O fascismo é o espelho sombrio do capitalismo, por Wilton Moreira

Na contramão da restrição histórica de André Araújo, Umberto Eco, num texto muito conhecido, faz uma lista 14 de fenômenos culturais, psíquicos e políticos que, havendo um movimento político que tenha alguns deles como características, seria fascista.

O fascismo é o espelho sombrio do capitalismo

por Wilton Moreira

Do blog do autor

O que é o fascismo? O Governo Bolsonaro é fascista? As duas questões estão no ar e foram levantadas num artigo recente por André Mota Araújo, que não considera o governo brasileiro fascista e provavelmente não o considera os fenômenos Trump nos EUA, Salvini na Itália e Orbán na Hungria, para ficar apenas em alguns poucos exemplos de autoristarismos de extrema-direita atuais.

As características do fascismo que Araújo elencou (boa parte delas extensíveis ao nazismo) são, na maior parte, de feições administrativas e econômicas e muito próximas do receituário do keynesianismo e taylorismo. Resultam de medidas tomadas pelos governos fascistas após a tragédia econômica e social que o liberalismo extremado provocou em boa parte dos países europeus após a crise de 1929.

Os critérios de André Araújo para definir o fascismo são, portanto, políticos, administrativos e econômicos, além de bastante específicos. Por tais critérios, de fato, os governos conservadores e de extrema direita da atualidade não são fascistas e Araújo está correto. Aliás, se caracterizarmos o fascismo dessa maneira, dificilmente ele se repetirá nos dias de hoje ou no futuro, pois sua manifestação como fenômeno político estaria condicionado ao contexto histórico do entreguerras que certamente não se repetirá.

O fascismo eterno de Umberco Eco

Na contramão da restrição histórica de André Araújo, Umberto Eco, num texto muito conhecido, faz uma lista 14 de fenômenos culturais, psíquicos e políticos que, havendo um movimento político que tenha alguns deles como características, seria fascista.

Ao contrário de Araújo, a lista de Eco amplia o leque do fascismo no tempo e no espaço. Se  adotarmos sos critérios do italiano, o governo Bolsonaro seria fascista de carteirinha, assim como o de Trump, Orbán e Duterte, mas também a teocracia iraniana do aiatolás e grande parte dos governos autoritários de direita que assolaram o mundo no século XX. E é bem provável que encontraríamos traços fascistas em reinos medievais, liderados por tiranos loucos ou fanáticos. Nem por isso, Eco deixaria de ter razão, tendo em vista os critérios bastante amplos que ele utiliza para identificar o fascismo.

Uma outra forma de conceituar o fascismo

Quem está certo? André Araújo ou Umberto Eco? Na verdade, ambos estão, de acordo com seus critérios, e esta não creio que seja a melhor questão. Na verdade, é importante ter um conceito de fascismo que nos permita definir um governo ou um movimento político como tal, apenas na medida em que a classificação seja útil para entendermos nossa época em relação a outros períodos e possibilite-nos criarmos formas de resistência eficazes contra tendências autoritárias da sociedade, sejam fascistas ou não.

Proponho uma maneira diferente de entender o fascismo, mais próxima da que Moishe Postone tentou em outro artigo e que, ao invés de utilizar um método fenomenológico de enumerar características, procura entender as causas do fascismo e sua lógica interna.

Uma premissa fundamental de Moishe Postone é que o nazismo e o fascismo são, na verdade, revoltas contra o capitalismo, mas que contraditoriamente se expressam nos próprios termos capitalistas, ou seja, o fascista não sabe exatamente contra o que é sua revolta. Por isso ele projeta o seu objeto de ódio em grupos sociais específicos, que se tornam bodes expiatórios e fonte de todo o mal do mundo. No caso do fascismo italiano e do nazismo alemão, o povo demoníaco que corrompia o mundo era principalmente os judeus, mas também os comunistas, os homossexuais e os ciganos.

A corrupção é uma obsessão fascista e a identificação e punição (com prisões, linchamentos físicos ou morais, torturas e até a morte) dos corruptos, responsáveis pelo mal no mundo, é o ideal que mantém a malta em permanente estado de excitação e mobilização em favor das lideranças fascistas e contra os grupos sociais identificados com o mal. Esta interpretação moral dos problemas do mundo substitui, assim, a verdadeira causa do sofrimento do povo, que seria a lógica implacável da mercadoria, que mostra sua face mais excludente e desumana em momentos de crise aguda do capitalismo.

A crises capitalistas e a explosão do fascismo

Não vou tentar, neste texto, empreender uma compreensão mais detalhada do fascismo, que já fiz aqui e aqui. Meu intuito é mostrar como é possível construir um conceito mais fecundo de fascismo, que será útil para a compreensão do momento atual de crise ampla e global, em conexão com os momentos iniciais do fascismo, na década 1930.

No texto de Umberto Eco, a sexta característica do fascismo é que ele “provém da frustração individual ou social” e o autor ainda assevera, em tom profético, que “em nosso tempo, em que os velhos ‘proletários’ estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena política), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório”.

Eco está correto, a frustração e o ressentimento do “homem médio” são afetos essenciais ao fascismo. E o gatilho que faz estes afetos sombrios virem à tona é a crise, mas apenas quando ela se manifesta de forma aguda e ampla, abarcando a economia e a política, mas também a esfera moral das sociedades. Era o caso da década de 1930 pós-1929 e é o caso da atualidade pós-2008. Ao se sentirem em decadência ou à beira do abismo da pobreza, os extratos médios se revoltam explosivamente, não contra o capitalismo, mas contra grupos sociais específicos, supostamente responsáveis pelos males do mundo.

Na Alemanha de 1930, os bodes expiatórios eram o judeus, ciganos, gays… No Brasil atual, são os políticos progressistas (esquerdas/comunistas) e fisiológicos, os LGBTs, os ativistas, os “macumbeiros”… Tais grupos seriam portadores da corrupção da sociedade, que não é apenas política e econômica, mas também moral, ou seja, ela se alastra para a esfera dos costumes e atenta principalmente contra a virilidade e a superioridade da maioria, geralmente branca e masculina – e no caso brasileiro, cristã.

Uma característica básica de todo fascismo é a tentativa de imposição de um grupo social majoritário e dominante, considerado superior, em detrimento de grupos sociais que, ou são corruptos e que devem ser eliminados (judeus, gays, petistas, feministas, ecologistas); ou são inferiores, a serem dominados (mulheres, índios, negros).

Ora, essa formação de uma maioria pura e virtuosa, em oposição a minorias supostamente degeneradas e/ou corruptas decorre da necessidade de se encontrar um ou vários grupos sociais para se atribuir a culpa moral pelos problemas do capitalismo que, na verdade, não são morais e resultam funcionamento turbulento do próprio sistema. ***

A solidariedade doentia do fascismo contra a competitividade capitalista

O fascismo não se caracteriza tanto por seus conteúdos políticos, econômicos ou técnicos como, por exemplo, eficiência administrativa, política econômica keynesiana, aversão ao intelectualismo, frustração de classe etc. Alguns destes conteúdos até se repetem em vários fascismos, como os dois últimos, mas como decorrência de seu funcionamento intrínseco.

Em vez de tentar entender o fascismo por seus conteúdos, ou seja, descrevendo-o fenomenologicamente através de uma série de características, como fizeram Umberto Eco e André Araújo, quero entendê-lo procurando apreender sua forma e sua “gramática”, ou seja, sua lógica interna. Isso porque o fascismo, assim como o capitalismo, é extremamente plástico, podendo assumir várias máscaras de conteúdo.

Por exemplo, o fascismo e o nazismo clássicos se aliaram aos industriais italianos e alemães, adotando uma política econômica keynesiana, típica do progressismo. No Brasil de Bolsonaro, a aliança se deu com as elites rentistas e agropecuárias, adeptas do neoliberalismo mais extremado.

Mas se é assim, como saber se há um movimento fascista na sociedade ou mesmo se tal movimento chegou ao poder, constituindo um governo fascista? Ora, o fascismo se caracteriza como uma reação anticapitalista inconsciente contra os dois princípios fundantes do capitalismo e que constituem a “alma” de sua coletividade (sua esfera política) e de seus indivíduos (esfera subjetiva). Esses princípios fundantes são a competitividade e a racionalidade abstrata.

Ao estabelecer a competitividade como princípio geral da sociedade e de seus indivíduos, o capitalismo se afirma como uma guerra econômica de todos contra todos, não apenas entre empresas, mas também entre estados e indivíduos. Os aspectos solidários e compassivos do ser humanos ficam em segundo plano, subordinados ao império da concorrência. O significa que acabam por serem reprimidos no inconsciente individual e coletivo.

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Os efeitos da competitividade desenfreada em momentos de crise, quando o cobertor da economia se torna curto e as classes médias se veem ameaçadas de cair na pobreza, é que o que detona a revolta fascista, na forma de mobilização de ódios e ressentimentos sociais contra grupos sociais historicamente discriminados, que se tornam bodes expiatórios: mulheres, ativistas, negros, comunistas/progressistas etc. É o que chamei de bomba atômica do fascismo.

Como reação à competitividade capitalista, há a formação de uma maioria que se define menos pelo poder econômico do que por outras características mais concretas, como raça, gênero, sexualidade, religiosidade, nacionalidade etc. As características dessa maioria variam de acordo com o contexto histórico, o que demonstra a plasticidade do fascismo: se a religiosidade é secundária para definir a maioria ariana na Alemanha nazista, o cristianismo, principalmente evangélico, se torna importante para a identidade da maioria fascista no Brasil bolsonarista.

O importante é que sempre há a formação de uma maioria fascista. A coesão dessa maioria se funda numa solidariedade doentia, que se constitui a partir da irrupção dos conteúdos afetivos vinculados à solidariedade e à compaixão, reprimidos pela exigência de competitividade capitalista.

A solidariedade fascista é doentia porque se constrói a partir do ódio e do medo em relação ao outro, pois a maioria se torna uma comunidade  de iguais, apenas em contraposição a minorias que devem ser demonizadas: judeus, comunistas, gays e ciganos na Alemanha nazista; progressistas, gays, “macumbeiros” e criminosos comuns no Brasil bolsonarista. Trata-se, portanto, de uma solidariedade fundada na exclusão de outros grupos sociais demonizados, em relação aos quais seria justificável sentir medo e ódio.

Tal solidariedade é doentia também porque, além de excluir o outro, é paranoica em relação aos seus, pois se constrói por meio da desconfiança e vigilância constantes entre os indivíduos da maioria, tanto para evitar e reprimir comportamentos que caraterizem a pessoa como anormal (esquerdismo, homossexualismo, feminismo, “macumbaria” etc), quanto para não permitir que haja qualquer tipo de condescendência ou solidariedade para com os grupos minoritários que devem ser convertidos à maioria, proibidos de afirmarem como minoria ou, no limite, eliminados.

O caso da homofobia no Brasil é exemplar, pois os LGBTs são constantemente coagidos a se vestirem e se portarem como héteros (passarem despercebidos), “convidados” a optar pela cura gay e vivem ameaçados pela violência e até a morte. Com o fascismo bolsonarista, esta homofobia difusa da sociedade é assumida explicitamente por grupos conservadores  e se torna, primeiro, plataforma eleitoral e, agora, política de estado.

A solidariedade doentia da maioria, fundada no medo e no ódio do outro, e na desconfiança paranoica e vigilância permanente em relação aos seus, é uma reação inconsciente à competitividade desenfreada do capitalismo e, em geral, ela busca seus conteúdos ideológicos em velhos preconceitos, preservados pelos grupos conservadores do país.

A solidariedade doentia funciona como um cimento comunitário que tenta reconstituir o tecido social esgarçado pela desigualdade social provocada pela competição capitalista, que se agrava em tempos de crise aguda do capital. Essa reconstituição patológica da comunidade é patente no meio evangélico nacional, que reage à destruição do tecido social com a fundação de uma irmandade cuja identidade cristã se constitui por meio a demonização do outro e da vigilância militante entre seus membros.

A irracionalidade absoluta do fascismo contra a racionalidade instrumental do capitalismo

Mas a solidadriedade doentia, como reação ao princípio da competitividade, embora seja necessária para definir o fascismo, não é suficiente. Os regimes teocráticos do Oriente Médio, notadamente o Irã e a Arábia Saudita, se fundam na solidariedade doentia entre os muçulmanos (xiitas num caso e sunitas no outro) e nem por isso podem ser classificados como fascistas. Por mais que tais regimes sejam abomináveis, eles têm projetos nacionais de poder e pragmatismo político; além de se conformarem, de uma forma ou de outra, à racionalidade do capitalismo e ao jogo da geopolítica mundial.

A outra característica fundamental do fascismo é a irracionalidade absoluta. Como vimos, tanto a coletividade quanto o sujeito individual no capitalismo são constituídos por outro princípio basilar além da competitividade, que é a racionalidade instrumental. É contra esta última que o fascismo também se rebela, de forma inconsciente, não lhe contrapondo alguma racionalidade alternativa, mas liberando uma irracionalidade absoluta, explosiva e ávida por destruir a tudo e todos. Por isso, o fascismo é a manifestação politica mais perigosa da modernidade, pior do que qualquer ditadura ou totalitarismo, à esquerda ou à direita.

Por mais que os regimes fascistas se apoiem em alguma racionalidade capitalista, como o keynesianismo da Alemanha nazista ou o neoliberalismo do Brasil bolsonarista, o governo não tem um rumo definido nem uma estratégia de poder que instrumentalize os ódios e medos sociais mobilizados pela solidariedade doentia. Sua única finalidade é a guerra permanente, seja ela contra o crime comum, contras as minorias ou contra inimigos externos, inclusive a guerra interna entre suas hostes, pois todos os fascismos são marcados pela dissenção constante entre aliados e sua precária unidade se dá apenas em contraposição ao inimigo, seja ele quem for.

Um governo fascista, para se sustentar, necessita do caos e do confronto, de estar em permanente excitação combativa: é um governo em estado de guerra cujo objetivo é a destruição pela destruição.

A redução do humano à razão instrumental e à competitividade

Ora, se o fascismo fosse apenas um ressentimento de classe que assume o aspecto de uma luta moral contra a corrupção. Por outras palavras, se se caracterizasse como uma revolta contra o empobrecimento (em curso ou iminente) causado pela competição capitalista e que suscita a a formação de uma maioria reacionária fundada na solidariedade doentia, o fascismo se resumiria às classes médias e não se alastraria a todos os extratos e grupos sociais, incluindo os pobres e as elites.

Mas não é o que se verifica. A origem e base de sustentação do fascismo é o homem médio, mas, uma vez detonado, ele se dissemina como uma metástase por todo o tecido social, inclusive entre as classes abastadas, que não teriam motivos para ressentimentos econômicos e sociais, já que são vencedoras da competição capitalista.

Como vimos, além da competição, outro princípio fundante do capitalismo é a racionalidade instrumental, voltada para a eficiência e a produtividade que, por sua vez, tem como objetivo o lucro. Ela se utiliza das capacidades racionais do ser humano como instrumento para a reprodução do capital (lucro). O ser humano nascido na cultura capitalista tem o núcleo de sua psique constituído, desde o berço, pela racionalidade instrumental e a competitividade.

Desempenhar bem, no mundo do trabalho, dos negócios e até na vida pessoal, o papel de pessoa racional e competitiva (recebendo o adjetivo elogioso de “profissional”) é condição fundamental para a sobrevivência de qualquer um na sociedade capitalista – inclusive e principalmente das pessoas da elite, para manterem ou aumentarem sua riqueza.

Na prática, o que ocorre é que todos os desejos, faculdades e necessidades humanos acabam por se subordinar à razão instrumental e à competitividade. As pessoas concretas, em sua infindável riqueza existencial, acabam por se reduzirem a essas duas disposições abstratas, universais e destituídas de conteúdos concretos, como que transformadas em autômatos voltados para a eficiência e a produtividade.

Como a irracionalidade absoluta se gesta no incosnciente

A racionalidade instrumental reduz o humano a um mecanismo lógico de produção de mercadorias, ou seja, produção de dinheiro e lucro (valor e mais valor). Todo o resto da humanidade da pessoa, como afetos, desejos, imaginação, erotismo, sensibilidade etc, são submetidos à razão instrumental ou simplesmente suprimidos, seja ela trabalhadora, gerente ou propietária.

Os contrapesos sociais que amenizam essa violenta redução do humano à razão instrumental para servir o valor são religião, a arte e a vida íntima. Mas são apenas paliativos para os efeitos devastadores que a “redução ao Um abstrato” do valor promove na psique e na política.

O resultado da redução da alma à razão instrumental é o recalque de todas as outras potências humanas no inconsciente, onde elas passam a existir como conteúdo reprimido. Como tais, elas têm uma existência semi-autônoma, regida pelo medo, ódio e ressentimento, configurando-se como verdadeiras criaturas do submundo psíquico, compartilhadas entre todas as pessoas da sociedade capitalista. São os demônios do capital. A palavra demônio não é descabida, pois é assim que as religiões denominam as zonas sombrias da psique individual e coletiva dos povos.

Esses conteúdos reprimidos pela razão instrumental, que se desenvolvem no inconsciente capitalista (ao mesmo tempo individual e coletivo) constituem o fascismo potencial que existe democraticamente em cada classe social, na verdade, em cada indivíduo da sociedade capitalista – a qual abarca todos os povos da terra, hoje em dia. Cada um de nós, portanto, é um fascista em potência, um revoltado inconsciente com a redução de nossa alma à unidimensionalidade da racionalidade instrumental a serviço da reprodução do capital

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A irrupção da irracionalidade absoluta

A competição capitalista, em seu aspecto econômico e psíquico, desencadeia todo tipo de ódios e ressentimentos sociais que vão moldar a formação de uma maioria fascista fundada na solidariedade doentia. Mas este regime de ódio é só o gatilho de uma potência muito mais destrutiva que também é desperta pelo desenvolvimento fascista da sociedade, que é o da irracionalidade absoluta. Ela é a revolta do reprimido (os demônios da inconsciência) contra a racionalidade instrumental capitalista que subordina e reduz todos os aspectos da vida humana ao princípio da eficiência produtiva.

Há duas maneiras de se rebelar contra as coerções da razão instrumental: ou propondo uma racionalidade alternativa, como o socialismo, a contracultura e até mesmo o romantismo utópico; ou se deixando tomar pela irracionalidade. O crime e o vício são exemplos de “escolhas” individuais inconscientes pela rebeldia irracional. Quando a irracionalidade é contraposta à razão instrumental capitalista de forma coletiva, estamos diante do fascismo.

A irracionalidade absoluta é muito mais perigosa e destrutiva que a solidariedade doentia fundada no medo e no ódio, por dois motivos. Primeiro porque ela é disseminada, como potência oculta no inconsciente, por todas as classes e grupos sociais, não se circunscrevendo a um extrato específico. Por isso o fascismo nasce nos extratos médios da sociedade e se alastra de forma incontrolável por todo o espectro social.

Pois se o ressentimento de classe, provocado pela competição, atinge principalmente as classes médias e marginalmente os pobres, o ressentimento contra a razão instrumental está presente em todas as classes indistintamente. Mesmo as classes médias altas e os ricos, vencedoras da luta capitalista, são reprimidas em sua humanidade pelas coerções da lógica da mercadoria e sua razão instrumenal.

Em segundo lugar, os ódios e preconceitos de toda espécie, apesar de abomináveis, são geralmente administráveis e podem ser submetidos a projetos de poder que, de uma forma ou de outra, se amoldam à racionalidade capitalista, como foi o caso do racismo dos EUA e África do Sul, as ditaduras militares da América Latina e as teocracias islâmicas do Oriente Médio, para ficarmos em alguns poucos exemplos. Mas a irracionalidade absoluta do fascismo deseja apenas morte e destruição, inclusive a autodestruição, e não se submete a nenhum tipo de racionalidade, muito menos à lógica do capital.

A impossibilidade de se controlar a irracionalidade fascista

Em seu artigo, André Araújo chama a atenção para o fato de que a administração do governo e da economia Italiana e Alemã eram racionais, até mesmo de inspiração keynesiana. Há controvérsias em relação a isto, mas tomemos esta afirmação como verdadeira. Em todo caso, o objetivo principal do fascismo e do nazismo não era organizar a economia, distribuir renda, proteger o trabalhador e nem mesmo ampliar o estado com a conquista de outros povos, mas simplesmente a guerra ilimitada. Guerra contra os inimigos internos e externos, mas também entre os próprios fascistas, cujo governo se encontra num estado de desconfiança e conflagração permanentes.

A eventual racionalidade capitalista adotada por alguns regimes fascistas não se destina à reprodução do capital (lucro) nem às necessidades humanas, mas serve ao objetivo principal do fascismo que é a guerra e o morticínio sem fim, cuja realização constituem o gozo do desejo irracional de destruição pela destruição que governa de fato uma coletividade fascista.

Trata-se da utilização da razão como instrumentos da irracionalidade. Auschwitz era um primor de racionalidade. Como matar milhões? Utilizando-se do método industrial, bem ao estilo taylorista, com os condenados servindo de força de trabalho (custo mínimo de mão de obra), numerando-os e regulando seu sofrimento meticulosamente, incinerando-os para não restar contaminantes no solo nem vestígios denunciadores da limpeza étnica. Era uma fábrica muito produtiva e eficiente, mas que não visava produzir lucro nem bens ou serviços úteis, e sim o sofrimento e a morte, o extermínio de um povo inteiro como gozo final do desejo de destruição nazista, movido pelo misto de ódio e medo que o alemão sentia pelo judeu, bode expiatório que substituiu os males do capitalismo.

Em um outro exemplo, se a Alemanha nazista fosse governada por algum princípio racional, Hitler, diante do alerta de seus generais e ante a experiência desastrosa de Napoleão, não teria invadido a URSS, abrindo outra frente de guerra inviável para as capacidades alemãs. Os generais alemães, cônscios da loucura, poderiam muito bem assassinar Hitler, jogar a culpa nos judeus, abortar a invasão e preservar o país em nome de um projeto autoritário de poder, mas até neles a irracionalidade fascista falou mais alto que o pragmatismo militar, pois seguiram a loucura de Hitler rumo ao suicídio nacional, como Sancho Pança seguiu Dom Quixote em seus delírios.

O mesmo se pode dizer da loucura japonesa em atacar os EUA, abrindo outra frente de guerra amplíssima no Pacífico, quando sua máquina militar estava embrenhada numa luta sangrenta contra seus inimigos mais próximos no Extremo Oriente.

No fascismo, o delírio compartilhado não se resume aos círculos de poder, mas se alastra pela maior parte do povo. A irracionalidade dos líderes é apoiada massivamente pela população, que perde a capacidade de qualquer julgamento racional, pragmático ou mesmo baseado no bom senso. O povo passa a delirar em uníssono com as lideranças e as pessoas que aderem ao fascismo se tornam imunes a contra-argumentos racionais e às evidências da realidade factual, num processo muito parecido com os delírios esquizofrênicos, só que num plano político e coletivo. Os fascistas formam uma grande massa enlouquecida, transversal a todas as classes e grupos sociais.

Um regime social (des)governado pela irracionalidade absoluta é muito mais perigoso e incontrolável do que um regime autoritário de direita que se pauta “apenas” pela mobilização do ódio, medo e preconceito do povo como estratégia de poder. Pois, além de se constituir por estes afetos sombrios da direita conservadora, o fascismo se guia principalmente pela irracionalidade, que é a liberação raivosa das pulsões reprimidas pela racionalidade instrumental, o que impede qualquer elaboração de um projeto de poder minimamente racional e realista, seja como alternativa autoritária à lógica capitalista ou acomodação a ela.

Governado pela desrazão sem limites, o estado fascista tem como finalidade apenas a destruição pela destruição, cuja realização se exprime como exercício da violência, do assassínio e da guerra, que funcionam como gozo do desejo de abolição. O resultado é a destruição do outro, do mundo e, por fim, dos próprios fascistas e seu povo. Não à toa, Vladimir Safatle caracteriza o estado fascista como suicidário.

O fascismo é o espelho sombrio do capitalismo

A emergência de uma solidariedade doentia combinada com o irracionalismo absoluto é o que caracteriza um movimento social ou um governo como fascista. Estes dois princípios fundantes do fascismo são recalques do capitalismo, ou seja, se gestam no inconsciente e individual e coletivo (são, ao mesmo tempo, subjetivos e políticos) a partir de conteúdos reprimidos pelos princípios basilares do sujeito e da sociedade capitaista: a competitividade e a racionalidade instrumental.

O fascismo é, portanto, um movimento reativo ao capitalismo e, mais que isso, sua reação é simétrica aos princípios basilares do capital. À competitividade ele opõe uma comunidade majoritária fundada na solidadriedade doentia; à racionalidade instrumental da produção pela produção, opõe a irracionalidade absoluta da destruição pela destruição.

Também em relação à subjetividade abstrata e universal do capital, defendida pelo liberalismo e que, em tese, não diferencia as pessoas pelo gênero, religião ou etnia, desde que sejam produtivas economicamente, o fascismo opõe uma subjetividade concreta, discriminatória e hierárquica, que forma a moiria fascista e é definida por critérios não capitalistas, como a raça, o gênero, a religião, a sexualidade etc.

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Em relação a esta última oposição, entre subjetividade concreta X abstrata, pode-se dizer que o fascismo constitui uma reação às tendências abstratizantes do capitalismo que desumanizam as pessoas e que são decorrência da redução das ricas e variadas potencialidades humanas à um sujeito assentado em dois princípios abstratos, a racionalidade instrumental e a competitividade, que são puras formas subjetivas aptas a transformarem qualquer conteúdo em valor e mais-valor.

Assim, a tendência fascista à concretude, à definição de grupos sociais majoritários (superiores) e minoritários (inferiores) com base em outros critérios que não o econômico (como raça, religião e gênero) é uma consequência da dupla reação à racionalidade instrumental que automatiza e in-diferencia o humano, reduzindo-o à unidimensionalidade do valor; bem como à competitividade, que alimenta e aprofunda o abismo social entre as classes sociais, às quais se constituem basicamente pela posse de renda ou capital (grandezas abstratas).

Ironicamente, o fascismo, apesar de sua sede de concretude, é tão abstrato quanto o capitalismo. Afinal, suas disposições basilares, solidariedade doentia e irracionalismo absoluto, não se constituem como conteúdos fixos ou potenciais, mas como formas que “se encarnam” em vários conteúdos, de acordo com o contexto social. Se o banqueiro judeu era o demônio para os nazistas, o bolsonarista vê no político petista/comunista e nos aivistas a encarnação do mal. Se a indústria era o orgulho da modernidade alemão, a competitiva agropecuária e mineração brasileiras são os exemplos modernos da competitividade nacional.

Outra ironia é que, apesar de ser uma revolta contra a competitividade e a racionalidade instrumental, o fascismo defende fereozmente a competição e a racionalidade instrumental capitalista, seja a nível individual, corporativo ou estatal. Como o anticapitalismo fascista é inconsciente, a revolta das massas é desviada do sistema social e canalizada contra grupos sociais concretos, historicamente discrimidanos.

O fascismo se rebela inconscientente contra as estruturas psíquicas e políticas do capitalismo (a competitividade e a racionalidade instrumental), mas superficialmente ele venera e promove a competição a razão instrumental mais desenfreadas, quase a nível da barbárie. A adoração pelo trabalho e a admiração dos que se sacrificam a ele em jornadas exaustivas, típica de todos os fascismos, é um exemplo da adesão superficial à racionalidade instrumental que reduz o humano a uma máquina de trabalhar.

A despeito da adesão superficial à racionalidade instrumental e à competitividade capitalistas, o núcleo estrutural do fascismo é formado por seus opostos sombrios, ou seja, a irracionalidade absoluta e a solidareidade doentia. Por isso, a contradição entre capitalismo e fascismo se define sempre em favor do segundo, que acaba por instrumentalizar a psique e a política capitalistas para sua finalidade destrutiva.

Por isso, a racionalidade produtiva (keynesiana) ou a financeira (neoliberal), a democracia, o estado de direito, a promoção da disciplina do trabalho e da competição mais selvagem, decorrentes da lógica da mercadoria, são comuns em todos os fascismos, mas não são mais instrumentos para a reprodução do capital. Na verdade, a própria reprodução do capital, que é a finalidade última do capitalismo, passa a ser, agora, instrumento (meio) para a reprodução da destruição, o único objetivo do fascismo. A contradição entre capitalismo e fascismo acaba por se resolver em favor do último, num processo em que as imensas potências técnicas e racionais do capital se voltam explicitamente para a destruição e a morte.

Por ser uma reação inconsciente e simétrica ao capitalismo, pode-se dizer que o fascismo constitui o seu espelho sombrio, resultado de uma revolta cega contra os efeitos nocivos da redução do humano à racionalidade instrumental e à competitividade, reprimindo o restante das potências humanas nos submundo do inconsciente, tanto individual (psíquico) quanto coletivo (político). O fascismo é o demônio oculto do capitalismo, que emerge em tempo de crise aguda, mas que existe o tempo todo nas sombras do capital, como potência infernal à espera de uma fissura para escapar e se realizar.

Entendido dessa forma, como reação simétrica ao capitalismo, o fascismo nem é eterno, como parece sugerir Umberto Eco, nem restrito ao contexto histórico da década de 1930, como quer André Araújo. Ele é histórico, sim, mas circunscrito ao capitalismo como sistema consolidado (século XIX até o momento). Enquanto houver capitalismo, haverá o espelho sombrio do fascismo, criatura indesejada do Capital, que se move sorrateiramente nas sombras (inconsciente) do capitalismo, como o Lúcifer é o anjo caído de Deus, aprisionado no Inferno. Mas embora o fascismo exista de forma permanente no inconsciente do capitalismo, sua emergência se dá apenas em momentos de crises graves, quando a própria existência do sistema encontra-se ameaçada: a tentação do demônio espera pelo momento de fraqueza dos filhos de Deus, sabedoria milenar das religiões.

O bolsonarismo e o governo Bolsonaro são fascistas?

Creio que esta questão já esta respondida, pois o bolsonarismo (que engloba o lavajatismo judicial, as classes médias, os ruralistas, as milícias digitais e paramilitares e o cristianismo pentecostal e é aliado circunstancial das forças armadas e do rentismo neoliberal) possui as duas características fundamentais do fascismo. A primeira é a solidariedade doentia de uma maioria que se define como heterossexual, cristã, masculina, branca e de classe média ou alta. Apenas as duas primeiras são obrigatórias para se pertencer à maioria bolsonarista, mas em quanto mais dessas características o indivíduo fascista se inserir, mais normal (majoritário) ele será.

A segunda é a irracionalidade do governo Bolsonaro e dos bolsonaristas, que vai da negação da realidade factual até a mania de raciocínios delirantes em todas as áreas, desde a ciência (terraplanismo, terracentrismo), passando pela moral (controle da natalidade pela abstinência, cura gay) até a política (marxismo cultural, governos Lula e FHC socialistas). São delírios diferentes, em termos de conteúdos, do pensamento médio dos nazistas e fascistas na Alemanha e Itália da década de 1930, mas equivalentes em “grau de loucura”.

Mas a irracionalidade do Governo bolsonarista se revela mesmo quanto a suas finalidades. Delírios coletivos podem ser instrumentalizados para projetos de poder com alguma racionalidade, como é o caso do Irã dos aiatolás e do macarthismo norte-americano na segunda metade do século XX. No fascismo, porém, não há nenhum projeto de poder nem instrumentalização dos delírios da sociedade. Pelo contrário, são os delírios que instrumentalizam o poder, que passa a ser guiado pelo desejo de destruição da coletividade fascista capitaneada por seu líder.

Se a Alemanha nazista era racional econômica e administrativamente e o governo Bolsonaro é ineficiente nestes aspectos, ambos são igualmente irracionais em sua finalidade, marcada pela ausência de rumos e finalidades minimamente racionais, pois não há nem mesmo de uma racionalidade tirânica de poder, que visaria a constituição de um regime totalitário de longo prazo. São iguais também em sua opção pelo conflito permanente, criando e provocando constantemente inimigos internos, externos e entre seus próprios aliados, esquecendo-se das lições mais básicas da racionalidade do poder ensinadas por Maquiavel, que recomenda o uso parcimonioso e direcionado da “maldade” e do conflito. Sempre que possível, o príncipe deve privilegiar a consolidação da confiança, da lealdade e das alianças para manutenção dum reinado próspero e longevo.

Com a exceção dos bolsonarisas e lavajatistas, ou seja, da massa fascista que hoje talvez seja a maioria da população brasileira, quem duvida que depois do Governo Bolsonaro, que ainda pode se reeleger ou ser sucedido por outro fascista como Sérgio Moro, o país estará em ruína absoluta? Que não restará pedra sobre pedra? Até mesmo a inação das pessoas ante a adoção de um neoliberalismo extremo, em desuso no resto do mundo e francamente contra os interesses nacionais e prejudiciais às classes populares e médias, cuja irracionalidade já foi demonstrada pela história recente, pode ser creditada ao estado de delírio coletivo em que boa parte da população se encontra.

As elites nacionais se aliam ao capital internacional, aproveitam-se da inação popular e promovem a rapina, pensando estar instrumentalizado o bolsonarismo, mas a quase certa situação de ruínas em que o país será deixado pela adoção de um neoliberalismo fora de época e lugar, num mundo em que as nações tentam proteger desesperadamente sua economia nacional, pode muito bem inviabilizar boa parte de seus negócios.

 

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