O fenótipo estendido, por Gustavo Gollo

Os vírus são criaturas inertes, minúsculos cristais, realmente pequeníssimos. Os vírus não fazem nada, são realmente inertes, como pedras; são, de fato, cristais.

O fenótipo estendido, por Gustavo Gollo

Um modelo simples para o vírus

Nos dias de hoje, todos já ouvimos falar de vírus, embora tenhamos uma noção extrema vaga do que sejam tais criaturas causadoras da gripe, da AIDS e de outras doenças.

Os vírus são criaturas inertes, minúsculos cristais, realmente pequeníssimos. Os vírus não fazem nada, são realmente inertes, como pedras; são, de fato, cristais.

As informações acima parecem não se encaixar uma na outra: como pode um cristal inerte causar doenças contagiosas capazes de se espalhar de pessoa a pessoa?

Um modelo simples esclarece essa questão.

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Um vírus pode ser entendido através da seguinte analogia.

Imagine um envelope contendo uma folha de papel com a seguinte inscrição:

PRODUZA A PROTEÍNA X
(receita para a produção de X)
COPIE ESSA MENSAGEM
RECOMECE AS INSTRUÇÕES ANTERIORES

Ao chegar no lugar certo (ou errado, conforme o ponto de vista), no entanto, como em um laboratório que produza proteínas, a mensagem pode ser lida, executada e copiada diversas vezes, conforme as instruções nela contida.

As múltiplas cópias assim geradas podem também chegar ao lugar certo (errado) passando a ser, elas também, multiplicadas. Desse modo, após certo tempo, o laboratório estaria abarrotado de tais cópias e toda a sua atividade passaria a se dirigir à produção das cópias do papel e da proteína nele descrita.

O modelo acima descreve, em linhas gerais, o que acontece com uma célula infectada pelo vírus na qual, do mesmo modo que no modelo acima, o vírus permanece inerte como a folha de papel.

Agora imagine que a tal proteína cuja receita se encontra na mensagem cause um aumento na quantidade de líquido nos pulmões da pessoa infectada pelo vírus, e que esse aumento induza-a a espirrar, disseminando, desse modo, cópias do vírus que eventualmente serão inaladas por outras pessoas, que receberão, desse modo, cópias para a produção de cópias e, por conseguinte, serão infectadas passando em seguida a infectar outros.

A dinâmica acima descreve “a atuação” dos vírus durante as infecções e ilustra também o fenótipo estendido, um estranho modo de controle de uma criatura por outra. Perceba que no modelo acima as pessoas acabam sendo compelidas a se comportar como zumbis, incapazes de evitar os espirros que contagiam outras pessoas alastrando a infecção zumbi que obriga o infectado a espirrar.

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Desse modo, uma complexa cadeia de ações é posta em marcha sem nenhuma ação por parte do vírus, acentuando o fato de que a complexidade da trama envolve o controle das ações das pessoas, compelidas a espirrar “com o propósito de replicar o vírus”. Obviamente as pessoas/zumbis quando espirram não têm esse propósito, mas agem exatamente como se estivessem sendo controladas pela criatura inerte, com o propósito de replicá-la.

Essa ideia, denominada “fenótipo estendido”, foi inventada pelo genial biólogo Richard Dawkins.

Surpreendentemente, ao menos à primeira vista, fenômenos desse tipo, no qual um parasita “controla” seu hospedeiro “compelindo-o a realizar ações com o propósito de replicá-lo” – o parasita –, são extremamente comuns. De outro modo, seria raríssima a utilização de “vetores” externos de transmissão, como mosquitos, por exemplo, que funcionam como veículos para a transmissão de parasitas de um indivíduo hospedeiro para outro. Tente imaginar, por exemplo, como uma dessas criaturas cuja infecção é transmitida por mosquitos “compram suas passagens para o voo” e perceberá a maravilha de tudo isso. (“Compram passagens”, acima, é obviamente uma metáfora).

Uma hiperextensão do conceito

Dawkins construiu sua ideia estendendo o conceito de fenótipo – a manifestação real das instruções inscritas no genoma –, que, sob sua interpretação, acaba sendo explicitada em uma outra criatura que não a portadora do gene em questão, trazendo-nos à mente a imagem de zumbis.

Embora à primeira vista essa dinâmica nos surpreenda, trata-se de uma decorrência bastante direta da seleção natural, que não teria porque se preocupar em resumir relações causais ao interior de indivíduos únicos (convém que metáforas úteis sejam exploradas).

Incitado por costume amplamente louvado entre os matemáticos, tratei de generalizar ainda mais o conceito formulado por Dawkins, hiperestendendo-o para abarcar relações decorrentes da interferência de criaturas que nem ao menos possuem um genoma, como os artefatos. Imbuído de tal espírito, propus o ‘Fenótipo Hiperestendido’, que tratarei de ilustrar.

O cigarro

Encontramo-nos no mundo, atualmente, rodeados por artefatos. Olhe em torno e perceba a intensidade desse fato. Note que todos eles, de um modo ou outro, andam se reproduzindo em profusão, ou não haveria tantos deles por aí.

Considere agora o cigarro. Quase todas as pessoas têm plena convicção de que os cigarros causam fortes males, entre eles o câncer de pulmão, doença cruel.

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Alguns dizem encontrar certo prazer em fumar. Afirmo sem medo de errar, no entanto, que a quase totalidade dos cigarros que fumam é consumida sem a menor atenção, de modo automático, sem que o fumante se dê conta, de fato, de estar fumando, fazendo-o de maneira inconsciente.

Por que motivo tantos repetem tantas vezes um hábito tão fora de propósito? Por que o fazem mesmo quando o dinheiro é curto e conhecendo os males do ato? Por que o fazem mesmo quando fortemente decididos a interromper o hábito já reconhecidamente prejudicial a si mesmos. Por que tantos decidem parar de fumar, se empenham dolorosamente nisso, mas, mesmo assim, veem-se compelidos a acender mais um cigarro, e outro e outro… ?

O hábito de fumar, assim como outras tantas formas de consumo de artefatos, põe em marcha uma ampla cadeia de ações resultantes na replicação do artefato em questão, no caso, o cigarro. A compra do cigarro desfalca o estoque do vendedor que então comanda sua reposição, induzindo assim a produção de mais daquilo, pondo em marcha a complexa cadeia de replicadores em competição uns com outros de modo exatamente análogo ao que ocorre entre os seres vivos, povoando nosso mundo com inúmeras cópias dos replicadores mais hábeis na capacidade que os define: a de replicação.

O mundo é como o vemos porque os antepassados das criaturas em torno revelaram-se mais aptas para a replicação que as outras existentes outrora, tendo sido essa a razão para que o mundo tenha adquirido as feições atuais.

Uma digressão oportuna

Constituímos atualmente a sociedade de consumo e produção de lixo, razão pela qual temos transformado nosso planeta em uma gigantesca lixeira.

O mundo era belo. Poucos espaços remanescentes revelam ainda hoje certa beleza remanescente de outros tempos, de forma ainda pouco alterada. Espaços artificiais, frutos do urbanismo, podem ser belos apenas em comparação uns com outros, podendo ser dito, creio, que uns sejam aceitáveis, outros mais horrendos.

A beleza é uma invenção nossa. Achamos belos os espaços que convinham a nossos antepassados, aqueles que favoreceram sua replicação, permitindo que sobrevivessem e criassem seus filhos. Ambientes feios compeliam nossos antepassados a trocá-los por outros mais agradáveis. Pessoas de mau gosto, quero dizer, aquelas cujas afeições se dirigiam a ambientes pouco apropriados, deixavam menos descendentes, em média, que as pessoas de bom gosto, as capazes de escolher bons ambientes.

A transformação de nosso mundo em lixeira inviabilizará nossa sobrevivência.

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Por que somos tão absurdos?

Nossos meios de comunicação defendem um sistema econômico suicida que nos levará a um ponto sem volta. A economia, e toda a produção de artefatos, precisa crescer continuamente, ou o sistema entrará em colapso. Por essa razão precisamos consumir mais e mais a cada dia (“consumir” significa transformar algo em lixo).

Hm?!

Sim, é assim. Somos completamente absurdos e estamos conduzindo nosso mundo para uma enorme catástrofe enquanto os loucos que nos guiam têm plena consciência de tal fato.

Porque somos tão absurdos?

Esse contrassenso descomunal pode ser compreendido de maneira análoga à dos fumantes.

Ambos, fumantes e sociedade de produção de lixo, encontram-se parasitados. Os primeiros por cigarros, os outros por toda a profusão de artefatos que criamos. Os cigarros compelem os fumantes a fumá-los de modo inconsciente, e a sempre repô-los, comprando mais deles. Do mesmo modo, todos os artefatos vão competindo pela replicação compelindo-nos a consumi-los e replicá-los, eventualmente diversificando suas linhagens, criando variações que não só se perpetuam mas se diversificam ampliando a complexidade de todo o ecossistema artefatual e povoando o planeta com o lixo resultante de seu consumo.

Encontramo-nos, todos, parasitados por tais seres que hoje nos acercam de um modo que nos parece mais natural a nossos olhos que as miríades de criaturas que compõem nossa flora intestinal.

Parasitados, como zumbis, temos vivido sob o controle de tais seres, empenhando nossas vidas na multiplicação e diversificação de tais criaturas.

Explica-se, desse modo, o gigantesco contrassenso que tem guiado nossas vidas, definido virtualmente todas as nossas escolhas, tanto individuais quanto as de toda a sociedade.

Temos agido como zumbis, enquanto nossa loucura social suicida é fruto da infecção causada pelos artefatos, imbuídos do propósito fundamental de todos os replicadores: a própria replicação.

O parasitismo é a causa de nossa loucura.

Leia também:

https://jornalggn.com.br/opiniao/ecologia-do-poder-ii/

https://jornalggn.com.br/blog/gustavo-gollo/ecologia-do-poder/

https://jornalggn.com.br/artigos/o-grande-momento-da-historia/

Gustavo Gollo é multicientista, multartista, filósofo e profeta

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