O neoliberalismo seletivo de Bolsonaro, por Thiago Antônio de Oliveira Sá

A sedução da barbárie redentora obscureceu a precarização da própria vida. Eleitores contra si mesmos.

O neoliberalismo seletivo de Bolsonaro

por Thiago Antônio de Oliveira Sá

Alçado à condição de superministro, o papel de Paulo Guedes era claro: a execução radicalizada da pauta neoliberal. Ao Posto Ipiranga coube liberar geral: a retirada do Estado da cena econômica, o esvaziamento de políticas sociais, privatização, sucateamento dos serviços públicos e desmanche de direitos trabalhistas e previdenciários, sob a promessa de que o mercado atenderia essas demandas e restabeleceria a economia. Entre tantas medidas herdadas, já tomadas e em curso, estão a reforma da previdência, por meio da adoção da capitalização individual e a manutenção da indexação do preço dos combustíveis ao preço do barril de petróleo no mercado internacional.  

O eleitorado, iludido e identificado com a retórica antissistema, beligerante e persecutória, não reparou que os serviços públicos, os direitos trabalhistas e a aposentadoria estariam seriamente ameaçados. A sedução da barbárie redentora obscureceu a precarização da própria vida. Eleitores contra si mesmos.

Vencida a eleição, parecia fácil: bastaria distrair a plateia com obscenidades virtuais e polêmicas fúteis, esperando que o parlamento aderisse gratuitamente ao rolo compressor neoliberal, retirando-nos o pouco de cidadania que nos resta. Esqueceram-se do quanto custou a Temer aprovar a reforma trabalhista.  

Mas a queda da aprovação registrada pelo Ibope e Datafolha mostrou que nem todas as questões se resolvem com bravatas de twitter. Governar é, entre outras coisas, arbitrar sobre questões do interesse nacional, o que significa, muitas vezes, administrar interesses setoriais divergentes.

Mesmo assim, refém de likes e da aprovação dos seus seguidores, o presidente insistiu no jogo cênico do populismo, incorrendo num neoliberalismo seletivo que divertiu a esquerda e a direita: poupou os militares da reforma da previdência e os caminhoneiros do aumento do preço do combustível. Os primeiros, por corporativismo. Os segundos, por covardia ante a ameaça iminente de paralisação de um país movido a diesel.

O neoliberalismo seletivo consiste em canetadas pontuais aleatórias, sem uma política ou coerência gestora que as justifique, poupando um ou outro segmento da devassa liberal conforme o humor das redes sociais e da opinião pública que as move. Aos militares, a manutenção de direitos previdenciários diferenciados (aliás, precisamos falar das pensões vitalícias para filhas de militares. Não era para acabar com a mamata e cortar privilégios?). Aos caminhoneiros, particularmente suas patronais organizadas, diesel congelado. À população em geral, a capitalização privada sem se saber quanto se receberá ao se aposentar e a gasolina indexada, com preço condicionado às variações de mercado.

O neoliberalismo seletivo contém contradições inexplicáveis: é o Estado que protege e que condena, que liberaliza e que protege, que outorga ao mercado e que atua com ator econômico. O neoliberalismo seletivo concilia capital aberto com intervencionismo estatal, perdas bilionárias de valor de mercado com favorecimento setorial. Acionistas enfurecidos com caminhoneiros acalmados.

Num governo em que, definitivamente, a coerência não é o forte, o neoliberalismo seletivo é uma “inferência razoável”, como diria o desautorizado Paulo Guedes, cada vez mais impedido de ser o posto Ipiranga do presidente que orgulhosa e declaradamente não entende nada de economia.

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo e professor da Universidade Federal de Alfenas.

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2 comentários

  1. O curioso neste neo liberalismo é que fala sempre de um Mercado que não consome, não compra não vende e não produz apenas especula. O mercado de combustiveis deveria a principio estar relacionado com o consumidor no caso a população incluindo caminhoneiros. Deveria estar associado ao custo da extração do petroleo. A principio as leis do mercado estariam associadas a oferta e demanda. Porém nos ultimos tempos Mercado é um nome que se esvaziou, ao retirar o sobrenome, que é Mercado financeiro. Este mercado governado pelo Cassino de Wall Street ( nome genérico para Bolsas ) é uma casa de apostas onde as oscilações geram um movimento similar ao de massas metereologicas, onde pelos céus quantidades imensas de dinheiro e riquezas, rapidamente saem de algumas regiões do mundo e são despejados em outras. Neste cassino, como em todos quem ganha é sempre a banca. Assim o nosso apregoado neo liberalismo é comandado por um senhor que jamais apresentou nenhum plano sobre a economia do país, sobre o desemprego ou sobre os investimentos, ou sobre a produção de bens e consumo no país. Ele trata o país como se fosse um detalhe na planilha. E tudo isto num discurso onde o estado não é aparentemente intervencionista. Isto é uma falácia, pois de fato o estado na mão deste senhor e do seu chefe que não é seu chefe, está usando toda a máquina do estado para favorecer o tal mercado. E os idiotas ideologicos ou os crentes no Deus Mercado, acham natural que o estado intervenha na sociedade para satisfazer seus designios. A política estatal do petroleo hoje se baseia no descolamento dos preços dos combustíveis dos custos de produção. Aliás nem se fala nos custos, se fala nos preços do Mercado, mas este mercado exclui os consumidores. Um estranho capitalismo onde a lei da oferta e da procura não funcionam. Esta é claramente uma intervençao estatal e não uma liberalização da economia como dizem. Intervenção do estado neo liberal é afirmar que é melhor privatizar as coisas mais rentáveis. E íntervenção do estado neo liberal é fragmentar a cadeia do petroleo, vendendo o refino e a distribuição. Falar em aumentar a competitividade vendendo tudo para monopolios. É vender a EMBRAER, no momento que desenvolve um cargueiro militar. É resolver pagar fundos abutres antes mesmo de haver um processo. Tudo isto é intervençao do estado neo liberal. Intervençao do estado é colocar presidentes nos bancos publicos que confessam que seu maior interesse é na privatização e não no desenvolvimento do banco. È ter um ministro da Economia que despreza todo a nossa realidade economica e se concentra na capitalização da Previdência. Intervenção do estado é sucatear as universidades com o fito de favorecer grupos internacionais de ensino privado. No Brasil de hoje não estamos falando sequer dos governos militares nacionalistas que apostaram nas estatais estratégicas. A intervenção do estado no caso dos caminhoneiros não se trata de uma visão de estado mas apenas uma crise de pânico com a perspectiva de que o mercado interno , no caso caminhoneiros, se manifeste. Aliás o mercado mesmo o de Wall Street faz de tudo para ter os seus no controle do estado.

  2. TROUXAS, IDIOTIZADOS… “INFELIZMENTE”. PREJUÍZO NELES!
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2019/04/23/trouxas-idiotizados-infelizmente-prejuizo-neles/

    …Por algumas razões vieram à minha mente as lembranças de algumas instituições brasileiras, ultimamente tão silenciosas e acabrunhadas.

    Estariam envergonhadas? É, porque todas elas foram muito ativas no golpe para derrubar o governo popular do pêtê. Lembro- me especialmente das ordens dos advogados Brasil afora. Lembro-me também das muitas associações médicas e seus conselhos. Lembro-me do conselho ao qual fui compulsivamente filiado e do qual me desliguei assim que estruturei minha consultoria…

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