O medo como arma do fascismo, por Wilson Luiz Müller

O fascismo usa o medo como um elemento central da estratégia de dominação, cuja principal função é manter o povo alienado e passivo.

O medo como arma do fascismo

por Wilson Luiz Müller

Há um debate nos setores progressistas da sociedade sobre a conveniência de serem realizadas manifestações de rua neste momento em que avança tanto a pandemia da Covid-19 quanto a escalada autoritária de Bolsonaro. Em relação à pandemia havia até agora um relativo consenso sobre a prioridade de se manter o isolamento social como método mais eficaz de conter o avanço da doença. Com base nessa premissa, as lideranças dos movimentos sociais e dos partidos políticos do campo progressista vinham evitando convocar manifestações de rua.

No último domingo, quase que espontaneamente, milhares de pessoas se organizaram para protestar nas ruas contra a escalada autoritária do governo Bolsonaro. E novas manifestações estão sendo convocadas, por lideranças dos mais diversos segmentos sociais,  para o próximo domingo. Isso está provocando alertas e até censuras por parte de intelectuais progressistas. O apelo mais eloquente para que o povo não vá às ruas foi feito pelo sociólogo Luiz Eduardo Soares no Facebook. Ele começa falando da prática da extrema-direita de usar infiltrados para gerar o caos que seria a justificativa que as Forças Armadas esperam para decretar o estado de sítio. Fala também do artigo ameaçador do general Mourão e da postura claudicante do procurador geral da república Augusto Aras admitindo a competência de intervenção das Forças Armadas em outro poder.

O diagnóstico de Soares é correto, porém incompleto. Ao usar como premissa um diagnóstico incompleto, ele conclui por uma gravidade inédita que o momento atual não possui. Senão vejamos. Desde quando Bolsonaro procura instaurar uma ditadura no país? Desde o momento em que assumiu a presidência. Desde o primeiro dia, Bolsonaro ameaça os brasileiros com repressão e medidas autoritárias. Na verdade ele defendeu a ditadura desde sempre. Em que momento Bolsonaro tinha mais chances de fazer avançar seu projeto de ditadura? Quando ele  tinha quase 70% de apoio popular, amplo apoio do Congresso, quando as instituições estavam completamente acovardadas e bolsonarizadas? Ou ele tem mais chance de conseguir dar o golpe agora, com apoio de um pouco mais de 20% de idiotas fascistoides, sem base parlamentar no congresso, num momento em que as instituições começam a se movimentar para não serem extintas, quando o povo começa espontaneamente a tomar as ruas para protestar contra o autoritarismo?

Então a questão não é saber se Bolsonaro quer dar o golpe. Isso ninguém nega. Até setores da direita hoje sabem disso e por isso se  lançam apressadamente a fazer manifestos, o que diga-se de passagem, é muito bom. Antes tarde do que nunca. Querer dar o golpe é uma coisa; ter condições favoráveis é outra bem diferente.

A parte mais questionável da manifestação de Soares diz respeito à cobrança que ele faz aos segmentos sociais que apontam para as manifestações de rua como forma de se contrapor ao projeto golpista de Bolsonaro. Textualmente ele diz o seguinte:

Enquanto isso, do lado de cá, uns e outros estão melindrados com manifestos conclamando à união pela democracia. Questionam suas intenções e origens. Não querem ser usados por adversários que buscam se redimir de erros passados. Ou seja, perderam conexão com a realidade. O fogo já começou a lamber seus pés. Despertem, cacete!Nessa conjuntura, movimentos sociais planejam manifestações para domingo. Pois aqui vai meu apelo. Companheiras e companheiros, vocês não percebem que Bolsonaro está armando uma armadilha? Vocês acham que terão condições de impedir que infiltrados promovam quebra-quebra? Não terão. Não subestimem os fascistas. A P2 fez isso outras vezes, por que não faria agora? Agitadores fascistas são profissionais da destruição. Sabem como gerar o que os bolsonaristas e a mídia chamarão “caos”, sabem como reencenar o que a mídia gosta de denominar “vandalismo”. Se vocês forem às ruas, por mais organizados que estejam, não conseguirão impedir que provocadores façam o que Bolsonaro espera desde a posse.

Quer dizer que somente agora que a ficha caiu para os setores de centro-direita, percebendo a idiotice que fizeram ao colocar Bolsonaro no poder, os setores mais à esquerda não podem criticá-los? Quer dizer que temos que nos dar por satisfeitos por essa turma ter tido a brilhante ideia de lançar um  manifesto, o que nos obrigaria a ficar de braços cruzados esperando que isso nos salve do golpe policial-militar? O próprio Soares reconhece que Bolsonaro espera uma oportunidade para dar o golpe desde a sua posse. Então todas aquelas manifestações, reunindo centenas de milhares de pessoas em defesa da educação, ou estavam equivocadas ou então Bolsonaro não soube aproveitar a oportunidade.

E por que os fascistas usariam esses conhecidos artifícios de infiltração e provocação somente agora e não doravante em todos os momentos? E enquanto eles fizerem isso, ficaremos em casa de braços cruzados?

Soares prossegue afirmando que as pessoas que forem às ruas irão propagar o vírus, além de oferecer a oportunidade que os fascistas aguardam.

Se vocês forem às ruas, e eu adoraria que fossem e eu estaria junto com vocês, em condições normais, não só vão ajudar a propagar o vírus em nossos grupos, como vão oferecer a oportunidade que os fascistas aguardam, ansiosamente, e que têm sistematicamente estimulado.

Quais seriam as condições normais que fariam Soares recomendar as manifestações de rua? Certamente não foi a intenção dele, mas quem conduz o povo a uma armadilha não é o governo Bolsonaro, pois conhecemos muito bem as suas intenções. Quem conduz o povo a uma armadilha é a conclamação feita nesses termos. Pois a visão esboçada por ele aprisiona o povo naquilo que é a essência do fascismo, o medo.

O fascismo usa o medo como um elemento central da estratégia de dominação, cuja principal função é manter o povo alienado e passivo. Por maior que seja a punção dos fascistas pela morte, a eficiência do fascismo está em gerar pânico nas pessoas. E é isso que provoca a convocação de Soares. E é exatamente isso que o governo policial-militar de Bolsonaro persegue desde a posse. Enquanto as pessoas estiverem aterrorizadas, o projeto fascista não fica estacionado. Ele avança cada vez mais. Ao invés de retornarem as “condições normais” para o povo voltar a se manifestar, aprofundam-se as condições anormais de dominação e opressão. Pelo menos é isso que a história nos mostra. Nenhum regime fascista foi detido ou derrotado com o povo em casa esperando o retorno de tempos normais.

O Brasil está há anos vivendo uma situação de anormalidade, com a corrosão progressiva das bases da democracia. Esse processo se agrava dia após dia. Nada indica que essa situação mudará somente pelas mãos da intelectualidade bem intencionada que faz excelentes reflexões acadêmicas e produz bons manifestos. A batalha, como sempre, será decidida nas ruas. É uma contingência infeliz que isso tenha que ser feito em plena pandemia. Mas é inevitável e urgente que as pessoas do povo se manifestem nas ruas, com cuidado, tomando todas as precauções sanitárias e de segurança possíveis.

O medo é o maior aliado do fascismo. Não devemos ter medo nem de criticar a idiotice, a ganância e o golpismo dos que colocaram Bolsonaro no poder, mesmo que se reconheça agora a importância de terem mudado de lado, nem ter medo de lutar nas ruas pela volta da democracia.

Fora governo fascista de Bolsonaro!

Wilson Luiz Müller – Integrante do Coletivo Auditores Fiscais pela Democracia (AFD)

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