O possível efeito civilizatório do bolsonarismo e as eleições de 2020, por Cesar Calejon

O funcionamento das sociedades civis em 2019 é bem mais elaborado e envolve um processo de coordenação de inúmeros aspectos, agentes e expectativas, além de uma complexa interação com o resto do mundo, com o qual o ódio e o medo têm pouquíssimo ou nada a contribuir. 

O possível efeito civilizatório do bolsonarismo e as eleições de 2020 

por Cesar Calejon

O descrédito do modelo de democracia indireta, a ganância desmedida de partidos políticos pela manutenção das suas hegemonias a qualquer custo, a influência da mídia brasileira, as manobras de poderes corporativos e da República, uma recessão econômica, todos os tipos de elitismos históricos, a sagacidade de grupos internacionais que são especialistas em utilizar o medo e a ojeriza como forma de promover a instabilidade ou criar coesão política entre as massas, o dogma religioso e novas ferramentas e estratégias de comunicação: a ascensão do bolsonarismo no Brasil do século XXI promoveu uma reorganização da estrutura social brasileira, não somente nos âmbitos político e social coletivo (trabalho, clube, mercado etc.), mas no cerne das famílias e das relações afetivas das amizades mais próximas. Melhores amigos brigaram. Tios e sobrinhas discutiram. Pais e filhos se desentenderam aos gritos. Foi um período muito conturbado para a sociedade brasileira em geral. 

Essa reestruturação, que aconteceu de forma mais acentuada entre 2016 e 2018, foi especialmente traumática por conta da intensidade de ambos os elementos que colidiram neste começo do século XXI no Brasil. De um lado, o conservadorismo histórico que se aliou ao conservadorismo religioso e venceu as eleições em 2018. Do outro, a intensificação de tendências globais e inexoráveis, como a globalização, a ciência moderna e o feminismo (este último compreendido como a busca da igualdade total, considerando o tratamento destinado às pessoas de todos os gêneros). 

Trata-se de um período na história do Brasil quando as forças políticas e sociais que representam estes raciocínios antagônicos travaram um embate sobre a plataforma do descrédito do modelo de democracia representativa, que foi catalisado em muitas sociedades civis modernas do planeta por causa da Internet e do surgimento de um novo paradigma de comunicação (principalmente desde a popularização dos smartphones, entre 2010 e 2013), com redes sociais, aplicativos e novas estratégias de construção de narrativas. 

Apesar disso, os elementos que norteiam a organização das retóricas mais conservadoras atuantes no Brasil de 2019 se assemelham muito aos discursos da Doutrina Truman, quando o objetivo do então presidente estadunidense, Harry Truman, era deter o avanço do comunismo no mundo. Em 1945. Atualmente, o nosso maior parceiro comercial é a China, país governado pelo Partido Comunista Chinês e, caso o Brasil não faça nenhuma grande besteira, este cenário não oferece indícios de mudanças para os próximos anos. 

Aliado ao fundamentalismo religioso que prega uma cruzada do bem contra o mal como uma questão de sobrevivência, esta filosofia da Doutrina Truman reformulada pode transformar o Brasil, no médio prazo, em uma nação de radicais extremistas. Forças dogmáticas e conservadoras preferem terrenos mais ácidos, porque é sempre mais fácil avançar retóricas que usam o medo ou os elitismos históricos quando as pessoas estão com raiva e existe a dimensão de um inimigo comum responsável por todos os problemas. 

Contudo, o funcionamento das sociedades civis em 2019 é bem mais elaborado e envolve um processo de coordenação de inúmeros aspectos, agentes e expectativas, além de uma complexa interação com o resto do mundo, com o qual o ódio e o medo têm pouquíssimo ou nada a contribuir. 

Por exemplo, considerando as ideias de ódio e intolerância contidas nas declarações de Jair Bolsonaro, Steve Bannon, o principal guru internacional do bolsonarismo, revela, sem problemas, que elas fazem parte da estratégia política e também foram aplicadas por Trump e por outros candidatos em diferentes países. “Isso é apenas linguagem provocativa. Bolsonaro usa declarações provocativas para conseguir ser ouvido em meio ao barulho, do mesmo jeito que Trump. Em junho de 2016, Trump estava em sétimo lugar nas pesquisas de opinião. Depois do discurso provocativo que fez, as pessoas o ouviram e ele disparou. O mesmo acontece com Bolsonaro. Ambos são especialistas em se conectar com as massas”, eufemizou o ex-estrategista-chefe da Casa Branca em entrevista à Folha de São Paulo um dia após a eleição de Bolsonaro.

No ano em que Trump foi eleito, segundo dados da Coalizão Nacional de Programas Antiviolência dos EUA, as mortes de pessoas da comunidade LGBT, por exemplo, atingiram o recorde histórico até o presente momento nos Estados Unidos. Incluindo as vítimas da boate Pulse, o número subiu 217% com relação ao ano anterior. O simbolismo de qualquer presidência sempre se transforma em ações concretas que estão invariavelmente relacionadas ao caráter das mensagens que foram transmitidas à população por meio destes símbolos. 

Joy Agoston, mulher trans, analista de comunicação que trabalha em uma empresa multinacional francesa em São Paulo, explica como este conceito funciona no âmbito prático da vida social de quem é LGBT. “Temos um presidente que, ao longo de sua vida pública, sempre pregou que as ‘minorias’, e em especial a classe LGBT, estavam fora do contexto social ‘padrão’. Ainda que fosse apenas para chamar a atenção, Jair Bolsonaro conseguiu acender a faísca do preconceito que estava enraizado e internalizado nas pessoas. Hoje, essas pessoas se sentem no direito de atacar, ofender e falar o que bem querem à comunidade LGBT. O que mais choca é o apoio e o embasamento que elas encontram nas palavras do próprio presidente. É como se existisse um aval tácito por parte dele, de que tudo aquilo é correto de se fazer”, ressalta a comunicóloga.

“Agressões verbais a gente acaba por escutar no nosso dia a dia, por exemplo: Corre para trocar o seu nome enquanto dá tempo, porque daqui a pouco vai ter que usar o seu nome de macho”, conta Agoston. “Alguns amigos meus já passaram por lugares onde foram humilhados e motivo de chacota. Os que voltaram para tirar satisfação ainda foram fisicamente agredidos. Em dezembro (de 2018), um conhecido estava passeando pelo (bairro dos) Jardins (em São Paulo) com seu namorado, quando foi motivo de chacota de alguns rapazes que aparentemente estavam fazendo uma atividade física na rua. Então, ele perguntou qual era o problema. Foi agredido com um soco no rosto e, ainda por cima, teve que escutar: ‘Aproveita por enquanto, porque em janeiro as coisas vão piorar para você se te encontrarmos por aqui.’ Ou seja, claramente esses rapazes se sentiram no direito de agredi-lo, ainda por cima contaram vantagem pelo fato de Jair Bolsonaro se tornar presidente do Brasil a partir de janeiro (de 2019) e finalizaram com uma ameaça de que aquilo se tornaria normal”, conclui Agoston. 

Não por acaso, ainda no dia 24 de janeiro de 2019, em entrevista exclusiva concedida à Folha de São Paulo, o deputado federal do PSOL pelo Rio de Janeiro, Jean Wyllys, único parlamentar gay assumido e representante da comunidade LGBT no Congresso Nacional até então, desistiu de assumir as atribuições para as quais foi eleito pelo terceiro mandato consecutivo e deixou o Brasil.

Desta forma, assim como a sociedade brasileira proibiu a propaganda dos cigarros, por exemplo, porque entendeu que se trata de um produto demasiadamente nocivo para promover, faz-se necessária uma legislação (e um parlamento) que seja capaz de efetivamente impedir qualquer campanha, discurso ou prática política que adote como base o ódio, a discriminação, a ridicularização e a humilhação de outros seres humanos, exatamente pelo mesmo motivo. Já para 2020, é preciso garantir que a fala (e a mensagem transmitida de forma geral) dos candidatos e mandatários seja genuinamente republicana e democrática. 

Esses são os valores que constituem de fato o Estado de Direito da República Federativa do Brasil e possibilitam que as pessoas discordem de forma civilizada. Sem eles, todas as nossas instituições colapsam e nos resta somente o obscurantismo de um autoritarismo vil. 

Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais e escritor, autor do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI.

6 comentários

  1. Li todo o artigo, e, ao final, fiquei me perguntando: Qual a relação com as eleições de 2020 mencionadas no título, e esquecida no texto?

    • Já para 2020, é preciso garantir que a fala (e a mensagem transmitida de forma geral) dos candidatos e mandatários seja genuinamente republicana e democrática..

  2. Dá para ver que o autor tentou trabalhar com profundidade. Mas me parece que, no fim, o texto é prolixo (um amontoado de informações que não conferem uma coerência lógica ao que se diz, com 5 ou 6 temas diferentes sendo tratados no mesmo parágrafo). Os fragmentos em si contém coisas interessantes, mas no fim das contas, é uma colcha de retalhos. Pior ainda, é reacionário, pois sem perceber propõe a censura no penúltimo parágrafo. Por último, é despolitizado, pois trabalha com uma perspectiva culturalista, como se o problema fosse uma “cultura de ódio”, e não um processo político “hardcore”, que envolve o imperialismo, golpes de estado, fraude eleitoral com a prisão do Lula, enfim, uma grande disputa de poder e controle.

  3. Estão dando nome de ‘bolsonarismo’ à um movimento liderado por trambiqueiros, apoiados por um bando de idiotas? É isso? E supervalorizando essa porcaria toda que não irá se sustentar por muito tempo? Não consigo acreditar …

  4. Ora, ora…. simplesmente se o tse cumprisse sua obrigação não precisaria de lei nenhuma… ou é normal fazer campanha pregando o ódio e extermínio de pessoas???

    E ainda querem acabar com a justiça trabalhista…..deveriam começar por ali…,

  5. Qual o limite da democracia representativa?

    O presidente pode atacar o seu próprio povo ?

    O pano de fundo do atual impasse político econômico brasileiro é a guerra comercial:
    -EUA X China
    -Guerra do petróleo e recursos naturais.

    Filho do presidente para embaixada dos
    EUA e tratativas com os EUA sem reciprocidade

    Todos perdemos com esse presidente, mas o jogo é jogado

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