

Entretanto, na sociedade de mercado todos temos preço, através do nosso trabalho, porque todos fomos transformados em mercadorias. E valor é essa palavrinha capciosa, enganadora e esclarecedora a um só tempo, destrinchada de forma ímpar e inédita pelo marxismo, mostrando que não chega a ser uma extravagância associar uma categoria capitalista, criada historicamente, a este ser que foi se distanciando de sua barreira natural biológica.

Ser que se alçou superior às demais espécies por conta de sua suposta razão, sua capacidade lógica, sua sanha de matar o outro semelhante e de se submeter feito escravo como algo natural. Também, diferentemente de outros tipos de sociedades existentes ainda hoje e outras já exterminadas, capaz de destruir o meio ambiente como se este nada tivesse a ver com nossas vidas em comum. Como se não fôssemos o próprio meio ambiente.

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Extravagância e arrogância teórica seria esquecer que várias categorias de trabalhadores (intelectuais e braçais) sofrem o mesmo destino – e lembro sempre da minha profissão (jornalista), que, apesar de determinada especificidade intelectual, é exercida por trabalhadores como quaisquer outros no aspecto principal que esconde toda a lógica da representação do valor. Podendo, portanto, ter o mesmo destino das demais profissões. Quem já não embarcou num Uber dirigido por ex-terapeutas, ex-professores, ex-médicos, ex-advogados, ex-funcionários públicos, ex-pequenos empresários… e por aí vai?

Se Robert Kurz (“A crise do valor de troca”, Rio de Janeiro: Consequência Editora, 2018) está certo em sua análise da crise do valor de troca – e considerando que o capitalismo não tem mais para onde se expandir, depois de ter colonizado, surrupiado e destroçado culturas em diferentes quadrantes do mundo – o que podemos esperar se as coisas vêm piorando em vez de melhorar?

Encerro com um pequeno trecho de Kurz, corroborando nossa percepção de que as crises capitalistas são diferentes historicamente, e a última (atual) aponta para muitas incógnitas carregadas de nuvens de chumbo: “A crise nova e final do capitalismo difere essencialmente de todas as crises anteriores. Todas as crises precedentes foram crises de crescimento do capital, que apenas podiam interromper temporariamente o processo de acumulação.”

“No entanto, a nova crise se revela como o fim do processo de acumulação da própria riqueza abstrata, pois a riqueza concreta, material, não pode mais ser produzida no interior dos limites da relação de valor. A nova crise, portanto, não é mais uma crise passageira de superacumulação ou de superprodução, mas, antes, uma crise da própria criação de valor, diante da qual o capital não encontra mais saída.” (p. 58-59)

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