O fascismo e a irrupção do sujeito paranoico, por Wilton Moreira

Em 1986 Moishe Postone publicou um importante ensaio intitulado Anti-semitismo e nacional-socialismo com uma série de ideias originais sobre o nazismo, o fascismo e o anti-semitismo.

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O fascismo da década de 1930 e os neofascismo atuais, por Wilton Moreira

 

Este texto é a continuação dos ensaios “Liberais, conservadores, progressistas e ativistas” e “Socialistas

Em 1986 Moishe Postone publicou um importante ensaio intitulado Anti-semitismo e nacional-socialismo com uma série de ideias originais sobre o nazismo, o fascismo e o anti-semitismo. Uma das originalidades de Postone é afirmar que o nazismo não é um movimento pró-capitalista ou uma espécie de ditadura burguesa contra o trabalho, mas se trata de uma revolta essencialmente anticapitalista, embora os nazistas e fascistas, em geral, não tenham consciência disso.

 

Uma outra descoberta fecunda de Postone é a de que o nazismo e o fascismo cultuam, fanaticamente, os aspectos concretos do capital, que são a técnica, a indústria e os bens, identificando-os com a tradição e o povo alemão, numa espécie de biologização do concreto. Em contraposição, o nazismo despreza e teme o lado abstrato do capital, expresso pelo dinheiro e biologizado na figura do judeu como raça maldita, antinacional e cosmopolita como o capital, e que se identifica com o capitalismo e seus males.

 

Postone evita uma abordagem psicológica do fascismo, procurando se ater a seus aspectos sociais, investigando como sua lógica emerge da própria lógica do capital, ao mostrar de que modo sua evocação às tradições não resulta numa proposta conservadora ou restauradora de tempos imemoriais, mas se vincula à exaltação da técnica e da indústria, ou seja, da face concreta da mercadoria (valor de uso), em oposição a seu lado abstrato, o valor, que se vincula aos judeus.

 

Embora Postone não o diga explicitamente, esta abordagem historiciza o fascismo, circunscrevendo-o no âmbito exclusivo do capitalismo. A existência de um “Fascismo eterno” ou trans-histórico, como preconizado por Umberto Eco em sua famosa conferência de 1995 certamente não se conforma às ideias de Postone. Em todo caso, a concepção de fascismo de Eco, baseada não na lógica interna de seu desenvolvimento, mas na manifestação de algumas das 14 características que ele lista, acaba por ser útil para identificarmos os neofascismos contemporâneos, que se desenvolvem e se manifestam de uma forma cuja lógica não parece se enquadrar no funcionamento estrito do nazismo e fascismo tradicionais de década de 1930, objeto da análise de Postone.

 

A primeira diferença dos neofascismos atuais com o tradicional é que os primeiros não são necessariamente anti-semitas. No caso Brasileiro, por exemplo, ocorre o contrário, pois a aproximação do bolsonarismo com o cristianismo evangélico leva exatamente a uma exaltação do judaísmo e uma aproximação com o estado de Israel, em detrimento dos estados muçulmanos. Outra diferença é que os neofascismos atuais podem também não demonizar as finanças, o lado abstrato do capital, em favor da técnica, da indústria e da produção de mercadorias, que são seus aspectos concretos. Novamente, o Brasil atual serve como exemplo, pois a aliança do bolsonarismo com o neoliberalismo mais tacanho refutaria a tese de que o fascismo necessariamente deve privilegiar o aspecto concreto do capital.

 

Estas diferenças, que ocorrem em pontos fulcrais, ou colocam a tese de Postone em cheque, pelo menos se ela pretende explicar o fascismo para além de sua forma “tradicional” manifesta na década de 1930; ou colocam em cheque as teses atuais, de que grande parte dos movimentos de extrema direita que se espalharam pelo globo a partir da crise de 2008 são formas de fascismo ou, por outras palavras, neofascismos. Se o ensaio de Postone é limitado, aplicando-se apenas ao fascismo tradicional, então Umberto Eco teria razão, não na trans-historicidade do fascismo, mas em seu método de descrevê-lo, que só poderia ser fenomenológico, identificando algumas de suas manifestações características, e não por meio da investigação de sua lógica interna, como quer Postone.

 

A desumanização capitalista e a irrupção do sujeito paranoico

 

O que se propõe, aqui, é mostrar que o fascismo tem, sim, uma lógica interna de desenvolvimento e que as ideias de Postone descrevem tal lógica de forma magistral, mas restrita ao contexto dos anos 30 do século passado. A primazia dos aspectos concretos da sociedade capitalista é fundamental no fascismo, como observa Postone, mas esta concretude não se manifesta necessariamente de forma moderna, se identificando com o lado concreto do capital, ou seja, a técnica, a indústria e a produção de mercadorias. Esta foi uma característica do fascismo italiano e japonês e do nazismo alemão, nações que na década de 1930 já possuíam uma identidade nacional fortemente vinculada à industrialização.

 

Um outro aspecto do concreto ao qual tanto o fascismo original quanto os neofascismos atuais se apegam é o universo tradicional (mesmo no caso do nazismo alemão) cultivado pelo conservadorismo que, como vimos em outro ensaio, se trata de uma força política e de uma forma de ser e ver o mundo que é estrutural para o capitalismo. A visão conservadora é um antípoda necessário (por isto é estrutural) ao liberalismo e sua afirmação do sujeito automático como masculinidade abstrata. Os conservadores negam a abstração do masculino efetuada pelo capital e expressa nas ideias liberais, e insistem na reencarnação do masculino no corpo do homem e do feminino no corpo da mulher. Por derivação, essa biologização e inferiorização do feminino, que caracteriza a mulher como irracional e passiva, é projetada também nas minorias concretas de cada contexto específico: negros, LGBTs, imigrantes, árabes, índios etc.

 

No processo de constituição do sujeito automático, as pessoas são paulatinamente despidas de sua humanidade, pois todas as relações sociais, comportamentos e características que as definem como subjetividades concretas vão sendo subordinadas às exigências da racionalidade instrumental e da competitividade que caracterizam o sujeito moderno, universal, abstrato e vazio de sentido. Sujeito que se relaciona socialmente por meio da lógica da mercadoria, seja como trabalhador, consumidor ou proprietário, relegando as demais esferas da vida a segundo plano. No capitalismo, a afetividade, as relações familiares e comunitárias, a expressão subjetiva, a espiritualidade, a estética e a moral acabam por se subordinar aos imperativos do capital, que se encarna no indivíduo como sujeito automático, cuja visão de mundo se define pela lógica da mercadoria e se expressa de forma mais imediata nos ideais do liberalismo.

 

Nesse processo de constituição do sujeito automático, as dimensões concretas do humano são reprimidas, o que acarreta uma imensa frustração com a sociedade capitalista e sua fúria abstratizante. Essa frustração também deve ser reprimida, bom como sua causa, a lógica do da mercadoria, que são esquecidas pelo sujeito ou, em termos psicanalíticos, recalcadas no inconsciente. Nesse processo, o trabalho abstrato, que é a única possibilidade de sobrevivência para a quase totalidade das pessoas no capitalismo, sofre uma uma inversão valorativa, pois de uma necessidade estafante e sem sentido, que provoca a desumanização dos sujeitos concretos, se transmuta, na visão dos sujeitos, em uma atividade virtuosa que dignifica o trabalhador e lhe proporciona o reconhecimento social como cidadão de bem.

 

Portanto, a realidade desumanizadora e massacrante do trabalho, da mercadoria e do valor, do capital enfim, como causa da miséria humana nas sociedades capitalistas é tornada inconsciente, num processo semelhante ao recalque da psicanálise. Esta nos ensina que os conteúdos reprimidos, uma vez confinados no “espaço do inconsciente” não deixam de agir na economia psíquica (inclusive consciente) e de se desenvolver subterraneamente, de forma quase autônoma e à revelia da consciência. O reprimido, caracterizado por sentimentos negativos como o medo, a frustração, a mágoa e o ressentimento, toma, então, contornos terrificantes e mórbidos, constituindo um espaço sombrio na alma, ignorado pela consciência. Esta persona sombria, que muitas religiões identificam com deuses infra-terrenos, demônios ou maus espíritos, ao se desenvolver como entidade autônoma, procura maneiras de irromper na superfície da consciência, fundindo-se ou mesmo se sobrepondo (tomando) ao sujeito consciente.

 

O fascismo é exatamente esta necessidade frustrada de sentido e concretude da existência humana, reprimida no capitalismo em favor da prevalência do sujeito automático, abstrato e vazio de sentido, cuja finalidade é apenas servir à reprodução do capital. Essa sombra reprimida na alma do homem moderno constitui a proto-subjetividade fascista, acossada, infernal, doentia, violenta e vingativa, que projeta no mundo seus próprios males, enxerga um inimigo temível por toda a parte e é tomada pelo desejo de morte e destruição. O homem fascista (e é sempre homem, mesmo quando a mulher é fascista) é resultado da irrupção de um sujeito paranoico, gestado nos submundos infernais do inconsciente.

 

O fascista, como um sujeito paranoico, se desenvolve nas sombras do sujeito automático do liberalismo, racional e competitivo, mas também do sujeito cidadão do progressismo, que se constitui pela solidariedade (feminilização) abstrata. Ele se gesta sob as asas do sujeito reacionário do conservadorismo, cuja função é lidar de forma compensatória, portanto integrada e não disruptiva, com a concretude humana rechaçada pelo sujeito automático.

 

Sujeito paranoico X sujeito revolucionário

 

A emergência do fascismo na sociedade corresponde, no plano da subjetividade, à disrupção do sujeito paranoico a partir do sujeito reacionário do conservadorismo. Trata-se de um processo diferente da emergência do sujeito revolucionário do socialismo, que acontece também como uma ruptura, mas que se dá pela radicalização do sujeito cidadão do progressismo. Enquanto o sujeito paranoico surge na forma de uma irrupção violenta e caótica do reprimido, cujo desejo dominante é a violência e a destruição, sem outra finalidade que não seja purgar o mundo da corrupção e do inimigo, o sujeito revolucionário emerge como uma extrapolação dos limites do sujeito cidadão da social-democracia.

 

Os socialistas, ao contrário dos fascistas, são movidos pelo desejo utópico de uma fraternidade universal e seu objetivo é a fundação de uma nova ordem social igualitária. A violência revolucionária é, ou deveria ser, apenas um meio para a emancipação do capitalismo, e não um fim em si mesmo como no fascismo. (É interessante notar que o sujeito revolucionário, apesar de pressupor logicamente o sujeito cidadão, na verdade o antecipa historicamente: à época da revolução soviética não havia se configurado ainda o sujeito cidadão do estado do bem estar social, cuja emergência se daria nos anos 30, mas que se consolidaria apenas no pós-guerra, em resposta, inclusive, à ameaça socialista soviética e seu sujeito revolucionário.)

 

Conservadorismo e fascismo

 

Em situações “normais” do sistema capitalista, é o conservadorismo e, mais recentemente, o ativismo, que lida com as relações sociais e conteúdos concretos que o capitalismo relega a segundo plano e que acabam por se tornar conteúdos reprimidos na economia psíquica do sujeito moderno. Ao reencarnar o masculino no homem e afirmar sua superioridade sobre a mulher e derivar, de acordo com cada contexto, esta relação de superioridade do homem para outras relações entre maioria e minorias concretas (hétero x homo, branco x não branco, nacional x estrangeiro, cristão x não cristão, pessoas do sul e sudeste x nordestinos etc) o conservadorismo tenta, por meio de mecanismos de compensação e deslocamento, gerir o permanente mal estar do sujeito moderno, obrigado a se submeter às abstrações desumanizantes do sujeito automático.

 

É importante anotar que, como compensação e gestão de crises dos conteúdos reprimidos do sujeito moderno, o conservadorismo tem o potencial de penetrar como força política e visão de mundo em todas as classes sociais, sejam elas perdedoras (ralé) ou vencedoras (elites e classes médias) da disputa capitalista. Mas em um nível mais superficial e imediato, o conservadorismo também serve como compensação à humilhante feminilização dos perdedores do sistema, ao afirmar a superioridade ontológica (de cunho natural ou divino) de uma maioria específica sobre minorias historicamente fragilizadas socialmente. Independente do sucesso ou fracasso na disputa capitalista, o homem seria superior à mulher, o branco ao negro, o hétero ao LGBT etc.

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Por isso, as forças conservadoras penetram em todas as classes sociais, mas se tornam particularmente fortes nas classes médias baixas e na ralé, que se sentem e são tratadas como perdedoras e feminilizadas pelas classes vencedoras. Nesses extratos sociais derrotados na competição capitalista, o conservadorismo tanto compensa, num nível mais profundo, o mal estar dos conteúdos reprimidos do sujeito moderno, comum a todas as classes, quanto serve de contrapeso à feminilização abstrata a que os perdedores são submetidos.

 

Quando o fascismo irrompe na sociedade, ele se torna um fenômeno disseminado em todas as classes sociais, pois os conteúdos concretos reprimidos são comuns a todos os sujeitos modernos, mas ele costuma ser mais forte no chamado homem médio, pertencente às classes médias baixas, que conheceu alguma prosperidade, mínima que seja, durante a vida, e que se encontra, durante a crise, em vias de perder ou já perdeu o pouco que teve. É nesse homem médio, acossado pelo medo e pelo desespero da perda, que o fascismo encontra sua ponta de lança para sua irrupção. E é essa subjetividade frágil e furiosa que será um dos sustentáculos mais perenes e sólidos para o sujeito paranoico fascista, à procura de um líder semelhante a ele (um homem médio e tomado pela fúria) e de um ou vários inimigos demoníacos a quem culpar por todas as corrupções do mundo e por sua própria desgraça.

 

Conservadorismo, religiosidade evangélica e neofascismo atual

 

Num segundo momento, o fascismo se alastra por todo o espectro social, como uma metástase, atingindo as classes altas onde prevalecia o liberalismo e os miseráveis onde o progressismo distributivista ou, dependendo do contexto, o ativismo costumam ser fortes. Esta capacidade de disseminação fascista por todas as camadas sociais é preparada pelo conservadorismo, que para compensar o mal estar da repressão dos conteúdos e relações sociais concretos, evoca nos sujeitos a fé numa maioria concreta que subordina outras minorias. A palavra fé aqui é bem posta, pois este trabalho conservador é geralmente capitaneado ou, pelo menos, recebe o apoio decisivo da religião.

 

Assim, no Brasil contemporâneo, a eclosão do neofascismo bolsonarista se dá principalmente nas classes médias amedrontadas pela possibilidade de decadência econômica e ressentidas com a ascensão relativa dos pobres na era lulista. Mas o ovo da serpente fascista já era chocado desde pelo menos a década de 80, quando começa a ascensão irresistível do cristianismo evangélico pentecostal. No plano dos costumes, o pentecostalismo é extremamente conservador e puritano, caracterizado pela homofobia, machismo e, não raro, misoginia; pela proibição do uso de quaisquer drogas; e pela aversão ao catolicismo e principalmente ao espiritismo, candomblé e umbanda, consideradas práticas religiosas demoníacas. No aspecto econômico, os pentecostais tendem ao liberalismo meritocrático e se guiam pela teologia da prosperidade, que vê a melhoria de vida como prêmio de Deus pela fé, mas também pela adesão bem sucedida do indivíduo ao valores e comportamentos do sujeito automático. Em consonância com o capitalismo, o pentecostalismo propaga como virtudes o individualismo, o consumismo, a competição, a ética do trabalho e a meritocracia, o que torna o evangélico, em geral, avesso a todo tipo de progressismo ou ativismo.

 

No homem pentecostal (assim como no protestante europeu e norte-americano) fica claro como o conservadorismo funciona como um contrapeso à prevalência do sujeito automático, que impõe as abstrações vazias do capital ao sujeito moderno e reprime os conteúdos concretos. Ao promover, simultaneamente, o sujeito abstrato e o sujeito reacionário, as igrejas pentecostais nada mais fazem do que realizar a função estrutural do conservadorismo de reagir às abstrações do capital, sem questioná-lo como causa do mal estar do sujeito moderno. A causa das misérias capitalistas é desviada para as minorias sociais discriminadas e consideradas inferiores ou para grupos políticos corruptos e corruptores da sociedade, que geralmente defendem estas minorias, como é o caso dos progressistas e ativistas em geral. No Brasil atual, o petismo se tornou, na visão neofascista, a fonte da corrupção política e econômica e o propagador de políticas distributivas que atentam contra a meritocracia da ética do trabalho, ao sustentar “vagabundos” com dinheiro público. Desta perspectiva, a crítica pentecostal faz coro com a aversão liberal das elites e classes médias aos governos petistas. Mas, de uma perspectiva mais reacionaŕia, o cristianismo pentecostal (e, em grande parte, católico) também vê o petismo como promotor da corrupção moral da sociedade, ao acolher e apoiar, em seus governos, os ativismos feminista, negro, religioso e LGBT, promotores de valores “demoníacos” que questionam e subvertem as hierarquias divinas dos grupos sociais concretos.

 

A irrupção do fascismo a partir do conservadorismo

 

O fascismo emerge quando o conservadorismo e progressismo fracassam simultaneamente como contrapesos ao liberalismo, o que acontece nos momentos em que o sistema capitalista se vê ameaçado pelo colapso, como na década de 1930 e, agora, na década de 2010. Na verdade, é o progressismo que fracassa em compensar a fúrias abstratizante e em salvar da miséria as massas populares, que aderem em número crescente ao conservadorismo. Este, hipostasiado, explode como fascismo. Pode-se dizer que o conservadorismo fica diminuído em tempos fascistas, mas como vítima de seu próprio sucesso em opor conteúdos e hierarquias concretas às abstrações liberais e progressistas.

 

Tanto o fascismo tradicional da década de 1930 quanto os neofascismos atuais irrompem em momentos de crise aguda do capitalismo. A causa imediata da emergência fascista é que, na crise, um imenso contingente de pessoas se tornam perdedoras do sistema, sentindo-se humilhadas (feminilizadas), sem auto-estima nem reconhecimento social. Um outro contingente de pessoas das classes médias temem se tornar perdedoras. As pessoas destas duas massas (a já perdedora e a que teme se tornar) em grande parte já próximas da ideologia conservadora, se revestem, então, do sujeito reacionário tipicamente conservador, cuja função é canalizar o medo, a frustração e o ódio que o capitalismo gera nas subjetividades, para questões morais e determinados grupos sociais, que serão vistos como corrompidos e corruptores, ou seja, como a fonte da crise social.

 

Contudo, se este processo moral de busca e destruição do “mal”, de purificação do corpo social, se inicia como um fortalecimento do conservadorismo, logo ele sai do controle, não funcionando mais como um contrapeso ao liberalismo. Na verdade, ele deixa de ser funcional no âmbito do próprio capitalismo e se torna um fim em si mesmo: se o capitalismo instaura a irracionalidade da produção pela produção, o fascismo lhe opõe, como num espelho sombrio, uma loucura ainda mais grave, a da destruição pela destruição.  O sujeito reacionário do conservadorismo, ainda civilizado para os padrões capitalistas, dá lugar então ao sujeito paranoico do fascismo, cuja esfera social da psique passa a ser dominada pelos afetos do medo e do ódio, que não mais se contêm diante dos limites do estado de direito liberal e necessita efetivar a purgação moral do corpo social corrompido exercendo a violência, simbólica e física, contra os grupos sociais considerados imorais.

 

Neofascismo brasileiro

 

A barbárie fascista se efetiva por quatro concretizações, em oposição às abstrações universalistas do liberalismo e do progressismo. A primeira é a concretização do grupo das pessoas de bem, formado por grupos sociais majoritários e, portanto, másculos, definidos por um ou vários critérios de pertencimento social, às vezes conflitantes entre si: homens, brancos, héteros, cristãos, nacionais etc. A segunda é a concretização da minoria corrupta a ser combatida em um ou vários grupos sociais: feministas, negros, LGBTs, não cristãos, imigrantes etc. A terceira concretização é a da violência contra os grupos demonizados, que devem convertidos, curados/purgados do mal, aprisionados ou mesmo eliminados fisicamente.

 

A quarta concretização, destacada por Moishe Postone em seu ensaio, é a eleição de um ou mais aspectos concretos da sociedade, que serão louvados e elevados à condição de valores dignificantes, como, por exemplo, a técnica e os bens industriais de uma sociedade industrial ou a produção de bens primários de uma sociedade agrícola. Mas a concretude evocada pelo fascismo também passa, necessariamente, por aspectos comportamentais, de pertencimento ou de marcas sociais, que são alheios à produção capitalista, tais como raça, a religião, local de nascimento, orientação sexual e de gênero etc.

 

O fascismo necessita, portanto, de eleger certas características concretas alheias ao processo de produção que possam exprimir e definir tanto os grupos sociais majoritários (masculinos) quanto as minorias corrompidas (feminilizadas) a serem dominadas. Moishe Postone aponta que o nazifascismo recorreu aos aspectos de raça e nação, com forte apelo à biologização, para separar o alemão ou italiano genuínos do judeu corrupto. Mas nos neofascismos atuais a biologização dos grupos rivais pode não ser tão evidente assim, embora o racismo esteja presente, de forma mais ou menos explícita, em todos eles.

 

No caso brasileiro, por exemplo, a típica pessoa de bem trabalhadora tende a ser branca, em oposição ao negro, muitas vezes vinculado ao crime e à preguiça. No entanto, outros aspectos parecem ser mais evidentes na definição dos grupos dominantes, como a superioridade do homem sobre a mulher e a demonização dos LGBTs e praticantes de religiões de matriz afro-indígena, preconceitos cultivados e difundidos pelo cristianismo pentecostal. Negros e mulheres, embora em posição hierárquica inferior, têm lugar no arranjo neofascista brasileiro, desde que não se aventurem ao ativismo negro e feminista, nem ousem reivindicar o igualitarismo abstrato progressista. Se o simple fatos de ser LGBT já se configura como inaceitável para os neofascistas evangélicos, no caso dos negros e mulheres é o ativismo identitário e sua reivindicação de igualdade é são demonizado.

 

No aspecto produtivo, o que o neofascismo brasileiro promove e exalta, num país em acelerado processo de desindustrialização e exportador de bens primários, é a concretude da produção agrícola e mineral, cujos produtores reivindicam o direito de expandir sem qualquer limitação ecológica ou social, causando graves problemas ambientais provocados pelo crescimento das invasões de reservas ambientais, desmatamentos, queimadas e uso indiscriminado de agrotóxicos; e sociais, com a invasão de terras indígenas e quilombolas e aumento do trabalho escravo e precário.

 

Num país agroexportador como o Brasil, e toda a América Latina, o inimigo direto do neofascismo não são as finanças e seus capitalistas, como foi no caso alemão, em que o judeu personificou os aspectos abstratos “demoníacos” do capitalismo, expressos pelo dinheiro. O inimigo é mais difuso e se identifica menos com os liberais das finanças e mais com os progressistas e seus ideais de igualdade, que acolhem, não raro, a luta identitária e ecológica dos ativistas. Ora, o progressismo, como se viu, engendra um sujeito cidadão tão abstrato quanto o sujeito automático, cuja função é aperfeiçoar este último, corrigindo as tendências entrópicas da efetivação do liberalismo em estado puro, voltado exclusivamente para a reprodução do capital e indiferente aos perdedores do sistema.

 

O aspecto abstrato do capitalismo contra o qual o neofascista brasileiro se volta, não é mais o das finanças, encarnadas no judeu, em oposição à produção industrial, encarnada no alemão. No caso brasileiro, o aspecto abstrato demonizado é o da igualdade social progressista, encarnado no PT e nos petistas, principalmente os políticos, mas também nos grupos minoritários acolhidos pelas políticas progressistas, como os LGBTs, religiosos da umbanda e candomblé, feministas e ativistas negros e ecológicos. Contra estes grupos agraciados com políticas inclusivas e protetivas da cidadania abstrata, são contrapostos a produção de produtos primários e os grupos sociais definidos por comportamentos ou marcas sociais dominantes: homem, branco, hétero, cristão. Assim como  os judeus, os políticos progressistas, os LGBTs e ativistas de diversos matizes são vistos pelos neofascistas como inerentemente corruptos, mentirosos e ardilosos, tanto do ponto de vista econômico (ladrões) quanto dos costumes (imorais).

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Um exemplo curioso de como o fascismo amolda seu apego ao concreto de acordo com o contexto social, é que, no Brasil, os políticos petistas são percebidos como corrompidos pelo grande capital. Mas este capital corruptor não foi identificado como sendo o dos bancos, nem do agronegócio ou da mineração, e sim o das empreiteiras, um setor da economia real que representa, portanto, um aspecto concreto e moderno do capitalismo nacional. Isto apesar das inúmeras evidências de que a corrupção grassa em todos os setores do grande capital nacional, todos financiadores milionários de campanhas políticas e promotores de lobbies agressivos e pouco éticos junto à todas esfera política (e não apenas aos petistas) e à elite do funcionalismo público.

 

Como observa Jorge Beinstein em Neofascismo e decadência, o neofascismo atual, ao contrário do fascismo clássico da década de 1920 é difuso, dissimulado e muito mais pragmático, aceitando conviver com as formas democráticas do liberalismo, embora sabotando-as a todo momento. Até o momento os fascistas que chegaram ao poder em diversas nações do mundo não tentaram impor uma ditadura nem o extermínio de um grupo específico de pessoas, embora tais possibilidades se mantenham no horizonte de seu discurso, tão violento quanto o do fascismo clássico.

 

No entanto, apesar das diferenças, tanto o fascismo tradicional quanto os neofascismos atuais preservam o núcleo comum o resgate autoritário de aspectos concretos do sistema capitalista, sejam eles relativos à produção, aos costumes ou à esfera identitária. Também faz parte deste núcleo comum, a encarnação de uma masculinidade viril e saudável em alguns grupos majoritários, em oposição aos grupos discriminados, que representam sempre algum aspecto abstrato do capitalismo e que encarnam uma feminilidade ardilosa e degenerada. Outro aspecto comum é a ausência completa de projeto ou utopia, a não ser a de purgar a sociedade da corrupção e dos grupos sociais que a promovem, o que leva o sujeito paranoico a um processo da destruição pela destruição.

 

A virilidade adâmica do sujeito paranoico

 

Nos ensaios O capital é masculino e Liberais, conservadores, progressistas e ativistas, mostramos que o sujeito automático é abstratamente masculino, dotado de racionalidade e competitividade para a guerra do mercado. Para o liberalismo e progressismo, as características masculinas não são mais exclusividade do homem branco de origem europeia, mas está a disposição de qualquer indivíduo concreto que possa desenvolvê-las de acordo com a lógica abstrata do capital. Se o profissional é racional e competitivo, ao capital é indiferente seu gênero, orientação sexual, etnia, religiosidade etc. Daí a tendência dos liberais e progressistas, em geral, combaterem os vários preconceitos identitários: ambos tendem a ser liberais na esfera dos costumes.

 

Em contraposição à essa abstração do masculino, os conservadores insistem em reencarná-lo no homem em primeiro lugar, mas também em certos grupos sociais que seriam “dominantes” por direito, como os heterossexuais, os brancos etc. Esta posição conservadora de valorização hierárquica da concretude é inteiramente mantida pelos fascistas que, como se viu, são gestados nas hordas do conservadorismo.

 

Mas os conservadores afirmam a concretude de gênero e dos vários grupos sociais em contraposição às abstrações liberais e progressistas, como contrapeso à desumanização provocada pelo capital. Os fascistas, por sua vez, não negociam com sistema, e sim procuram efetivamente desestruturá-lo. A política convencional, a negociação, a polidez, o decoro público, o estado de direito, a intelectualidade, a complexidade da vida e do mundo, o cosmopolitismo, todas as práticas políticas, vivências pessoais, valores e visão de mundo liberais e progressistas, típicas das elites e classes média tradicionais, são negadas em bloco pelos fascistas e vistas como dissimulação, apego a filigranas (“frescura” ou “mimimi”) e corrupção das elites degeneradas. Contra a degeneração liberal e progressista, o sujeito paranoico fascista se apresenta como uma pessoa de bem, o homem médio puro, trabalhador, honesto, simples e autêntico, até mesmo ingênuo.

 

Na Alemanha nazista, o judeu era a encarnação do banqueiro, o negociador parasita,  sórdido e ardiloso, em oposição ao alemão trabalhador, puro e autêntico. No Brasil atual, os políticos e alguns empresários é que se tornaram os defensores da política tradicional, cheia de negociatas e negociações, ininteligível ao “homem de bem” honesto e trabalhador que sempre acaba enganado pelos seus ardis infindáveis. Em ambos os casos, é fácil notar uma oposição entre o ardil demoníaco da mulher (projetada, ora no banqueiro judeu, ora no político tradicional) e a integridade ingênua do homem de bem trabalhador, numa revivescência do mito adâmico do paraíso perdido, que opõe a mulher ardilosa ao homem puro.

 

Para os liberais, progressistas e até para os conservadores, a negociação é uma virtude, tanto na política quanto na economia. Para os fascistas ela representa um vício a ser combatido, uma artimanha dos que não são autênticos e que, portanto, não têm a força e a pureza moral para se exprimirem – e se imporem – de maneira simples e direta como realmente são. Há no fascista um apego fanático à integridade, simplicidade e autenticidade do ser, que seriam típicas do homem e se expressa como virilidade e, não raro violência. Em oposição, a complexidade ardilosa e dissimulada da prática política e da visão de mundo liberal e progressista, constituem estrategemas e dissimulações típicos da mulher, que lança mão deles para compensar sua constituição inferior, marcada pela ausência da pureza simples, transparente e viril do homem.

 

O mesmo raciocínio em relação à negociação se aplica em relação às artes e artistas, bem como e ao pensamento e  intelectuais, que constituem a cultura, uma esfera espiritual da vida moderna cara às elites e classes médias tradicionais. Estas necessitam se diferenciar das classes médias baixas e da ralé relação ao povo não apenas pela riqueza e renda, mas também pelo cultivo de faculdades estéticas e intelectuais sofisticadas e complexas, que permite ao sujeito automático o acesso à “cultura”, um aspecto da vida social secundário e separado da produção, mas que diferencia, pelo bom gosto, as sofisticadas classes altas dos trabalhadores, duplamente toscos: em seu pouco preparo técnico necessário para as atividades simples que desempenham; e em sua vida simbólica, vista como grosseira e constituída de clichês.

 

Além disso, a “cultura”, para as subjetividades liberais e progressistas, avessas ao conservadorismo, tem a função de compensar a desumanização abstratizante do valor com os requintes da arte e do pensamento, uma forma de enobrecer (o nobre é uma lembrança da concretude humana) as almas abstratas do sujeito automático e do sujeito cidadão. Uma tentativa que não obtém sucesso, pois ao separar (abstrair) arte e pensamento como um espaço secundário na psique e na sociedade, ambos se tornam “abstrações humanizadoras”, cujas críticas diretas ou indiretas ao modo de vida moderno praticamente não se concretizam como ação ou transformação individual ou coletiva.

 

Em todo caso, para os fascistas, todo este requinte estético-intelectual da elite e classe média tradicional, que é liberal e progressista, mas que também é apropriado por muitos conservadores, não passa de filigranas de uma alma degradada e feminilizada, que perdeu sua pureza e virilidade. A arte fascista deve ser realista, simples, laudatória, vigorosa e direta, ou seja, um espelho da alma do “homem de bem” trabalhador, honesto, afirmativo, puro e simples.

 

A contradição fascista da glorificação do trabalho

 

Os fascistas projetam o feminino, portanto, em quase todas as abstrações que constituem a subjetividade liberal e progressista: cidadania, estado de direito, negociação democrática, estética, pensamento etc. Quase todas, porque as duas abstrações fundamentais do capitalismo, trabalho e valor, permanecem intocadas pela “crítica” fascista. O trabalho, pelo contrário, se torna um valor positivo para homem de bem fascista que, em sua revolta inconsciente contra o capitalismo, o elogia fanaticamente, glorificando e se entregando àquilo que mais lhe oprime e desumaniza: o trabalho abstrato que exige a primazia do sujeito automático, expressão subjetiva capital e que subordina todo o psiquismo humano à lógica fria da mercadoria.

 

Há, portanto, uma contradição de fundo que estrutura a psique fascista do sujeito paranoico. Seu sofrimento é causado pela fúria abstratizante do capital, que esvazia a vida de todo sentido humano, empurrando para o inconsciente, tanto o sofrimento quanto sua causa, que se tornam conteúdos reprimidos que tomarão aspectos terrificantes. O aspecto central deste esvaziamento é a construção do sujeito automático, cujo objetivo primário é a produção de valor e mais valor, por meio do trabalho abstrato. Ora, o fascista preserva exatamente estas abstrações do capitalismo, principalmente o trabalho, e sua revolta irracional é direcionada contra um ou vários grupos sociais feminilizados nos quais serão projetados (encarnados) alguns aspectos abstratos do capital. Em oposição a este outro concreto, mas portador dos malefícios abstratizantes e, portanto, feminilizado, o sujeito paranoico encarna a virilidade e a pureza do “homem de bem” simples e trabalhador, que também é circunscrito em um ou vários grupos sociais concretos: homem, branco, hétero, cristão, nacional etc.

 

Neste processo de deslocamento e projeção num outro, o sujeito paranoico “esquece” que o homem de bem trabalhador é exatamente o sujeito automático do liberalismo, a abstração subjetiva fundamental do capital e causa primeira da desumanização da vida e do esvaziamento de sentido que tanto fazem sofrer o homem moderno. Ao glorificar e se dedicar ao trabalho, mesmo que seja o da “economia real”, industrial ou agrícola, o fascista paradoxalmente adere ao capital, objeto inconsciente de sua revolta. O resultado é que uma sociedade fascista radicaliza o apego fanático a aspectos concretos e potencializa a revolta e a vontade de destruição contra grupos que encarnam os aspectos abstratos do capital, mas ao mesmo tempo, com seu culto ao trabalho, reforça e leva ao extremo as abstrações desumanizadoras do próprio capitalismo e suas consequências danosas ao indivíduo e à coletividade.

 

Essa união tempestuosa entre a ideologia da “destruição pela destruição” própria do fascismo e a da “produção pela produção” do capitalismo, redunda na monstruosidade da “produção para a destruição” em que as imensas capacidades técnicas e produtivas desenvolvidas pelo capital são utilizadas agora para produzir, não mais o valor, mas a destruição pura e simples: da natureza, da coletividade, dos indivíduos, da arte, do pensamento, dos bens e do próprio valor. A produção para a violência, cujos objetivos são a própria continuação da violência, disfarçada de combate à corrupção, é a única “utopia” fascista.

 

O trabalho, sob o fascismo, não tem mais a finalidade da produção do valor, mas a produção da morte. Se no capitalismo a máscara psíquica do trabalho dignificação da pessoa trabalhadora, que recobre o desejo profundo do sujeito automático (do capital) de produção de valor e mais valor; no fascismo, o trabalho, embora se disfarce também com a máscara da dignificação individual, se torna, no fundo, a expressão da vontade destrutiva do reprimido, de produção da morte, que emerge na psique como sujeito paranoico cuja revolta contra o capitalismo se projeta numa cruzada irracional e sanguinária contra certos grupos sociais nos quais serão projetados vários aspectos abstratos (feminilizados) do capitalismo.

 

Os campos de concentração alemães são exemplos extremos do trabalho racional voltado para a morte, como o são, também, as polícias brasileiras sob as ordens de governos neofascistas em sua atuação nas periferias das grandes cidades. Mas a própria economia capitalista, que já produz destruição e morte quando voltada para a produção de valor, sob o regime fascista se torna ainda mais destrutiva, como são os casos da indústria bélica nazista, que mobilizou todo o parque industrial alemão em torno da guerra, e da agropecuária brasileira sob o governo Bolsonaro, que amplia de forma desmedida o desmatamento e as queimadas, bem como o uso indiscriminado de agrotóxicos.

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A sedução do fascismo

 

O desejo profundo do sujeito paranoico do fascismo é a destruição de tudo e todos e, no limite, a própria autodestruição. Uma sanha aniquiladora que se justifica como purificação, como luta moralista contra a corrupção e que começa, em geral, com um ataque às instituições liberais, notadamente a política democrática. Quando o sujeito paranoico emerge na psique, ele ainda não pode mostrar sua face monstruosa, insuportável aos olhos de qualquer pessoa, inclusive de si mesmo. A luta contra a corrupção (moral e econômica) e os grupos que supostamente a encarnam se tornam, então, a máscara que disfarça o fascista de herói justiceiro, cuja violência e autoritarismo seriam necessários para combater a imoralidade ardilosa dos inimigos poderosos e purificar a sociedade. Mas a máscara de justiceiro é uma tênue camada, que mal esconde o desejo incontido de morte e destruição, e é suficiente apenas para alimentar a auto-indulgência dos que se deixaram levar pela onda fascista e não suportariam ver no espelho o rosto desnudo do sujeito paranoico que neles se encarnou. A fina máscara de herói justiceiro não convence sobretudo aos que não se deixaram seduzir pelo fascismo e que assistem horrorizados seus concidadãos, colegas, amigos e parentes serem tomados pela monstruosidade fascista.

 

A vulnerabilidade ao fascismo não é uma questão de cultura e educação. Embora a maior parte dos fascistas se encaixem no figurino típico do “homem médio” ou da “pessoa de bem” com poucas posses, pouca leitura e educação precária, a praga fascista, quando se propaga pelo corpo social, costuma arrebatar pessoas de todas as classes sociais e com graus variados de “refinamento” e “bom gosto”, encontrando adesão inclusive entre intelectuais e artistas que, não raro, construíram sua reputação como críticos sociais ou libertários. Há três motivos para o poder de sedução do fascismo.

 

O primeiro, já comentado aqui, é que o sujeito paranoico fascista se gesta no inconsciente a partir de conteúdos reprimidos pelas relações sociais abstratizantes do capital, que desumanizam as pessoas, principalmente por meio do trabalho. A transformação do ser humano em mercadoria e a subordinação das relações sociais à competição mercadológica em favor da criação da riqueza abstrata (valor/dinheiro), exigindo que as pessoa se comporte e se torne (se constitua como ser) um sujeito automático cria um enorme sofrimento humano, ao relegar todas as necessidades sociais e psíquicas realmente humanas a um segundo plano existencial. O sujeito reacionário do conservadorismo, o sujeito identitário do ativismo e o sujeito cidadão do progressismo recobrem o cerne da psique, constituído pelo sujeito automático, para para atenuar sua desumanização e proporcionar algum conforto psíquico e alguma paz social para que o capital possa continuar a se reproduzir às custas da vida humana.

 

Mas atenuar e compensar os efeitos nefastos do capital sobre a alma humana não significa resolvê-los. A desumanização provocada pela lógica da mercadoria e pelo trabalho abstrato, bem como o sofrimento dela decorrente continuam e, na medida em que não podem se manifestar como tais, acabam esquecidas, ou seja, empurradas para o inconsciente, onde permanecem recalcadas, até que surja a oportunidade destes conteúdos reprimidos, carregados de medo, ódio e ressentimento, emerjam na psique como sujeito paranoico. A questão é que este processo de recalque, embora seja mais visível no sujeito reacionário do conservadorismo, que está mais próximo da constituição da psique fascista, é generalizado, na medida em que todo indivíduo na cultura capitalista se constitui primariamente como sujeito automático. Portanto, a frustração e o mal estar com o capital, bem como seu recalque é universal no capitalismo. Decorre daí que, em potência, todo indivíduo da sociedade de mercado é um sujeito paranoico, ou seja, um fascista.

 

Por isso, quando o fascismo irrompe no tecido social, embora existam subjetividades e extratos sociais mais propensos à sua aderência (como os conservadores, as classes médias tradicionais, os homens brancos maduros e os evangélicos do Brasil atual), ele se dissemina por todo o tecido social, inclusive entre muitos progressistas, intelectuais e artistas, que estão, de fato, entre os grupos mais resistentes ao contágio fascista. A explicação para essa capilaridade do fascismo é a universalidade do recalque, ou seja, da repressão das relações concretas e dos sentidos da existência humana em favor da dominação abstrata do capital, efetuado pelo sujeito automático que age no cerne psíquico do homem moderno, desumanizando-o. A oportunidade para a emergência fascista encontra-se, portanto, latente em cada alma da sociedade da mercadoria.

 

O segundo motivo do poder de sedução do fascismo é que ele é uma revolta contra o status quo, ou pelo menos alguns aspectos seus, como a política democrática, os direitos humanos, o estado de direito etc. Ao acusar estas instituições liberais e seus defensores de hipócritas, mentirosos e corruptos, o fascista nada mais faz do que declarar verdades que vão de encontro à correta percepção popular sobre os arranjos institucionais da sociedade capitalista, construídos para impulsionar a reprodução do capital e que, em termos de classes sociais, beneficiam os detentores do capital e seu capatazes (políticos, classe média tradicional, alta burocracia etc), restando ao povo a distribuição das migalhas da acumulação do capital. Em momentos de crise aguda do capitalismo, alguns desses grupos tradicionalmente beneficiados pelo capitalismo são selecionados como bodes expiatórios pelos fascistas, como o judeu banqueiro na Alemanha nazista; ou os empreiteiros e os políticos progressistas e fisiológicos no Brasil atual. Ao lado desses extratos corruptos de elite, minorias sociais marginalizadas, que são vítimas contumazes do preconceito e do ódio social, também entram para o grupo dos corruptores que degradam a sociedade e, por isso, precisam ser extirpados ou controlados violentamente: os criminosos comuns, os negros, as mulheres emancipadas, os LGBTs e os praticantes de religiões afro-indígenas, no Brasil atual; os não arianos, os homossexuais e os judeus em geral, no caso da Alemanha nazista.

 

Na crise, os rompantes moralistas do fascismo contra estes grupos portadores da corrupção saem do seu nicho lunático e encontra eco na voz das massas desiludidas e temerosas pelo futuro. Na revolta irracional dos fascistas contra o capitalismo, os bodes expiatórios que encarnam as abstrações desumanizadoras da sociedade da mercadoria são tanto grupos sociais da elite tradicionalmente favorecidos pelo processo de acumulação capitalista, quanto minorias marginalizadas, vítimas do ódio social. Esta personalização do mal, encarnado agora em grupos concretos da sociedade, atende aos desejos de concretude fascista, além de ser eficaz como criação imaginária de inimigos mortais e demoníacos, contra os quais o “homem de bem” trabalhador não necessita controlar seus ímpetos, até então recalcados na psique, de medo, ódio e sede de destruição. Pulsões sombrias do humano, mas que, contra forças demoníacas são justificáveis e até desejáveis. Essa demonização têm evidentes características místico-religiosas, que projetam o mal em determinados grupos sociais. Não à toa, os conservadores e os cristãos costumam estar entre os apoiadores de primeira hora do fascismo, constituindo uma firme base de apoio a durante a onda fascista.

 

Lutar contra o mal, encarnado em demônios terrenos, é excitante e enobrecedor. Por isso, ao emergir na psique, o sujeito paranoico do fascismo é contagiante, pois encontra-se na situação do herói, numa luta desigual contra um inimigo malvado e praticamente invencível. O sujeito paranoico é dinâmico, altissonante, desafiador e compensa a irracionalidade perversa de suas ideias e ações com uma excitação extrema e um empenho quase sobre-humano em torno de uma causa que é a de todos: o combate à corrupção econômica, política e moral da sociedade. O fascismo é o filho degenerado do romantismo. O fascista toma do romântico e sua luta inglória contra o sistema, o elã do iluminado rebelde que sempre seduziu o homem moderno, frustrado em sua humanidade pelas abstrações vazias de sentido do capitalismo: trabalho, tempo abstrato, valor, sujeito automático etc.

 

Não é por acaso que tantos bons artistas e intelectuais acabam por aderir ao fascismo. Pelo menos de início, os fascistas podem dar a impressão de estarem do lado certo da luta. A irrupção do sujeito paranoico na psique coletiva carrega, de fato, a potência passional das rupturas revolucionárias que sacodem a sociedade de forma definitiva: nada mais será como antes depois da cruzada contra a corrupção e o resgate da concretude humana prometida pelo fascismo. Mas uma observação apenas um pouco mais atenta e menos apaixonada do fenômeno fascista mostraria a face terrível da loucura do sujeito paranoico, cujo ardor “revolucionário” e as “boas intenções” purificadoras da sociedade, no fundo, deseja apenas a destruição pela destruição, distopia em nada semelhante à loucura utópica ou mesmo reacionária evocada pelos românticos de diversos matizes. Por mais que o fascismo lembre uma revolução romântica, é imperdoável que intelectuais e artistas, mesmo os de tendência liberal ou conservadora, militem ou mesmo simpatizem com sua demência moralista e sanguinária: mais do que ninguém, eles têm o aparato simbólico necessário para saber com o que estão lidando.

 

Terceiro, ao explodir como uma revolta “romântica” contra o status quo, o fascismo parece, em seus momentos iniciais, uma explosão de liberdade. A irrupção do sujeito paranoico na psique, dá ao indivíduo a impressão de libertação amarras sociais, tanto no plano simbólico das ideias e linguagem, quanto na esfera da ação prática. O fato das instituições, convenções sociais e bons modos liberais, mantidas por conservadores e progressistas, estarem eivadas de hipocrisia e recobrirem com a máscara da civilização uma ordem social violenta e injusta, é explorado pelo fascismo, cujos membros se veem desobrigados, pelo menos na aparência, de prestarem contas às etiquetas sociais da civilização burguesa. Esta espontaneidade da linguagem e da ação reforça a autoimagem de pureza adâmica e espontaneidade do indivíduo fascista e costuma atrair para o movimento indivíduos e grupos sociais que se organizam em torno do discurso da liberdade, como muitos liberais, artistas e intelectuais.

 

Na verdade, esta libertação do status quo não ocorre em direção a uma sociedade mais libertária, como os fascistas querem acreditar ou, pelo menos, fazer os outros acreditarem. Ela ocorre para dar vazão ao desejo de destruição e para liberar a opressão e a violência contra as minorias demonizadas e, no caso da Alemanha nazista, para iniciativa da guerra contra o inimigo externo. Atualmente, o alívio que o sujeito paranoico sente ao poder utilizar, por exemplo, uma linguagem “politicamente incorreta” sem que tenha de se policiar diante de seus comparsas e da sociedade em geral, mal recobre o medo e o ódio que ele nutre pelos grupos minoritários. Se o “politicamente correto” se trata, realmente, de uma grande hipocrisia liberal e progressista, os fascistas não a criticam para repará-la nem resgatar as minorias marginalizadas, mas simplesmente para fazer valer o seu “direito” de exercer o preconceito e a opressão sobre os grupos discriminados, explicitando e afirmando a marginalização social que a hipocrisia linguística tentava recobrir. A liberdade fascista se mostra, então, como uma falsa liberdade, que liberta apenas a violência totalitária, o direito irrestrito da maioria oprimir as minorias e destruir o tecido social. Trata-se, na esfera psíquica, da liberação explosiva do medo, do ódio e do ressentimento recalcados como conteúdos reprimidos do sujeito automático, e que se efetiva na esfera social livre exercício da barbárie.

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