O erro de se comparar o incomparável na política e a economia de tempo do Capital, por Álvaro Miranda

Automação e produtividade são palavras totalmente estranhas na gramática política dos políticos pós-redemocratização do país.

O erro de se comparar o incomparável na política e a economia de tempo do Capital

por Álvaro Miranda

No lastro dos debates sobre a desarticulação da esquerda diante do avanço do autoritarismo no Brasil, um dos equívocos mais notáveis é a comparação do incomparável – do tipo lulismo em relação ao getulismo e bolsonarismo em paralelo ao hitlerismo, dentre outras. 

Ocioso lembrar sobre a necessidade óbvia de análise histórica. Isto é, considerar os diversos elementos do contexto específico, no tempo e no espaço, tais como atores, instituições, condições econômicas, relações entre governos, grupos, classes sociais, competição entre empresas e correlação de forças geopolíticas de cada momento.

Da mesma forma, é preciso ser lida e compreendida dentro do contexto – e o que ela quis dizer no seu momento histórico – a famosa afirmação de Marx no 18 do Brumário de que a história se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.

Ao comentar afirmação minha de que grandes líderes também cometeram erros em meio aos seus acertos, meu amigo jornalista, mestre em ciência política pela PUC-RJ e doutor em estudos estratégicos pela UFF, H. Raphael de Carvalho, fez uma observação espirituosa para aqueles que tentam comparar Lula a Getúlio:

“Getúlio já não comete erros há décadas. Isso depois de ter acertado estrategicamente. Lula é fruto de uma estratégia equivocada e insiste em repetir erros.”

Lembrou-me uma frase do ex-ministro Delfim Neto, em entrevista na televisão, que, perguntado sobre o clima polarizado na época entre PSDB e PT, disse que Fernando Henrique Cardoso e Lula eram políticos do “século passado”. Tirando o sarcasmo pernóstico, o ex-ministro sugeria na ocasião reflexão sobre a velocidade das mudanças no mundo contemporâneo, referindo-se às injunções tecnológicas na política e na vida social em geral.

Nos últimos anos, dentro dos estudos de políticas públicas, determinados trabalhos têm abordado o que chamam de “variedades de capitalismo”, tema que contempla as diferentes configurações institucionais da economia e da política nos contextos específicos de cada país. E a analogia parece até irônica, mas atesta algo muito concreto, similarmente, em relação à existência de diferentes marxismos surgidos desde o fim do século XIX. Eric Hobsbawm diz o seguinte:

“Acreditamos que – hoje menos ainda, mas também já no passado – não existe um único marxismo, mas sim muitos marxismos, frequentemente empenhados (como se sabe) em ásperas polêmicas internas, a ponto de negarem uns aos outros o direito de se declararem marxistas”. (p. 14, História do Marxismo, vol. 1. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979).

Essa ligeira incursão teórica é sugerida aqui apenas para lembrar que certas afirmações podem se tornar dogmas que falseiam a realidade se se pretende compreender a história a partir de fatos isolados, fora do contexto de suas transformações ao longo do tempo. 

Por exemplo: a pecha de “ditador” imposta por muitos intérpretes a Getúlio Vargas, compreensivelmente, claro, sob a luz de determinados episódios. O golpe de 1937 seria o fato emblemático, com todas as outras medidas subsequentes do regime autoritário. Entretanto, alçado ao poder pelo voto popular em 1950, a trajetória de Getúlio poderia ser classificada como a de um “ditador”?

Delfim Neto talvez estivesse recorrendo a um clichê, pois sua afirmação sugeria que o século XXI estaria trazendo “novos atores” – equívoco embalado também pelo fetiche de uma suposta revolução tecnológica desvinculada da política.

Errado mesmo: FHC e Lula são homens do seu tempo, um tempo que ainda transcorre, tempo de recrudescimento do neoliberalismo iniciado em meados da década de 1970, com seu auge, na América Latina, em 1990, crisol do receituário do chamado Consenso de Washington – e intensificado agora pelo ultraliberalismo de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

Automação e produtividade são palavras totalmente estranhas na gramática política dos políticos pós-redemocratização do país. Assumiram os governos e “ganharam tempo”, com a invenção da reeleição para o cargo, aliás, algo totalmente estranho e inédito na trajetória republicana brasileira (e que precisa acabar). Ganhar tempo é inerente ao processo de adiamentos de crises do capitalismo, o que muitos chamam “ciclos”.

Compensaram expectativas com remendos aqui e ali sem promover mudanças estruturais na sociedade. A lógica de ganhar tempo faz parte da engrenagem imanente do capitalismo em relação à queda tendencial da taxa de lucro. Produtividade e automação compõem o processo da valorização do valor – não para aprimorar a vida e atender às necessidades da sociedade. 

Nosso problema não é só de redistribuição de renda, mas o que se produz e como se produz. Produção e circulação fazem parte do mesmo processo de recíproco condicionamento. Ou temos um projeto de país ou não temos. O avanço da democracia se deu nas contradições desse processo conduzido pelos governos do PSDB e do PT.

Encerro lembrando a entrevista dada, certa vez, pela economista Maria da Conceição Tavares. À pergunta do repórter sobre qual conselho a professora daria para os futuros economistas que estavam se formando, ela foi simples e direta: pensar a economia como economia política, o que parece óbvio para os mais esclarecidos, mas não tanto para o senso comum desinformado.

Meu amigo H. Raphael tem razão. O tiro no peito de Getúlio não encerrou seus feitos em 1954. Ao assumir 40 anos depois a presidência da República, FHC chegou a dizer: “Aqui termina a Era Vargas”. Por sua vez, Lula não se desvencilhou do neoliberalismo – e como pode alguns o compararem a Getúlio?

A rapinagem atual que destrói o país é fruto da ausência de mecanismos que poderiam ter sido construídos e enraizados durante as últimas três décadas. Fruto da ausência de projeto nacional. A idade quase balzaquiana vem turvando o horizonte com cataratas messiânicas e denunciando, para estupefação geral, que nossa democracia de 32 anos, apesar dos seus avanços, nunca esteve consolidada. 

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