O labirinto da linguagem nos empurra para a redescoberta do humano, por Gustavo Conde

O momento agora é de esmagamento, de aniquilação do humano em toda a sua estrutura mais delicada e sutil: a própria linguagem. 

O labirinto da linguagem nos empurra para a redescoberta do humano

por Gustavo Conde

em seu blog

O mundo passa por seu colapso simbólico mais dramático. A massificação na produção do sentido social via redes digitais precipitou uma hiper reorganização nos processos de significação e interpretação. O impacto dessa ‘remexida’ na linguagem na experiência de ler o mundo é colossal.

Há processos agônicos em curso, como a literalização excessiva do enunciado e seu respectivo contrário: a metaforização exacerbada. Parafraseando Hobsbawm, é a era dos extremos, mas dos extremos linguísticos. Esses extremos permitem a emergência da ideia de pós-verdade, no fundo, mais um simulacro da desorganização semântica que pressiona as interpretações bem comportadas.

O processo de reacomodação histórica da linguagem e da subjetividade é labiríntico. Sua própria leitura técnica é afetada pela dominância de uma linguagem em colapso. O exercício de metalinguagem se torna mais difícil, exige mais ousadia e, ao mesmo tempo, responsabilidade ética.

Essa ‘entropia linguística’ responde, tragicamente, pelo reaparecimento do fascismo e todo o seu aparato de esmagamento do sentido e do humano.


Para se reacomodar em novos parâmetros, a linguagem – em toda a sua complexidade histórica composta por memórias, fragmentos, traumas, narrativas e repetições – acaba por permitir a emergência de seu pesadelo máximo: a aniquilação do sentido via dessubjetivação, na ânsia das polarizações ideológicas (lembrando que a ideologia, nos termos de Althusser, é o que possibilita uma língua pública – ou de uma língua social, permeada por sentidos consolidados no tempo e nas instituições).

O fascismo não quer apenas aniquilar pessoas de carne e osso: quer aniquilar a linguagem, a possibilidade mesma de enunciar, a mera palavra. É falso dizer que o fascismo trava uma disputa narrativa com a civilização. Se houvesse disputa, estaríamos na experiência histórica pré redes sociais, em que o contraditório subsidiava mudanças de visão de mundo e licenciava a existência de um debate.

O momento agora é de esmagamento, de aniquilação do humano em toda a sua estrutura mais delicada e sutil: a própria linguagem.

Este momento, no entanto, é um corolário da reorganização massiva de toda a nossa atividade linguageira, que se projeta nos dispositivos eletrônicos e retorna para nossas práticas de subjetivação. O celular, o WhatsApp, o Twitter e todo o processo de enunciação que ali se desenrola de maneira coletiva fazem parte da nova economia psíquica imposta pelas contingências históricas.

Nesse contexto, o gesto ficcional se estilhaça e se fortalece, com um infinito ainda mais amplo – sic – do que aquele postulado pelas narrativas ‘individualizantes’ do passado recente. A possibilidade do romance coletivo (escrito a milhares de mãos), da combustão narrativa digital, da ressignificação dos processos de autoria (tão frágil e tão recente) passa cumprir o novo desafio de modalizar uma linguagem em colapso.

As buscas românticas por aceitação intelectual, pelo sonho joyceano de se tornar um autor espetacular e pela inocência de pertencer ao cânone para poder ostentar sorrisos inteligentes na cambaleante cobertura cultural deste tempo que se vai caem por terra diante de missão muito mais interessante que é a experiência de dialogar com a coletividade narrativa pulsante e com a linguagem em processo pleno de redescoberta.

A catástrofe da realidade presente transcrita com requintes de crueldade técnica (leia-se precariedade técnica ou acanhamento técnico) pelos escribas do relato que habitam este tempo de trevas está prestes a dar lugar a uma nova safra de leituras do mundo e do humano (e da própria linguagem).

Não consigo ver cenário mais vibrante.

Texto originalmente publicado na revista Opiniães, publicação dos alunos de Literatura Brasileira da Usp.

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3 comentários

  1. Entendi que o fascismo, por não ter história, sempre que chega ao poder procura negar ou destruir a história anterior à tomada do poder. Fascismo toma poder, não conquista.
    No Brasil tomaram das mãos dos golpitas

    Entendi também que está encontrando campo fértil nas redes sociais, nova linguagem, talvez por nelas não existirem limites para a interpretação. Milhões de pessoas interpretando e repassando fake news, por exemplo, pode criar uma nova história.

    Repare como Bolsonaro evita falar das facilidades que teve para chegar ao poder, todas, estas facilidades, criadas pelo golpe e pela Lava jato

    Milhões de pessoas pensam que foi pelo que ele é. E o que ele foi ? Nada!
    E qual é a sua história ou da sua atuação em benefício do povo, dos direitos e das garantias? Nenhuma!

    Nova linguagem, falta de limites de interpretação ou de verdades, Nova História. Tudo que o fascismo gosta, incluindo aí os milhares de cadáveres, dos quais se nutre politicamente na onda ou com o mantra do vamos trabalhar meu povo pobre.

    Posso estar completamente enganado, mas foi como entendi do texto pelo que entendo da atualidade

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