O nazismo e as raízes do mal em estado puro (III), por Roberto Bueno

O nazismo e as raízes do mal em estado puro (III)

por Roberto Bueno

É notável como a sociedade organizada alemã da época dispunha de recursos técnicos tanto para prestar tão eficiente socorro ao atropelado pelo progresso automotor que se expandia pelas ruas da urbe bem cuidadas como também com os milhares de indivíduos expostos à perseguição pelo regime. A Alemanha dispunha de condições e organização suficiente para fazer chegar até a vítima outro veículo automotor, este preparado e bem equipado para prestar socorro médico. Mas alguns como este estavam preparados para salvar vidas, outros estavam embarcados com tecnologia para eliminá-la, como aqueles convertidos para servir como câmaras de gás.

As subjetividades humanas colonizadas pelos instrumentos publicitário-ideológicos do fascismo alemão são conectadas às dobras e armadilhas da reluzente e sedutora técnica. Ofuscante quanto aos seus efeitos, facilita a via de aviltamento dos indivíduos progressivamente desvalorizados mas que, paradoxalmente, buscam proteção sob as asas de seus algozes, emulando o animal solitário de Musil (1989, p. 127), largando-se em furiosa corrida no espaço aberto, veloz disparada, precipitando-se no gozo profundo da liberdade, até que, lançado no vazio depara com o êxtase e detém-se perplexo ajoelhado ante uma hipnotizante bacia de aveia. Força místico-orgânica controla sua subjetividade pavimentando a via para acesso ao território da pura anomia no qual a técnica opera com alta performance impondo o perecimento a milhões de pessoas, construindo mundo no qual “A não ser por grandes golpes de sorte, era praticamente impossível sobreviver sem renunciar a nada de seu próprio mundo moral; isso foi concedido a uns poucos seres superiores, da fibra dos mártires e dos santos” (LEVI, 1988, p. 93-94). Esta a máquina movida por determinação de exclusiva voz e vontade arbitrária determinadora de vida e morte, calando para sempre inimigos, fictos ou reais.

Tal como a dama do romance Musil atribuiu sentimento de maior alívio através de olhar penhorado de gratidão ao mundo devido a presteza civilizacional concretizada pelo mundo da técnica no socorro ao atropelado, este era sentimento compartilhado com muitos ali quando “Ouviram a sirene estridente da ambulância e todos ficaram satisfeitos com a rapidez de sua chegada” (MUSIL, 1989, p. 10), intimamente louvando o redentor mundo da técnica. Poucos anos depois quem residisse nas circunvizinhanças de Auschwitz permaneceria com fixo olhar, congelado, ao observar como dezenas de milhares de pessoas eram exterminadas através das sofisticações técnicas. Quiçá a dama musiliana adotasse similar indiferença, como a de tantos alemães no período, que sem pestanejar melhoraram as suas condições materiais de vida.

Quando enfrentada ao inaudito extermínio a personagem musiliana talvez reagisse à semelhança do surpreendente acidente urbano que testemunhara, indiferente, alegando que “não sabia o que era”, e ainda mais, que “nem queria saber”. O olhar fora afetado pelo incômodo, logo sucedido pelo alívio mas, no fundo, “bastava-lhe que aquilo explicasse o terrível acidente, reduzindo-o a um problema técnico, que já não a interessava diretamente”, abandonando o território ofensivo da superfície para refugiar-se daquilo que vivamente desejava desconhecer ou, simplesmente, esquecer, mas nunca introjetar, e ter de tratar, exigindo esforços para domar, senão que, antes, segue a opção do homem sem qualidades musiliano, que voltara à sua terra para “[…] se deixar modelar de fora, pelas condições de vida”. (MUSIL, 1989, p. 17).

A literatura musiliana expõe o quão admiráveis eram as instituições sociais, dispostas a pronta prestação de socorro, corpo na maca e lepidamente colocado na ambulância. Indubitavelmente adestrados para o ofício, as instituições haviam preparado “Homens com uma espécie de uniforme [que] cuidaram dele, e o interior do veículo, que se divisava rapidamente, parecia limpo e ordenado como um quarto de hospital” (MUSIL, 1989, p. 10). Admiráveis, as instituições facilitavam a existência e evitavam a percepção de impurezas, desordens várias e, no limite, o mal, mesmo que afastar de nossa visão a carne doída não transformasse a realidade da dor. Para o indiferente, melhor que as instituições sociais seguissem colocando homens em macas confiáveis rapidamente – como nos fornos e sumi-los ali – vestidos em confiáveis uniformes, levando-os para longínquo destino, mas tranquilizando, permitindo seguir a vida aqui e agora. Ao indiferente tudo parece tão limpo, tão confiável, certo e seguro, mas equívoco, insuperável, se não questionarmos com o Ulrich, de Musil, “onde estou?”, mas também onde estamos, com quem estamos, para onde vamos e, sobretudo, a que custo.

Testemunhas e omissos preferem distância das fontes de desconforto, de cenas sensíveis mobilizadoras da razão e da moralidade média para a tomada de posições. Naquela cena do acidente os personagens de Musil (1989, p. 10) “Afastaram-se quase com a justa impressão de que acontecera um fato dentro da ordem e legalidade”, e assim confortados saíam da cena após as instituições sociais e a técnica salvá-los. A rudeza do desastre é pretexto para omissos fecharem os olhos e virar as costas para o real, ocultando a covardia nas profundezas da sedutora formalidade manipulada operada na esfera da legalidade, revelando o deslumbramento com o potencial do mundo da ordem e seu potencial de obediência que aparece na literatura de Mann (1984, p. 63). Sob a legalidade tudo parece limpo, higienizado e supinamente asséptico, tão intensamente que concretiza o quão burda é a armadilha que apenas aos vis aproveita.

Enquanto inebriados por altas doses de poder que aparentam extensão infinita os angustiados indivíduos armadilhados pela técnica olvidam que a história permanece aberta às transformações substanciais e estilísticas, mas também que o nevoeiro noturno obsequia lugar ao sol que sempre renasce. Como sempre, uma vez mais amanhecerá e, amanhã, então, será, e para todos, a vida interditada para tantos de forma bárbara sob a crueza do nazismo instaurador do mal em estado puro.

(FIM / IIIIII)

BIBLIOGRAFIA

LEVI, Primo. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

MANN, Thomas. Doutor Fausto. 2ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

MUSIL, Robert. O homem sem qualidades. Vols. I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

Roberto Bueno – Professor Associado da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Doutor em Filosofia do Direito (UFPR). Mestre em Filosofia (Universidade Federal do Ceará / UFC). Mestre em Filosofia do Direito (UNIVEM). Especialista em Direito Constitucional e Ciência Política (Centro de Estudios Políticos y Constitucionales / Madrid). Professor Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Direito (UnB) (2016-2019). Pós-Doutor em Filosofia do Direito e Teoria do Estado (UNIVEM).

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