O mito do óleo de cobra, por Stanilaw Calandreli

Porque o óleo de cobra é mal visto?

Na década de 1860, os trabalhadores chineses, que imigraram aos Estados Unidos para trabalharem na construção da estrada de ferro transcontinental, após o árduo trabalho diário, esfregavam seus músculos doloridos e cansados com pomada feita da gordura de “cobra d’água” chinesa (Enhydris chinensis), um antigo remédio chinês que compartilharam com seus colegas de trabalho americanos.

 

Um relato de 2007 na revista Scientific American explica que o pesquisador neurofisiologista da Califórnia,Richard Kunin, estudou a relação entre as cobras d’água chinesas e ômega-3 (ácidos graxos) na década de 1980.

Kunin visitou o Chinatown de San Francisco para comprar o óleo de cobra e analisá-lo. Segundo sua análise de 1989 publicada no Jornal da Medicina Ocidental, o óleo da cobra d’água chinesa contém 20 por cento de ácido eicosapentaenóico (EPA), um dos dois tipos de ácidos graxos, ômega-3, o mais facilmente aproveitado pelo nosso corpo. O salmão, uma das fontes de alimentos mais populares de ômega-3, contém no máximo 18 por cento de EPA.

Porém, somente anos após a pesquisa de Kunin que os cientistas americanos descobriram que o ômega-3 é essencial para o metabolismo humano. Acalma a inflamação dos músculos, das articulações e ajuda a função cognitiva, reduz a pressão arterial, colesterol e até mesmo a depressão.

Então, por que o óleo de cobra tem uma fama tão má?

Os vendedores ambulantes que vendiam fórmulas de remédios ouviram as histórias do milagroso poder do calmante muscular do óleo de cobra e decidiram vender suas próprias versões de óleo de cobra – mas, evidentemente, que seria muito mais fácil evitar  o uso das verdadeiras serpentes.

No seco e empoeirado “Bravio Oeste” do século 19, cobras d’água chinesas não existiam, então, para dar mais credibilidade aos seus remédios, as empresas, e em particular a Kickapoo Indian Medicine Company, alardeavam que suas receitas vinham de curandeiros indígenas americanos.

Na verdade, os Choctaws e outras tribos usavam o óleo de cascavel para aliviar a dor de artrite reumática – Muito embora, de acordo com a pesquisa de Kunin, as cascavéis que vivem em terra seca possuem muito menos ômega 3 (8,5 por cento EPA) do que as cobras que vivem na água. Assim, os charlatães propagandeavam que conseguiam a cura usando a mais temível das víboras que os americanos conheciam: a cascavel.

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Para vender seus produtos, essas empresas rodavam através do Oeste com  seus “shows de medicina” carnavalescos,  muitas vezes com música ao vivo, teatro de fantoches, acrobacia, artistas blackface, e outros. Durante suas encenações, a cascavel aumentava a sensação de perigo e tornava mais emocionante o teatro. O show sempre culminava com uma demonstração de cura com membros da plateia, geralmente “companheiros” colocados no meio da multidão pela empresa.

Os truques dos manipuladores de cascavel os tornaram imensamente populares, pela facilidade que aparentavam matar uma “chocalhadeira” na frente da multidão e, em seguida, fingir extrair o óleo do seu corpo e preparar um linimento que poderia curar tudo, desde o sarampo até a febre tifóide.

O mais famoso deles foi um cowboy chamado Clark Stanley, também conhecido como o Rei da Cascavel, que dizia ter obtido sua fórmula do óleo de cobra de um membro da tribo Moki Pueblo. Vestindo traje colorido típico do oeste, ele cativava multidões, como na “World’s Columbian Exposition” de 1893, em Chicago, onde se apresentou com suas cascavéis diante do povo.

O linimento de Stanley teve muitos imitadores, incluindo o óleo anti-séptico de Miller e o óleo de Lincoln. Possivelmente, as pessoas tornaram-se cautelosas com esses “vendedores de óleo de cobra”, então os vendedores ambulantes começaram a colocar seus nomes e imagens em seus rótulos de garrafas como garantia de seus produtos.

A ordem médica começou a agir contra esses charlatães. Em 1905, a revista Collier publicou um artigo acusando esses mascates da medicina como fraudadores, que muitas vezes vendiam produtos venenosos. A indignação pública causou a criação da Lei do Alimento e Droga de 1907.

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Um carregamento de óleo de serpente de Clark Stanley foi apreendido pelo governo dos EUA em 1917 e analisado por cientistas. A pesquisa revelou que o produto continha óleo mineral, pimenta vermelha (que irrita a pele), vestígios de terebentina , e apenas um por cento de óleo graxo, provavelmente bovino. Mas, não foi encontrado nenhum grama de óleo de cobra.

Isso marcou o começo do fim para a medicina-show  dos vendedores ambulantes. Mas seria o fim para o óleo de cobra? Não totalmente. Óleo de cobra d’água chinesa sempre esteve disponível no mundo todo. Mas, nos últimos doze anos, suplementos de omega-3, óleos e cremes (muitas vezes feitas de peixes) retornaram em grande forma, disponíveis não só em lojas de “health food”, mas também em qualquer farmácia da esquina.

A China tem obtido grandes lucros com o óleo de cobra d’água chinesa

Óleo de cobra na Europa

Na Inglaterra, o uso do óleo de cobra foi introduzido pelos comerciantes que vinham das colônias orientais muito antes  da chegada dos chineses na América,  e o  difundiram por toda a Europa. Esse produto contou com uma ajuda real, quando foi emitida a Patente Real em 1712, relativa ao elixir de Richard Stoughton, que era utilizado no tratamento do estômago fraco ou da falta de apetite. Por volta de 1750, mais de 200 remédios encontravam–se protegidos por este mesmo método. Se acrescentarmos a esses remédios todos aqueles comercializados sem patentes, devem ter sido gerados lucros consideráveis. Estes remédios em breve foram despachados para todo o planeta, até que a Revolução Americana interrompeu a cadeia de fornecimento a essa colónia transatlântica e os Americanos começaram a produzir a sua própria marca de óleo de cobra.

Óleo de cobra em Portugal

Na segunda mezinha publicada por Luís Ceríaco, biólogo doutorando em História e Filosofia das Ciências, o autor explica-nos a história, as verdades e os mitos por detrás da “banha da cobra”.

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Da grande variedade de mezinhas e produtos da etnofarmácia que povoam a medicina popular em Portugal, poucas serão tão famosas como a “banha da cobra”. A expressão é antiga e refere-se a várias receitas baseadas em partes do corpo de serpentes e utilizadas para tratar diversas maleitas. No entanto, nos dias de hoje, e como é situação comum para a boa parte dos conhecimentos originários do conhecimento popular, a expressão é habitualmente utilizada de maneira depreciativa, como metáfora para um produto de má qualidade e de resultados duvidosos, sendo mesmo a personagem do “vendedor de banha da cobra” utilizado no discurso público para identificar alguém mentiroso e de falso caráter. Para além de imagem metafórica, a banha da cobra trata-se de fato de um tratamento da medicina popular portuguesa ainda hoje referido e aplicado em zonas mais remotas do país.

É importante notar que muitas destas mezinhas se encontram também elas presentes em várias farmacopeias portuguesas do século XVIII, denunciando um uso continuado há mais de três séculos. O uso da banha da cobra não é exclusiva de Portugal, nem mesmo da Europa. Do Brasil a Angola, são várias as aplicações terapêuticas utilizadas pelos povos locais para o tratamento de várias doenças, algumas das quais de forma idêntica aos usos europeus. Embora existam várias receitas exclusivas, muitas outras indicam a possibilidade de transferência de informações entre povos e culturas. É comum em Angola encontrar grandes jiboias sendo vendidas em mercados locais, em que a carne é usada para a alimentação, a gordura para aplicações terapêuticas contra as dores reumáticas (tal qual em Portugal), e os olhos utilizados para sopas e rituais mágicos (exclusivo de Angola).

No Brasil, o óleo de cobra ainda encontra muita aceitação.

Referências:

http://www.ciencia20.up.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=376

http://historia-ancestral.blogspot.com.br/2012/03/origem-do-oleo-de-banha-de-cobra-banha.html

http://www.davemanuel.com/investor-dictionary/snake-oil-salesman/

http://www.collectorsweekly.com/articles/how-snake-oil-got-a-bad-rap/

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3 comentários

  1. Cobras perigosas nos céus da Bahia
    Quero ver ver quem pode com tanto poder….só Deus o espirito absoluto ao qual estao submetidas todas as serpentes, inclusive essas que deram um show nos céus da Bahia…nao entendi pq elas se permitiram serem visiveis…hummm…estavam se despedindo após a derrota final…eram.os sinais definitivos do fim da Era da Delaçao…adeus queridas…

    Terriveis….

    Vejam…

    http://josecarloslima.blogspot.com.br/2015/08/olha-vida_14.html?m=1

  2. O Óleo de Cobra é Medicinal e tem comprovação científica.

    Vários biólogos do Amazonas já comprovaram que a cobra é cicatrizante e também regenera o tecido muscular e ósseo. Visto que na matéria o apresentador vendia um produto falsificado, não se pode estabelecer que o óleo não funciona, pois temos prova que funciona.

  3. coment

    Antes de adquir essa droga, acesse esse site <https://medium.com/óleo-de-cobra…/óleo-de-cobra-ou-como-fazer-os-outros-de-trouxa> . Esses espertalhões estão usando um método mais moderno de charlatansmo que se assiste nos faroeste americano em que se vendia remédio pra todas as enfermidades como uma poção mágica, e depois disso desapareciam do mapa com o dinheiro dos trouxas. Esses caras que provem dientificamente que funciona e acreditaremos.

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