O ministro da economia é o Coronavírus: flexibilização do isolamento, uma tragédia anunciada, por Frederico Firmo

O cidadão comum assiste a tudo e obviamente avalia segundo seus próprios anseios. Depois de um período de quarentena quem não anseia pela normalidade?

O ministro da economia é o Coronavírus: flexibilização do isolamento, uma tragédia anunciada

por Frederico Firmo

Pouco a pouco instalaram na sociedade a ideia da flexibilização e da recuperação da economia. As pressões vem de muitos lados, afinal boa parte da população se encontra abandonada. Um presidente alucinado estimula o que chama de retorno, sem perceber que não existe mais o lugar ao qual quer retornar. Comerciantes, micro empresários, empresários, trabalhadores, empregados, sub empregados iludidos pensam que num passe de mágica tudo voltará com o novo normal. A mídia questiona a flexibilização, mas passa boa parte do tempo falando da flexibilização em países que estão na fase final da epidemia. O cidadão comum assiste a tudo e obviamente avalia segundo seus próprios anseios. Depois de um período de quarentena quem não anseia pela normalidade?

O governo como em outras ocasiões excita e evoca as vontades mais superficiais, ou os mais baixos instintos. Quando fala em flexibilização não defende com argumentos mas com ataques e a truculência que lhe é peculiar. Mexendo com anseios justificáveis mas irrazoáveis vai acendendo o pavio de uma bomba de efeito retardado, ma non troppo. As consequências não demorarão a explodir. Os estudos mostram que a epidemia em todos os países tem seu desenrolar controlado pela velocidade de transmissão e pelo tamanho da população vulnerável ao contágio. No Brasil a epidemia se iniciou quando em países como Itália e Espanha a epidemia estava no auge . No gráfico em verde temos a evolução do número de casos em vários países. Os dados do Brasil seguem a curva em verde.

A curva verde mostra que no início da epidemia o número de casos no Brasil cresceu mais lentamente do que nos países mais afetados. Este crescimento mais lento poderia ser uma vantagem, dando mais tempo para medidas preventivas e para se preparar para um possível colapso no sistema de saúde. Um controle maior do tamanho da população vulnerável ao contágio nesta fase poderia ter nos levado a um achatamento da curva e um final mais rápido para a epidemia. Mas este poder de controle é limitado naturalmente, visto que temos um país diverso e muito grande. Mas dentro do possivel e do razoável o controle da população contagiável pode ser feito pelas medidas de isolamento. Nota-se que o crescimento dos casos na Italia, Espanha e Estados Unidos é inicialmente vertiginoso. Em paises como Italia e Espanha a taxa de letalidade foi enorme, bem acima da média global. E muito se falou na mídia dos erros na forma de lidar com a pandemia,e das medidas posteriores de lockdown que foram necessárias. Porém estes países apesar do início tumultuado e dos dramas causados se reorganizaram e aproximadamente dois meses após o início de suas epidemias, e com as devidas medidas de isolamento, conseguiram se aproximar de um patamar superior, isto é achataram a curva. Diga-se de passagem que o tempo para alcançar o patamar em quase todos os paises, independente das diferenças, tem durado por volta de 90 dias. Como o Brasil teve um número de casos significativos apenas na primeira quinzena de abril os 90 dias indicariam que só alcançaríamos o patamar na primeira quinzena de julho. O patamar significa que o número de contagiados para de crescer e indica o início do fim da epidemia. A Itália, em amarelo, Espanha,em vermelho e a Alemanha em azul já estão na região do patamar. Um retrato da epidemia nestes países pode ser visto abaixo.

No gráfico os pontos em azul são os números de mortes segundo os dados coletados pela John Hopkins University. A linha em vermelho é a curva do modelo Sigma, sobre o qual publiquei um post recente. Nos últimos dias modelo foi aperfeiçoado mas os detalhes deixarei para uma live. Os dados mostram claramente que Itália, Espanha, Alemanha já se encontram na região do patamar, Estados Unidos está quase no joelho, e Irã e Brasil podem estar se aproximando. Para o Brasil a aproximação é ainda uma interrogação e dependerá do que vai ocorrer nos próximos dias. Ao longo da epidemia já tivemos outras ocasiões onde os dados pareciam indicar uma aproximação, porém crescimentos nas taxas diárias de mortes e ou de casos modificaram os prognósticos.

Uma outra forma de analisar o momento de cada um dos países é o gráfico das mortes diárias abaixo. As curvas em preto e azul da Itália, Alemanha respectivamente mostram que este número já estão próximos de zero. Este é o momento propício para medidas de flexibilização do isolamento que estão sendo tomadas com cautela.

O Brasil em vermelho ainda mostra uma tendência de aumento do número de mortes, enquanto que Estados Unidos embora em declínio ainda esta distante do zero.

Neste estágio da epidemia, medidas de flexibilização do isolamento para os Estados Unidos e Brasil são arriscadas para dizer o mínimo. O gráfico em vermelho mostra que o Brasil se encontra numa fase indefinida, pois os números de hoje,não contabilizados no gráfico, 1338 mortes indicam que continua crescendo. O Brasil parece se aproximar do pico das mortes diárias mas ainda distante do patamar de achatamento. Os próximos dias serão cruciais na definição da tendência de alta ou de baixa.

Como já dito anteriormente o Brasil, ao longo da epidemia, já passou por situações que pareciam indicar a chegada no pico e a aproximação de um patamar, porém os dias subsequentes mostraram um outro desenvolvimento. Isto pode ser visto no gráfico abaixo,

Por volta de 13 de abril os dados indicavam taxas diárias de mortes declinando levemente, o que parecia indicar que o Brasil estaria próximo ao pico. Com estes dados o modelo gerava um prognóstico de 2760 mortes como números finais para a epidemia. O número máximo de mortes diárias seria dada pelo pico mais baixo na figura do lado direito. Obviamente ainda estava cedo demais e seria ilusório pensar que estes dados seriam finais. O contágio não tinha alcançado sequer as periferias das grandes cidades. O tamanho da população vulnerável ao contágio iria aumentar naturalmente com a propagação da epidemia pelo país. A análise dos dados em 6 de maio modificou o prognóstico para 12315 mortes que com aumento natural da população vulnerável fez com que os dados em 16 de maio indicassem um novo patamar de 30531 mortes. Quando se fala em aumento natural, estamos falando do aumento que ocorre mesmo com medidas de isolamento, mas que ocorre naturalmente com a propagação do contágio atingindo novas populações. Dados de 30 de maio elevaram o patamar para 45000 e nos últimos dias uma taxa de 1000 a 1400 mortes diárias nos leva ao prognóstico assustador de 56000 mortes. Importante frisar que os dados indicam que em todos estes momentos houve um aumento das taxas diárias de morte que também indicam aumento na população vulnerável. No Brasil a correlação entre mortes e número de casos tem seguindo um padrão.

Estas variações no tamanho da população vulnerável, pode se dar simplesmente pela chegada da epidemia em novos locais, mas também podem estar associadas a flexibilizações nas medidas de isolamento. Apesar de sequer sabermos se chegamos ao pico ou não prefeituras e governos começam a acabar com o isolamento aumentando de forma incontrolável a população vulnerável. O estágio da pandemia em que nos encontramos é totalmente inadequado para estas medidas. O mais trágico é que, apesar dessas medidas serem anunciadas em nome da recuperação da economia, elas podem além de elevar o número de mortos ter o efeito economico oposto

Como se vê nos gráficos de prognósticos cada salto no patamar corresponde no grafico do lado direito a uma elevação do pico de mortes diárias e também a um deslocamento do pico para mais a frente no tempo. O gráfico mostra que segundo os últimos dados o prognóstico levou o patamar de 45000 mortes para 56000 mortes e levou o final da epidemia de agosto para setembro. Este prognóstico é válido se e apenas se estivermos de fato no pico.

No momento estes dados não levam em conta ainda a flexibilização que está sendo implementada por todo o país. Sentiremos este efeitos nas próximas semanas. Mas com certeza flexibilização causa um aumento da população vulnerável e isto vai aumentar a duração da epidemia, o que seria catastrófico para a economia.

A flexibilização é um tiro no próprio pé da economia. Só medidas que diminuam a população vulnerável, ou que a mantenha como está podem encurtar a duração da epidemia e só o encurtamento da epidemia pode fazer a economia se recuperar mais rápidamente.

Os resultados deste grande movimento de flexibilização só será sentido em uma semana ou mais. Nos próximos dias talvez se tenha uma diminuição no número de mortes diárias dando a ilusão de que as taxas em declínio encaminham para o fim da epidemia. Porém a entrada de toda uma nova população vulnerável com a flexibilização pode implicar em efeitos como os que ocorreram no Irã.

No gráfico a se vê que por volta de maio, o Iran estava se encaminhando para um patamar. No gráfico da esquerda de casos acumulados se vê uma pequena barriga, o que no gráfico de novos casos diários,à direita, corresponde à primeira corcova. Em maio a taxa de diária de novos casos estava em declínio, caindo de 2500 para 1000, porém isto foi seguido de um aumento súbito criando uma nova corcova. A partir daí evolução dos dados mostra o comportamento similar ao de uma segunda onda epidemica que parece estar no segundo pico. Isto provavelmente foi gerado pela chegada da epidemia a uma parecela da população que estava antes isolada. A transformação desta população em população vulnerável parece ter iniciado uma segunda epidemia. O caso do Iran merece ser mais investigado, mas nos deixa um alerta pois uma flexibilização como a que está sendo proposta em vários estados significa também transformar a população isolada em população vulnerável e isto pode gerar um efeito similar ao do Irã. Isto gera o temor que o fim do isolamento tão apregoado nos leve a uma tragédia humana e economica. Os economistas e empresários devem aceitar que no momento o nosso ministro da Economia é o Corona Vírus e com ele o único diálogo é o isolamento. Uma elevação dos números pode jogar o final da epidemia para outubro. Será que a economia aguenta?

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora