O estudo da Folha de S. Paulo sobre o primeiro ano do bolsonarismo no Brasil e o perigo da relativização em busca da “imparcialidade”, por Cesar Calejon

É fundamental que a nossa população aprenda a interpretar os dados, questionar as relativizações e entender que todas as notícias e/ou estudos são parciais em certa medida

O estudo da Folha de S. Paulo sobre o primeiro ano do bolsonarismo no Brasil e o perigo da relativização em busca da “imparcialidade”

 por Cesar Calejon

Todos os jornalistas e veículos de comunicação, basicamente, se apresentam como “imparciais” na forma como aferem e divulgam as suas informações. Infelizmente, o conceito de “imparcialidade” não existe. Toda e qualquer notícia (ou estudo) nasce em determinado contexto político e social, o que oferece um elemento fundamental para avaliar para quem, com qual ângulo e propósito ela foi elaborada. Principalmente no âmbito das ciências sociais, um fato pode ser interpretado de muitas maneiras. O aumento do preço dos combustíveis ou a alta taxa de câmbio do dólar estadunidense frente ao real, por exemplo, podem ser excelentes novidades para os donos dos postos de gasolina e para os exportadores, mas, certamente, é um péssimo negócio para a população brasileira de forma mais ampla.

Ontem, o jornal Folha de S. Paulo apresentou uma grande análise sobre os efeitos do primeiro ano do bolsonarismo no Brasil. No texto da matéria que introduz o estudo, os jornalistas afirmam que “a análise de 104 indicadores mostra que no primeiro ano da gestão de Jair Bolsonaro houve no Brasil uma piora em áreas como assistência social, saúde, educação e meio ambiente, equilíbrio nos números da economia e melhora nas estatísticas da criminalidade e emprego, com a ressalva, nesse último caso, de que o tímido avanço foi acompanhado da expansão da informalidade.”

As informações coletadas pelo jornal demonstram que 58 indicadores do país apresentaram resultados piores do que em 2018 ou outro período de comparação mais adequado, 41 registraram avanços e cinco permaneceram estáveis. Contudo, cabe avaliar cuidadosamente o que o estudo intitulou como “avanços” em algumas das áreas citadas.

Por exemplo, segundo a publicação da Folha de S. Paulo, entre os dados positivos, houve avanço nos resultados da Bolsa de Valores, que atingiu 115 mil pontos em dezembro, no consumo das famílias e na redução de 207 para 99 pontos no risco-país, termômetro informal da confiança dos investidores. A taxa básica de juros da economia chegou a 4,5%.

“Na avaliação do economista-chefe da Necton, André Perfeito, a gestão de Guedes está conseguindo promover mudanças estruturais na economia, mas é preciso fazer uma leitura cautelosa de dados tratados como positivos. ‘No ano passado, tivemos uma economia que ficou ligeiramente parada, com alguma melhora. O fato de a economia ainda estar frágil ajuda a manter a inflação sob controle. Os juros estão baixos porque a atividade está fraca’”, explicou Perfeito à reportagem da Folha de S. Paulo. Perfeito, mas, bom para quem mesmo?

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Outro indicador que, segundo o estudo da Folha de S. Paulo, pode ser considerado positivo durante os primeiros doze meses da gestão Bolsonaro é o preço dos combustíveis no Brasil. Pasme: O valor médio do litro da gasolina na bomba subiu de R$ 4,36 em dezembro de 2018 para R$ 4,53 em dezembro de 2019, alta de 3,9%. O IPCA do ano foi de 4,31%. Gasolina a quase R$ 5 por litro. Ótima notícia! Na época das paneladas contra o Partido dos Trabalhadores, o partido que “quebrou o Brasil”, o litro custava cerca de R$ 3.20.

Mais um “ponto positivo” da gestão bolsonarista pode ser verificado no comércio, segundo o estudo. A Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE, mostrou crescimento de 1,8% em 2019, “uma leve desaceleração em relação aos dois anos anteriores: 2017 (2,1%) e 2018 (2,3%)”. Desde quando uma “leve desaceleração” pode ser considerada boa neste contexto?

Sobre o comércio exterior, o PIB – Importação de bens e serviços, ou seja, a importação de bens e serviços, medida pelo IBGE no PIB, teve alta de 1,6% nos três primeiros trimestres de 2019. Assim, compramos mais e vendemos menos considerando a nossa interação econômica junto à sociedade internacional. As exportações brasileiras caíram de US$ 239 bilhões em 2018 para US$ 225 bilhões em 2019 e o rombo nas contas externas cresceu de US$ 41,5 bilhões para US$ 50,8 bilhões neste mesmo período.

O estudo da Folha de S. Paulo não aborda este parâmetro, mas o estoque das reservas internacionais brasileiras, que encerrou o ano de 2018 acima dos US$ 380 bilhões, caiu para US$ 356,9 bilhões em 2019, segundo dados do Banco Central. O governo bolsonarista vem vendendo dólares para conter, artificialmente, a alta recorde da moeda americana. Segundo declarações do economista Paulo Guedes, ministro da economia da gestão Bolsonaro, durante a gestão do PT, quando o dólar estava em R$ 1,80, “todo mundo (estava) indo pra Disneylândia, empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada”. Ele também sugeriu que o brasileiro viaje pelo Brasil, “passear em Foz do Iguaçu, passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita”, e defendeu que o dólar alto é bom para as exportações. Excelente! Para quem mesmo?

Mais uma “boa notícia” da gestão bolsonarista: a avaliação popular do desempenho de deputados e senadores. “Apesar de ter um dos maiores índices de reprovação popular da história, 45% de ruim ou péssimo, o Congresso encerrou 2019 ligeiramente melhor do que o fim de 2015, o primeiro ano da legislatura anterior, quando a reprovação popular atingiu 53%”, explica o estudo do jornal. Vale a pena ressaltar o esforço midiático maciço que começou em junho de 2013 no sentido de propositadamente desestabilizar o governo Dilma e criminalizar a política, basicamente?

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Sabe em qual outra área houve avanço? Na arrecadação federal, que encerrou 2019 com R$ 1,537 trilhão,  alta de 1,69% com relação a 2018, já descontada a inflação. Desta forma, pagamos mais impostos. Boa notícia, certo? Não, espera.

Outros pontos que não foram mencionados pelo estudo consideram o Índice de GINI e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Na série anual, iniciada em 2012, o Índice de GINI – indicador de desigualdade de renda – referente ao rendimento domiciliar per capita obtido do trabalho, piorou a 0,629 no ano de 2019 ante 0,6279 em 2018. O Índice de GINI mede a desigualdade numa escala de 0 a 1. Quanto mais perto de 1 for o resultado, maior é a concentração de renda. “A boa notícia é que a desigualdade parou de aumentar”, comentou o economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas. Ótima notícia. Ok.

Já o IDH ficou estável em 0,761, com o Brasil na 79ª posição (total de 172 nações), atrás de países como a Servia, Trindade e Tobago, Irã, Cuba e Albânia, por exemplo.

Esses são “os pontos positivos”, segundo o texto da Folha de S.Paulo, do primeiro ano da gestão bolsonarista no Brasil. Eu precisaria redigir outro artigo completo para comentar os problemas, de fato: o Bolsa Família voltou a ter fila de espera para as pessoas em situação de pobreza e extrema pobreza, com cerca de 1 milhão de famílias aguardando. O Minha Casa Minha Vida passou por uma situação de colapso. A faixa 1, voltada às famílias mais pobres, sofreu com atrasos nos repasses a construtoras, e o número de imóveis entregues recuou 57%.

Falta de pessoal e deficiências estruturais também formaram uma fila de 1,3 milhão de pessoas com análise atrasada de pedidos de benefícios no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Retrocessos também ocorreram no meio ambiente, na reforma agrária e na política indigenista. O desmatamento na Amazônia cresceu 29,5%. As queimadas, 86%. Já as multas por crimes ambientais aplicadas pelo IBAMA caíram cerca de 25%.

Em toda a gestão bolsonarista não houve demarcação de terra indígena nem mesmo declaração (autorização para a área ser demarcada), superando a pior marca até então, a de Michel Temer (2016-2018) — três terras indígenas declaradas e uma homologada.

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A reforma agrária foi praticamente paralisada e o INCRA homologou 5.409 lotes relativos a processos antigos de agricultores que ocupavam áreas sem autorização da autarquia.

As rodovias federais também apresentaram dados negativos: o número de mortes voltou a subir após sete anos. Pesquisa anual da CNT (Confederação Nacional do Transporte) detectou que nas rodovias federais houve, em 2019, “uma piora efetiva dos resultados em todas as características: pavimento, sinalização e geometria da via”.

A situação dos estados também piorou, com aumento do número de entes que desrespeitaram o limite de gastos com pessoal e pioraram a capacidade de honrar dívidas. O número de brasileiros na informalidade subiu 3,2%, o maior nível em quatro anos, e o ano de 2019 interrompeu uma sequência de quedas e o número de mortes em rodovias federais voltou a subir após sete anos, chegando a 5.332 vítimas em 2019, 61 a mais do que no ano anterior. Os dados da Polícia Rodoviária Federal mostram ainda que acidentes em estradas federais no ano passado deixaram 18,6 mil feridos graves, 5% a mais do que em 2018.

Desta forma, é fundamental que a nossa população aprenda a interpretar os dados, questionar as relativizações e entender que todas as notícias e/ou estudos são parciais em certa medida. Vale considerar, de fato, o quanto o seu salário é capaz de dar conta das suas despesas no fim do mês e perguntar: Bom, para quem?

Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e mestrando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP). Autor do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI.

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