“O labirinto do silêncio” e a superação de Auschwitz, por Daniel Afonso da Silva

O labirinto do silêncio” e a superação de Auschwitz, por Daniel Afonso da Silva

Günter Grass (1927-2015) vai sempre suscitar saudade. O anúncio de sua morte no último 13 de abril de 2015 causou imensa comoção. Gerações juvenis invadiram livrarias em busca de seus livros e livros sobre ele. Gerações maduras e anciãs abordaram conscientes. Sabiam da dimensão da tragédia da morte do pai d’O tambor. Mas também compreendem que Oskar jamais lhes deixará as entranhas.

Oskar, O tambor e Günter Grass prestaram serviços inapeláveis à Alemanha sedenta de um encontro verdadeiro consigo mesma.

70 anos após o fim da segunda guerra mundial, a chanceler Angela Merkel pode proclamar sem constrangimentos a “responsabilidade eterna” alemã sobre a Shoah. 35, 40 anos atrás isto não era necessariamente assim possível. 10, 20 anos após a morte de Hitler, o assunto ainda era absoluto tabu. O grande salto ao presente foi impulsionado pelo Processo de Auschwitz julgado em Frankfurt entre dezembro de 1963 e agosto de 1965 embalado pel’O Tambor de Günter Grass saído em 1959. Im Labyrinth des Schweigens (O labirinto do silêncio) de Giulio Ricciarelli, às margens do luto coletivo pelo desaparecimento de Grass, nos reconta em filme essa história.

Alemanha, 1933. Fritz Bauer, advogado judeu e afiliado ao partido social-democrata alemão, vai preso pela Gestapo. Por destino conseguiu o exílio em lugar da morte. Primeiro fez morada na Dinamarca. Depois na Suécia. Retornaria à Alemanha em 1949, sob os auspícios do chanceler Konrad Adenauer. Nove anos depois, em 1958, seria criada sob suas responsabilidades a agência federal de enquete sobre os crimes nazistas. Esse é o ponto de partida do enredo do filme – parte real, parte ficcional; mas no essencial digno e verdadeiro.

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Pelos idos de 1958, ninguém na Alemanha tinha interesse em remoer o passado nazista. Os mais jovens simplesmente o desconheciam. Os mais antigos se negavam a falar. Ora por sua cumplicidade diante de Auschwitz. Ora por sua dor – no caso das vítimas ou que sobreviveram ou que perderam seus próximos naquela cidade polonesa.

Mesmo entre os advogados liderados por Fritz Bauer, poucos dispunham de motivação para o assunto. “A corporação dos advogados alemães foi quase toda conivente com Hitler”, diria pelas tantas um deles.

Tudo muda quando o jornalista Thomas Gnielka denuncia à agência federal um professor primário como antigo participante da SS em Auschwitz. Nesse instante o jovem advogado Johann Radmann – saído da imaginação do italiano Giulio Ricciarelli – entra em cena.

Intrigado pela rejeição dos colegas frente à denúncia, Radmann parte para a enquete. Seu objetivo é passar a limpo a história. Para isso ele se dirige aos arquivos do período de Hitler dispostos sob a guarda norte-americana na Alemanha. O funcionário dos Estados Unidos lhe informa da existência de 600.000 documentos referentes à SS. Entre os quais 8.000 sobre Auschwitz. Sem fraquejar, Radmann engaja a avaliação dos documentos. Começa, assim, a descobrir o passado de seu país e o seu próprio – desvela que seu próprio pai tinha servido aos mandos de Hitler.

Após a localização de alguns documentos, ele passa a instar pessoas a testemunhar. No primeiro encontro com as vítimas ele entende a complexidade do dossiê. Sua perplexidade vira profunda. Um senhor, entre 50 e 60, afirma ter perdido sua família, mulher e filhos, em Auschwitz. Radmann demanda a esse homem os nomes de outras pessoas mortas nas mesmas condições. O senhor responde gentil: “mas foram mais de 2 milhões de mortos”…

Esse número causou a mais profunda indignação em Radmann. Muitos de seus amigos jamais ouviram falar de Auschwitz. Menos ainda das atrocidades praticadas por lá. Não se tinha, entre eles, a medida da catástrofe.

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Suas enquetes, a força dessa constatação, prosseguem.

Pelas tantas vira recorrente a informação das práticas de um médico. Para muitos um sádico. Um monstro. Seu chamamento: doutor Mengele.

A obsessão de Radmann passa a ser levar, porquanto, doutor Mengele a julgamento. Após muitas pesquisas, ele descobre que o mencionado tem como refúgio a América do Sul. De posse dessa informação, o ativo magistrado vai ao serviço diplomático alemão apresentar suas descobertas e exigir a interpelação e deportação médico. O responsável do ministério do exterior simplesmente o agradece da visita e promete encaminhar o processo. Instantes depois Radmann descobre, por informação de outro diplomata, que o paradeiro do doutor Mengele é do conhecimento de todos nos altos extratos da burocracia alemã. Entretanto, a família Mengele e seus amigos continuavam muito influentes na Alemanha daqueles anos. O que tornava pouco procedente avançar investida contra ele.

Parte importante do filme retrata os esforços de Radmann em trazer doutor Mengele a julgamento. Tudo em vão.

Pelos mesmos ambientes, a Mossad captura Eichmann e conduz a Jerusalém.

Mengele fugiria ao Paraguai. Depois ao Brasil.

Com fortes convicções e algumas desilusões, umas amorosas, Radmann segue seu trabalho. Consegue conduzir 22 responsáveis por Auschwitz ao tribunal de Frankfurt. O início do julgamento corresponde ao final do filme.

A Alemanha jamais seria a mesma após esse julgamento.

Radmann não necessariamente existira historicamente. Mas Fritz Bauer, sim.

O labirinto do silêncio parece um eficaz título-síntese do filme. Mas, a bem da verdade, o filme é uma ode a Fritz Bauer.

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O filme e a memória de Fritz Bauer entram em cartaz nas salas europeias em momento muito oportuno. Não simplesmente por realçar, mesmo que indiretamente, a memória da importância das contribuições de Güter Grass. Tampouco por demonstrar os avanços incontestáveis no povo alemão na superação dos traumas do nazismo. Menos ainda como forma de comemoração aos 70 do fim do inferno, no dizer de Max Hastings. O labirinto do silêncio merece ser visto como demonstração da permanente e verdadeira possibilidade de reconstituição da dignidade e da moralidade de um povo e de um país.

Que chegue logo aos cinemas brasileiros.

 

 

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

 

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1 comentário

  1. Questão de Günter…

    Vergonha das vergonhas, confundi Günter Wallraff, autor de “Cabeça de Turco” com Günter Grass, autor de “O Tambor”, que lhe deu o Prêmio Nobel de Literatura. Comentei com uma amiga, bibliotecária, que era a primeira vez que tinha lido um livro laureado com o Nobel ANTES do prêmio.  Ela arregalou os olhos e desfez minha confusão,. Com a cara ardendo de vergonha, tratei de ler o outro Günter. Mas Wallraff fez um ótimo trabalho também, contando como viviam os imigrantes turcos numa Alemanha ainda intolerante. Esse é dos anos 80.

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