O obituário brasileiro na dupla tragédia sem previsão do tempo, por Álvaro Miranda

O obituário desse estranho tempo em que vivemos, testemunhado toda noite através do telejornal, vem eloquente para dizer que, para a dor anônima ou famosa, não cabe um predicativo a mais que a diferencie.

O obituário brasileiro na dupla tragédia sem previsão do tempo

por Álvaro Miranda

Sou do tempo em que nós, repórteres, percorríamos diariamente cemitérios da cidade para fazer o chamado obituário. Era um espaço reservado em alguma página da editoria local do jornal para noticiar o falecimento das pessoas, normalmente, pessoas com nome, identidade e história, porém consideradas anônimas. Se fossem famosas, viravam personagens de matérias maiores com texto, foto e diagramação bem cuidada.

O funéreo era publicado em pequenas notas com uma lista de dúzia ou mais de nomes dos que morriam todos os dias, vítimas, em diferentes idades, do que se chamava “morte natural” – enfarto, falência múltipla dos órgãos, acidente vascular cerebral e outras causas conhecidas. A regra era que nossos anônimos não podiam ter sido vítimas de homicídio ou acidente. Aí não seria obituário corriqueiro da cidade, mas sim matérias para as páginas policiais.

Percorríamos às vezes dois a três cemitérios, quando havia tempo, repórter e motorista disponível para isso e quando não havia também reclamação ou discussão para ver que ia fazer. Quando não, tentava-se as informações por telefone esperando contar com a boa vontade de algum funcionário disponível da administração dos cemitérios. Apesar de cotidiana, a morte era exceção com espaço diminuto e delimitado.

Quão enfadonho era esse tipo de serviço, em rodízio, para o jornalista – o fato é que, se tinha que ser feito, é porque havia leitores para isso. Assim também enfadonho, pelo menos, para mim, fazer a previsão do tempo. É de se imaginar também quem e por que pessoas iam ao obituário para saber quem morreu. De qualquer forma, o prazer mesmo era sair da redação, ir para a rua e ver a vida acontecendo, e não a morte, com ou sem tempo incerto.

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Porém, bem sabemos que toda cidade vive com seus diferentes tipos de tragédias individuais e desconhecidas. Mesmo que não cheguemos ao ponto de tentar contra a nossa própria existência, como Joana de tal por causa de um tal João, ou como outros também corajosos e que conseguiram – a verdade também é que a dor da gente não sai no jornal mesmo.

A dor de cada um, seja rico, pobre, desvalido, perdido, amante, traído, fugido, desempregado, louco varrido, se um dia sair no jornal, não será lembrada por muitos nem nos dias mais próximos subsequentes à notícia. Sabemos, porém, também que toda tragédia individual é arrasadora, mesmo que considerada pequena pelos meios de comunicação, não sendo de gente famosa e, por isso, não noticiada.

Proibido para nós, jornalistas, por exemplo, escrever que, no acidente do ônibus escolar com 20 crianças, “apenas” uma morreu. Como assim apenas uma? Apenas para nós, jornalistas, mas para a família da criancinha morta foi, certamente, uma devastação.

Agora, são os cemitérios e os obituários que percorrem nossos olhos com as cenas diárias do noticiário mostrando dezenas de covas rasas abertas, algumas sendo tapadas por tratores. A dor de cada um, mesmo sem lágrimas na tela da televisão, mesmo a dos parentes de vítimas do Coronavirus que não são entrevistados, acabou formando uma névoa coletiva pessimista, dolorosa e opaca do sofrimento geral. Uns e outros são, ao mesmo tempo, famosos e anônimos e anônimos e famosos.

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O obituário desse estranho tempo em que vivemos, testemunhado toda noite através do telejornal, vem eloquente para dizer que, para a dor anônima ou famosa, não cabe um predicativo a mais que a diferencie. Não por simples solidariedade e compaixão de poltrona, mas porque é difícil mesmo não baixar o astral, não se entristecer e não chorar.

Ainda mais porque, em meio à pandemia, certo espírito de ódio recrudesceu na encruzilhada da crise sanitária com a crise econômica, sem falar das situações para lá de suspeitas de um governo em suas diferentes situações de ação e inação.

Não se trata nem de querer ou não politizar a questão. Até porque se o país estivesse sendo conduzido por uma liderança competente, respeitada, aceita e amada pela maioria da população, certamente seria assim porque ela estaria se dedicando para levantar o astral da sociedade, com os recursos que tivesse. E não fazendo tudo para transformar todos os domingos em dia escabroso de ameaças e bandeiras da defesa como forma de ataque permanente contra a democracia.

Hoje podemos ver de forma mais clara que a chamada causa natural dos nossos anônimos do passado e do presente não era e não é tão natural assim. Matamo-nos e matam-nos aos poucos nas nossas limitações diversas.

Afinal, hábitos alimentares inadequados, falta de informação e educação, carência de diferentes tipos de recursos e outras circunstâncias inibem ou dificultam, certamente, a prevenção de doenças e só podem contribuir para adoecer com mais frequência ou abreviar a vida dos que têm menos recursos. Mas, além disso, uma pandemia não escolhe classe social.

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Nesse registro é que podemos enquadrar o obituário de anônimos e famosos na dupla tragédia atual do país: uma sociedade que empobrece em vários sentidos, vitimada agora pelo novo vírus, agravando uma doença da qual já era vítima, enfermidade que mistura falta de emprego, falta de educação e saúde – ausência, enfim, de programas de políticas públicas articuladas para o desenvolvimento e o bem estar de vastas parcelas da sociedade.

Em suma, tudo isso e muito mais – para não dizer do ranking macabro e bizarro de sermos um país com uma das maiores concentrações de renda do mundo, não por acaso sendo a terceira população carcerária do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos e China. Muitos de nós já morremos e não soubemos do obituário.

Quando se tem a morte como algo corriqueiro e repetitivo é porque alguma coisa vai de mal a pior. Ou alguma coisa já se esgarçou de vez. Não tem como ficar rindo nas redes sociais. Hoje e sempre precisamos listar e fazer história de todos os nomes do obituário geral. Mas, prever o tempo futuro, mesmo o dia seguinte, tornou-se algo incerto e angustiante com suas nuvens densas de incógnitas nada promissoras.

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