O Partido dos Trabalhadores (PT) e a Religião no Brasil, por Marcos Vinicius de Freitas Reis

Lideranças católicas ajudaram na construção do conteúdo programático, implantação dos diretórios, novos filiados, organização institucional, formação política, articulação política e no envolvimento das eleições.

Religião e Sociedade na Atualidade

O Partido dos Trabalhadores (PT) e a Religião no Brasil

por Marcos Vinicius de Freitas Reis

Muito falacioso quando correntes teóricas ou politicamente conservadoras ou radicais pensam que todas as correntes de esquerda são ateias ou são contrárias a religião. Muito pelo contrário, as experiências da participação política no Brasil de grupos mais progressistas contaram com o apoio efetivo de segmentos religiosos.

No período nefasto da Ditadura Militar (1964-1985), a teologia da libertação que estava presente fortemente na Igreja Católica, e alguns grupos protestantes, resistiram bravamente contra a tortura, censura e as mortes. As lideranças religiosas em seus templos motivavam seus fiéis a defenderam a democracia e não aceitarem qualquer forma de autoritarismo. Nos anos de 1970 e 1980, surgiram do seio da Igreja Católica e de algumas Igrejas Protestantes, padres, bispos, pastores e leigos dispostos a lutar para um Brasil melhor. No contexto do catolicismo brasileiro, as comunidades eclesiais de base (CEBs), destacam-se como modelo popular de organização política, que desenvolveu trabalhos importantes na luta pela reforma agrária, questão da imigração, saúde, educação, segurança pública, mulheres, indígenas e juventude.

A criação do Partido dos Trabalhadores (PT) foi possível graças a articulação e protagonismos das CEBs. A Igreja Católica do Brasil contribui para a criação do maior partido de esquerda da América Latina nos dias atuais. Lideranças católicas ajudaram na construção do conteúdo programático, implantação dos diretórios, novos filiados, organização institucional, formação política, articulação política e no envolvimento das eleições. Nascia no início dos anos 1980, o primeiro partido de base popular progressista do Brasil. Muita esperança depositada neste momento da história política do brasil, liderado pelo então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva.

O PT rapidamente expandiu pelo Brasil. Nos anos de 1990 , o PT, já era o maior partido de oposição a nível nacional no regime democrático. Com discurso atual, sempre conectado com a suas bases e linguagem jovial conseguia contundentemente criticar as políticas neoliberais que vinham sendo implantadas no Brasil pelo governo do sociólogo Fernando Henrique Cardosos (FHC).

A partir da década de 1990, percebemos o enfraquecimento do trabalho popular das CEBs, contudo, as lideranças surgidas deste contexto religioso-político, firmaram-se como alternativas políticas para cargos executivos e legislativos, a exemplo da Marina Silva, Alessandro Molon, Patrus Ananias, Chico Alencar, dentre outros. Dito de outra forma: dificilmente sem as correntes progressistas religiosas dificilmente o PT teria grande dimensão.

Depois de 4 derrotas seguidas para eleição presidencial, Lula, modifica um pouco o seu estilo. Em 2002, aproxima de outras correntes religiosas (Igreja Universal do Reino De Deus, Assembleia de Deus, e outras Igrejas) e do espectro político centro-direita e consegue eleger-se presidente. Não tenha dúvidas que a gestão petista a frente do governo brasileiro foi um marco de mudanças na nossa sociedade. Nunca tivemos tantas políticas públicas voltados para as pessoas marginalizadas e um bom período econômico.

Entretanto, em nome da governabilidade e para a perpetuação no poder, bandeiras históricas construídas na Igreja Progressistas pouco avançaram. Podíamos ter ampliado a questão da reforma agrária, ampliado os direitos indígenas, democratizado os meios de comunicação, taxado as grandes fortunas, reforma política, os investimentos feitos em projetos sociais deveriam pensar mais a qualidade e não a quantidade, uma política mais efetiva no combate as questões ambientais, e atendimento mais efetivo as pautas identitárias: combate ao preconceito as minorias. Isto é, em vez disso, promovemos amplo crescimento econômico, vários projetos sociais, mais não uma reforma estrutural que o Brasil precisava, e que era o sonho desde a criação do partido.

O PT virou amigo dos bancários, pastores fundamentalistas, empresários que pensam apenas em seus lucros, e deslocou da sua base. Com o golpe aplicado em 2016, o partido faz-se necessário se encontrar com sua história e sua base. Não é algo simples. O PT, como as esquerdas necessitam ouvir mais o povo pobre e incluir em suas demandas e reivindicações. Lógico que não temos mais aquele progressismo na Igreja Católica. Temos muitas lideranças religiosas e de movimentos sociais que estão dispostos a reconstruir um partido que deu muita contribuição para o Brasil. Faz-se necessário e urgente este movimento.

O primeiro grande inimigo que precisa ser derrotado é o bolsonarismo. Caráter fascista, autoritário e pseudo-liberal tem demostrado fortalecimento nos últimos anos. Atualmente estamos carentes de uma oposição que desenvolva mecanismo de resistência igual acompanhamos nos anos de 1990 e no período do governo Temer. Os setores progressistas católicos e evangélicos são essenciais neste movimento. Papa Francisco deu ajudado neste pensamento. Publica livros, pronunciamento e ações práticas que a política deve ser voltada para o pobre. Esta é a centralidade do evangelho. Promover a dignidade humana dos desfavorecidos. Volto a dizer, voltar as bases deve ser obrigação para continuar o processo de reconstrução.

Marcos Vinicius de Freitas Reis – Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Políticas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Políticas Públicas. E-mail para contato: [email protected]

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