O furo e o demônio do pudor, por Ana Laura Prates  

Há uma série complexa de sobreposições misóginas nas mentiras do senhor Hans, que o despudor de Jair Bolsonaro escancara ao nomear de furo o órgão sexual da mulher.

O furo e o demônio do pudor

por Ana Laura Prates  

Estamos vivendo um período muito delicado, no qual o véu do pudor caiu, desvelando o que há de mais obsceno em nossos laços sociais, e de modo cada vez mais explícito. O que poderíamos ouvir nas entrelinhas desses excessos que nos horrorizam? Que tática seria necessária para interpretar esse momento, possibilitando a retomada do movimento do desejo como tratamento para essa angústia paralisante? Essa tem sido minha aposta, enquanto psicanalista e é desse lugar que arriscarei escrever a respeito de mais um episódio nefasto ocorrido nessa semana. Refiro-me ao comentário do Presidente Jair Bolsonaro ao episódio envolvendo a Jornalista Patrícia Campos Mello: “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”.

Em Pompeia, cidade romana destruída pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. foram encontrados afrescos de 60 a.C., muito bem preservados, na chamada Villa dei Misteri (Vila dos Mistérios). Esses afrescos mostram as várias etapas da iniciação de uma jovem mulher nos cultos dionisíacos. Um desses afrescos revela um Falo –  imagem de um pênis ereto enorme representando a fertilidade – que era oferecido a Dionísio. O Falo é desvelado por Aidos, o demônio do pudor. Em um canto da pintura, aparece uma mulher aterrorizada. Lacan interessa-se especialmente por esse afresco, que revela através da arte, algo muito caro à psicanálise desde Freud: a relação entre o símbolo fálico e o vazio. O pudor, de modo diverso da vergonha que o moraliza, é da ordem de um limite que não pode ser ultrapassado sem graves consequências. O próprio Falo – que não pode ser reduzido ao órgão masculino – não se revela a não ser a partir de um véu, pois a verdade é que, por detrás do véu, não há nada a ser revelado. Trata-se apenas de uma imagem sustentada justamente para nos iludir, e nos impedir de entrar em contato com a radical falta de sentido que nos constitui. Daí se deduz a lição que nos é dada constantemente pelos garotos ginasiais de 12 anos, em suas piadas sem graça: o sentido é sempre sexual.

Na psicanálise, ao contrário do que se imagina, não cultuamos o sentido sexual, mas utilizamos sua graça, ou a falta dela, para levar nossos analisantes a se depararem com o vazio incontornável que, entretanto, é o que nos torna seres criativos e inventivos. Em uma palavra: seres de desejo. A isso chamamos de castração. Aceitar a castração é um processo difícil, mas fundamental para viver de um modo menos inibido, angustiado, agressivo, dolorido, violento, preso, rígido e triste. A castração, portanto, é nosso bem maior. Entretanto, a maioria de nós foge dela como o diabo da cruz! E passamos a vida fingindo nada saber a respeito da dialética entre a falta e o falo, e nos fazendo de desentendidos sobre a verdade de que não há potência, nem sexual nem criativa, que não passe pelo vazio e pelo reconhecimento da diferença. Na psicanálise, chamamos isso de furo!

O terror diante da castração foi descrito por Freud através de outro mito: o da Medusa, monstro mulher que petrifica os homens pelo olhar, e que Perseu consegue matar, usando um escudo de bronze que faz a função de espelho, para desviar-se de seu olhar, ou melhor, fazendo com que ela mesma o encare. O helenista Vernant descreve o fascínio e o terror provocados por Medusa como o medo em estado puro, medo do aniquilamento provocado pelo excesso de luz que cega. Voltamos ao tema daquilo que, por estrutura, não pode ser visto, aquilo que não tem imagem nem representação.

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Os mitos, a arte e a psicanálise nos ensinam que, para nos aproximarmos da morte, do vazio e do que há de inominável no sexo – seus mistérios e sua maldição – precisamos do artifício do pudor, precisamos do que chamamos de semblante, sem o qual caímos, na angústia, no pavor, na petrificação. Há aqueles, entretanto, que têm a ilusão de burlar o pudor com a obscenidade. Aqui, resgato “obsceno” não no sentido moral, mas para dizer do que está fora da cena, do que fere o pudor. São os que falam o que não se pode dizer, trazendo à tona uma suposta verdade escondida atrás do véu. Eles, perversamente, fazem crer aos mais desavisados, que realmente existe “algo a mais” quando cai o véu do pudor e que, mais ainda, eles o dominam. Como impostores, se autoproclamam os mestres do furo! No lugar de Aidos, colocam Deus, a moral, os bons costumes, a censura, a violência. E como consequência, o horror à mulher.

O corpo da mulher encarnou, ao longo da história, o lugar do horror à castração e ao furo. Para além de questões anatômicas, um corpo de mulher, mesmo que trans-formado – por ser aquele que resiste a ser de todo colonizado pela impostura fálica –, sempre exerceu fascínio, temor, e por isso mesmo, foi alvo de violência. Um sintoma muito interessante desse terror estrutural é o fato de que a queima de corpos de mulheres na fogueira, embora tenha durado séculos, encontrou seu auge, paradoxalmente, nos séculos XV e XVI, transição do mundo Medieval para o mundo Moderno. Em 1484 foi publicado pela Igreja Católica o chamado “Malleus Maleficarum” ou “Martelo das Bruxas” que afirmava serem as mulheres “naturalmente” mais propensas à bruxaria. Muitos historiadores apontam para o fato de que as mulheres, com sua sabedoria popular e conhecimentos sobre a cura das doenças, partos, etc., tornaram-se uma ameaça para a nova ordem médica em ascenção.  

Que tipo de ameaça as mulheres estariam encarnando no Brasil de hoje? Jair Bolsonaro, ocupando o cargo de Deputado Federal, já havia dito que a Deputada Federal Maria do Rosário não merecia ser estuprada. Jair Bolsonaro, ocupando o cargo de Deputado Federal, já havia dedicado seu voto em favor do impeachment da Presidenta Dilma Roussef ao torturador Brilhante Ustra. Jair Bolsonaro já havia se referido à sua própria filha como uma faquejada. Essa semana, Jair Bolsonaro, atualmente ocupando o cargo de Presidente do Brasil, disse a respeito da jornalista Patrícia Campos Mello: “Ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”. Ele reafirmava em tom sarcástico, e ensaiando um duplo sentido ginasial, as mentiras  ditas pelo senhor Hans River em seu depoimento na CPMI das fake news, quando afirmou que Patrícia havia proposto trocar informações por favores sexuais. Hans é ex funcionário da empresa Yacows, que fazia parte de uma rede de notícias falsas durante a campanha eleitoral de 2018, a qual foi revelada por uma reportagem assinada por Patrícia, uma competente e experiente jornalista, premiada internacionalmente.

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É gravíssimo que um Presidente da República venha a público reafirmar mentiras notórias e que foram desmentidas através de várias provas documentais, sobretudo se levarmos em conta que, além de calúnia e difamação, o senhor Hans cometeu crime de falso testemunho. Há, entretanto, algo notável nessas mentiras e ofensas. Esses homens não questionaram a competência profissional da jornalista, não difamaram sua carreira, tampouco levantaram suspeita em relação ao veículo no qual trabalha. Eles tentaram desacreditá-la pela sexualidade, e pelo fato de ser mulher. Há uma série complexa de sobreposições misóginas nas mentiras do senhor Hans, que o despudor de Jair Bolsonaro escancara ao nomear de furo o órgão sexual da mulher. Como na época da caça às bruxas, o poder feminino em diversas instâncias sofre um processo de redução a um poder sexual, localizado em seu corpo, em sua aparência, e no próprio fato de ser mulher. Paradoxalmente, ela conseguiria tudo o que quer a partir do poder de seu furo, fazendo dos homens pobres meninos indefesos. Diante disso, só há uma solução: neutralizar essas bruxas. Domá-las, calá-las, confiná-las à loucura e aos asilos ou queimá-las em praça pública.

Ao trazer à cena pública a anatomia da mulher nomeada de furo, Jair Bolsonaro revela seu pavor ao feminino e a seu poder, que vai muito além – embora inclua, porque não? – o sexual. Sua falta de pudor revela seu medo da morte que, paradoxalmente, o mortifica; sua petrificação fria e odiosa, seu apego ao abjeto, ao escatológico e violento. Como bem disse Chico Buarque, “filha do medo, a raiva é mãe da covardia”. Eu substituiria raiva por ódio. O ódio é filho do medo e pai da covardia. O que ele jamais saberá, é que ninguém detém o furo. O furo não é um objeto de troca, e tampouco está à venda no mercado. É por isso que Lacan afirma que amar é dar o que não se tem. Nessa perspectiva, o verdadeiro furo está sempre velado, querendo ou não o senhor Presidente. Que Aidos o faça sentir as consequências de sua falta de pudor!

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3 comentários

  1. Clap clap clapíssimo ! Parece-me não ter havido repercussão mas dias antes do destempero do “presidente” um “procurador” do RGS contou a mesma piada. Dúvida minha: Será que o medo que esses “ginasianos” têm das “bruxas” e da morte não é provocado por portarem falo pequeno ?

  2. Ja leu Mandeville? FODA SEU PROXIMO
    Uma História Subterrânea do Capitalismo
    Dany-Robert Dufour
    Atos do Sul, 2019
    O capitalismo é obra de um demônio, um homem do diabo. Bernard de Mandeville, a quem seus detratores apelidaram de Man Devil muito cedo, é um dos teóricos mais poderosos, e, portanto, o mais reprimido. O capitalismo, dany-Robert Dufour argumenta, saiu armado e revestido com o cérebro deste gênio do mal, como Atena, a guerreira decorrente do crânio de seu pai. Kiss Your Neighbor oferece uma leitura fina e afiada de um texto pouco conhecido por Mandeville, que, no entanto, estabelece os marcos econômicos e psíquicos do capitalismo com uma acuidade e sinceridade insuperáveis.

    Dany-Robert Dufour, filósofo de seu estado, produziu por muitos anos uma crítica muito original ao liberalismo e ao capitalismo. Ele não procura, como um Marx moderno, desmantelar os mecanismos econômicos do capital; não pretende desmistificar os mitos antropológicos nos quais é construído; nem ele tenta criticar o futuro do homem hipermoderno; nem tenta desmascarar os ídolos liberais do discurso dominante; não apenas lambast os excessos do ultracapitalismo; não produz uma análise social de seus atos… Digamos que ele faça tudo isso de uma vez a partir de um ângulo de ataque que condensa um pouco todas essas perspectivas: economia psíquica e libidinal. O que Dufour mostra de livro em livro é a base psíquica e impulsiva do liberalismo. Em Baise, seu vizinho, ele volta para a fonte, por assim dizer: Bernard de Mandeville, o psiquiatra e filósofo inglês do final do século XVII e início do século XVIII. A Fábula das Abelhas é geralmente conhecida, um texto que estabelece o quintessencial dogma liberal: “vícios privados fazem virtudes públicas”. No entanto, um texto ainda mais sulfuroso permaneceu nas sombras: a Pesquisa sobre a Origem da Virtude Moral, de 1714.

    Basta dizer agora que o escopo de Fuck Your Neighbor é potencialmente muito grande. Permite-nos reconsiderar a história do liberalismo a novas custas, mas também, e este é o segundo grande eixo deste livro de Dufour, a história da psicanálise e do inconsciente. Mas não vamos muito rápido. Como foi dito, Fuck Your Neighbor é uma análise detalhada de pesquisas sobre a origem da virtude moral, pesquisas que, em retrospectiva, lançam luz e estendem os outros (eu) textos conhecidos de Mandeville. Dufour é um dos especialistas franceses deste pensador inglês, de quem ele já havia relançado e apresentado com detalhes contundentes de outros textos, incluindo a Fábula das Abelhas. Este livro é, para Dufour, de certa forma a cereja do bolo demoníaco. A tese subversiva de Mandeville? “O destino do mundo deve ser confiado aos pervertidos.” (p.40) Em outras palavras, uma nova política baseada na libertação de impulsos, de todos os impulsos.

    A humanidade, diz Mandeville, está dividida em dois: por um lado, há vilões que se recusam a renunciar aos seus desejos e impulsos; por outro, a enorme coorte de pessoas honestas que aceitam frustração libidinal e repressão. No meio, uma terceira classe de homens muito poucos, o pior dos homens (71) que fingem desistir de seus desejos de enganar melhor todos os outros,, tubarões, demônios cínicos e mentirosos. Cabe a eles liderar o mundo. Pois, e este é o escândalo, “o bem vem do mal.” Da crueldade, da perversidade, da hipocrisia de poucos, do enriquecimento monetário e da satisfação de seus desejos culpados, da harmonia e do bem comum. A radicalidade de Mandeville, pela qual ele será rejeitado por seus contemporâneos e envergonhado pela história, é conferir uma dimensão política essencial ao impulso e ao desejo. Baseado na corrupção da alma humana, sua capacidade de negar e negar, sua propensão a preferir ficção sobre a realidade, seu apetite por reconhecimento e seu desejo de encontrar refúgio no phantasm, Bernard de Mandeville partiu política e uma nova economia. Libertando impulsos e ganhando dinheiro o objeto de todos os desejos: o coquetel do capitalismo. Mandeville, um liberal diabólico. Eu não te disse que este pequeno texto de Mandeville era mais perturbador a psicanálise? Eis o motivo. Bernard de Mandeville descobre nada menos do que o inconsciente no início do século XVIII, quase duzentos anos antes de Freud! Um inconsciente povoado por impulsos conturbados confrontados com a repressão social e, portanto, o ressarcimento. Isso não é tudo, o inglês desenvolve o básico do que se tornará a cura psicanalítica, defendendo deixar os pacientes falarem, em vez dos cissteres e outras sangrias que fizeram a lei na medicina na época. Mas Mandeville ultrapassa Freud em certos pontos, em particular, e Dufour insiste longamente na questão da perversão. Perversão é a prerrogativa da classe de pessoas astutas levou a liderar os homens no final de seus impulsos. A perversão é a característica psicológica dos grandes capitalistas de hoje e sem o qual o liberalismo nunca havia se desenvolvido. Na verdade, a genialidade de Mandeville não é apenas descobrir o inconsciente psíquico, tirar dele perspectivas terapêuticas individuais, mas sobretudo para creditá-lo com uma extensão política que ele queria emancipar. “Mandeville fez a si mesmo uma pergunta que Freud nunca quis ouvir falar. Pode-se dizer assim: por que, se os pacientes podem ser liberados individualmente, não poderíamos considerar liberá-los coletivamente? »(67)

    Dufour oferece um livro emocionante, com seu tom habitual cheio de sagacidade e humor. Kiss Your Neighbor assume o problema da relação entre capitalismo e economia psíquica enriquecendo-o, expandindo-o e revelando uma de suas fontes mais vívidas – O Diabo do Homem. Dufour confronta este pequeno texto de Mandeville, do qual propõe uma tradução inédita, com grandes figuras de psicanálise – Freud e Lacan – para revelar seu escopo completo. Mas esta pesquisa histórica não esquece o presente. Dufour mostra como o programa de Bernard de Mandeville é mais atual do que nunca e como o capitalismo financeiro é “maníaco” além das expectativas do inglês. Isso faz com que os limites apareçam, além de becos sem saída. Para além da inegável audácia teórica, Mandeville propôs há três séculos uma ideia que mergulharia o mundo em uma corrida irrefrevenem em direção ao seu próprio destruction.

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