O genocídio é semântico, o mais desumano de todos, por Gustavo Conde

Para os guardiões da gramática normativa, a língua humana é macha, branca, defensora da propriedade e anda armada.

Imagem: Paul Klee, "Polifonia de três sujeitos", 1931.

O genocídio é semântico, o mais desumano de todos, por Gustavo Conde

O genocídio é semântico, o mais desumano de todos

Por Gustavo Conde

Eis que brota de maneira fulminante o desejo de mergulhar mais uma vez na engrenagem semântica que gira a moenda do nosso mundo simbólico, precarizado, é verdade, depois da banalização do sentido via milícias digitais e da ascensão do fascismo (cujo interesse principal é promover o genocídio dos processos naturais de significação).

Faço a advertência porque o que seguirá não é um texto de comentário político (ainda que sua conclusão descambe para tal), mas quase um paper científico de linguística, gênero que faz parte de minha economia mental.

Só mesmo um pequeno período de “recesso” (minhas gloriosas férias) para me resgatar do ‘sufocamento’ dos textos políticos e me devolver o tesão pela formulação teórica.

Sentido vai, sentido vem, minha questão nesse ‘mundo de Deus’ é realmente a linguagem. Imenso respeito – e eterna perplexidade – por ela.

O mundo da linguagem e das engrenagens do sentido não é apenas infinito: é mais do que isso. São sobreposições de infinito. As discussões sobre o Big Bang são ‘troco de pinga’ perto do que possibilita o mergulho na língua humana (até porque as discussões sobre o Big Bang são feitas em língua humana).

Dito isso, desculpo-me com os astrofísicos e compartilho uma despretensiosa descoberta chã: a “polifonia irônica”.

Provavelmente alguém já falou sobre isso (bakthinianos à frente), mas permitam-me alimentar a ilusão passageira de que eu descobri alguma sutileza no planeta da Polifonia.

Se essa moda pegar (cá com meus botões acadêmicos semi adormecidos), se o país permitir e se minha neurose aceitar, talvez encontrar-nos-emos nessa ‘esquina da formulação’ mais vezes, ao longo de 2020 e, por que não, 2019 – já que esse ingrato ano ainda não acabou.

O que seria, afinal, a “polifonia irônica”?

A primeira premissa obrigatória é: toda ironia é polifônica. Isso é quase um axioma porque a ironia pressupõe ao menos duas vozes em ação (portanto, é sempre ‘polifônica’).

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Mas a segunda premissa é menos óbvia: nem toda a polifonia é irônica. Isso porque múltiplas vozes em ação não discorrem sobre metalinguagem obrigatoriamente – e a metalinguagem é premissa básica para o funcionamento da ironia.

O que seria, então, a polifonia irônica? Permitam-me ser taxativo: ‘polifonia irônica’ é quando você ‘concorda’ consigo mesmo mas para autodepreciar seu argumento (cuja consistência ainda não “convenceu”).

Ex.: “Governos de esquerda são muito bonzinhos. Faz sentido”.

A frase “faz sentido” cria distância argumentativa do enunciado anterior, pois ao subscrever o que se acaba de dizer, abre-se precedente para a existência de seu “oposto”.

Mas esse valor, esteja claro, não deriva apenas da semântica rudimentar de “faz + sentido”. É a expressão, em sua potência retórica máxima consagrada pelo ‘uso’, que faz disparar esse efeito de distanciamento irônico.

Abre-se, então, o precedente para se aplicar a lógica do pressuposto: se digo “faz sentido” para o que eu próprio estou dizendo, acabo por “cindir” o sujeito enunciador em dois, provocando o efeito polifônico.

O uso da expressão “faz sentido” (seu comportamento semântico no mundo do discurso), por sua vez, evoca cifras de ceticismo: é um “concordar não concordando”, algo que ainda “está por se comprovar”, por assim dizer.

Ora, ao dizer que o que acabo de dizer “faz sentido”, estou na verdade enfraquecendo meu próprio dizer. Mas, atenção! Não estou enfraquecendo o meu próprio dizer para destruí-lo (numa ação psicótica), mas sim para “convidar” o leitor a ponderar sobre meu dito, num gesto de estímulo ao contraditório e mais próximo do enunciado científico: “se é verdade que x, então y”.

É uma espécie de fuga ao discurso dogmático, ainda que resista uma vocalização impregnada de persuasão (e de sedução: eu quero ‘ganhar’ o leitor mais atento a minha sutileza argumentativa (à forma), agora falsamente autodepreciativa – ao mesmo tempo em que quero ‘afastar’ os leitores “convencionais”).

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A escrita é sempre uma experiência de “violência”, como sugeriu Foucault sobre o discurso. Nós violentamos o leitor que, por sua vez, nos violenta com sua fuga irresistível (porque provedora de identidade) ao afunilamento de sentidos inerente à manifestação do texto.

‘Violência’ no sentido de “domar”, de forçar a aproximação conflituosa das duas instâncias subjetivas que operam na combustão do sentido: a dimensão eu-tu.

A polêmica polifônica de si no discurso do “um”, na língua em movimento da vida real, está longe de ser algum tipo de novidade – ainda que seu rastreamento esteja limitado às amarras das pulsões heteronormativas existentes na domesticação institucional da língua humana.

Para os guardiões da gramática normativa, a língua humana é macha, branca, defensora da propriedade e anda armada.

É por isso que de onde menos se espera, realmente não sai nada mesmo: prescritivistas, procuradores lavatistas e bolsonaristas são, a rigor, oriundos da mesma matriz semântica: o controle do mundo pela régua de si. São antipolifônicos, anticientíficos, destituídos de competência retórica, sôfregos na arte do contraditório, dogmáticos, plagiários, desinformados.

A língua sofre nas mãos desta ralé intelectual. São agentes que promovem a conservação da mediocridade, a perpetuação do erro e a insistência na catástrofe do discurso único, uma verdadeira doença em tempos de explosão dos sentidos, das leituras de mundo e das formas potenciais do texto.

Talvez seja este o desafio: para combater essa força anti-intelectual que promove a aniquilação dos sentidos e o genocídio dos povos é preciso mais que o discurso organizado em seus parâmetros seculares, normativos, pequeno-burgueses.

É preciso a polifonia, a ironia consequente, a materialização do discurso popular em cuja potência reside as soluções coletivas genuínas para um re-equilíbrio de forças.

O deboche de si (outro nome menos eufêmico para a ‘polifonia irônica’) constitui força espetacular de persuasão no universo do embate simbólico-político (político porque simbólico e simbólico porque político).

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Destaque-se: recursos como a polifonia irônica são gota no oceano na imensidão que caracteriza a atividade linguística dos seres humanos.

E isso não revela uma fraqueza, mas seu exato contrário: há uma fonte interminável de recursos técnicos prontos a serem descobertos e utilizados na arte da persuasão e do embate semântico que atualiza o processo civilizatório – longe, muito longe do lodaçal das palestras motivacionais e dos livros de autoajuda que só servem aos seus gurus da mediocridade.

O jogo jogado é obrigatoriamente no campo da linguagem e é preciso explorar essa dimensão num patamar de paixão à altura do desafio. Em outras palavras: a revolução antifascista se apresenta como uma revolução do discurso, do repúdio a formas “feitas e aprovadas”, da trepidação sintática, da disrupção gramatical de gênero, dos novos esquemas táticos anafóricos, das triangulações sujeito-história-discurso, do manejo corajoso e libertário na cadeia significante e da pulsão artística elevada ao seu grau máximo.

Fascistas são eficientes no manejo rudimentar da linguagem. Mas eles não têm “mobilidade” simbólica suficiente para promover grandes deslocamentos de discurso ou para reagir a uma investida potente, que estilhace seus pilares unívocos de relação com sentidos precários revestidos de ódio.

Reformulando o desafio: é preciso usar a ciência da linguagem para dar início ao processo de realinhamento da engrenagem política nas democracias de turno. É preciso re-significar ‘democracia’ (ou restaurar algo que sobrou de seu sentido “anterior”).

A mosca-azul do conhecimento, caras pálidas, foi esmagada pelo chinelo verde-amarelo do fascismo. Que se retome a cultura de sonhar com um futuro e não a náusea reprimida de se refestelar com pesadelos do passado.

Faz sentido?

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