O primeiro ano depois da iniciação, por Mariana Nassif

Curiosa, ao invés de assustada (isso é enorme). E pronta pro que trago por aqui, por ali e acolá, inclusive o que vem com a obrigação de um ano, o primeiro ano para Oxalá. Epa Baba!

Saída de yaô de Mariana T’Oyá, Ilê Axé Babá Oxaguiã, Ubatuba – SP, 21 de julho de 2018. © Leandro Tupan, 2018.

O primeiro ano depois da iniciação, por Mariana Nassif

Algo extremamente precioso que o candomblé tem me ensinado especialmente neste primeiro ano, o ano para Oxalá, tem a ver com o tempo. O tempo das coisas, o tempo das pessoas, o meu tempo. O tempo entre o meu tempo e o do outro, e ainda a soma e combinação destes tempos com o tempo do próprio contexto, além do tempo e movimento daquilo que é invisível e tão, tão importante sim.

Também o aprendizado vem caminhando paralelamente n’O Curso das Emoções, que abriu a segunda turma agora e não sei se ainda comporta novos membros, mas é algo que merece ser investigado, na minha opinião. Textos, meditações e trocas acerca de sensações corriqueiras e incômodas, como o ciúme e o medo, por exemplo, colocam as esperas e angústias pra pensar, remodelar, refletir. Introjetar para expandir. Tem valido o compromisso, mesmo com minha turma encerrada e um certo largar mão no finalzinho… tão eu. Ou era – e aqui está o grande lance deste primeiro ano da iniciação: a possibilidade de encontrar uma natureza que sim, tem arquétipos, manias e dengos mas que, acima disso e muito mais, anda com o Orí fortalecido e alinhado com a evolução, o crescimento, o desenrolar da vida, o movimento do tal do Axé.

Além de bastante difícil, porque as mensagens são turvas neste período: ainda estamos sensíveis, abertos, cheios de preceitos e já de certa forma cansados de alguns deles, como não entrar nas águas da natureza, apesar de estarmos de acordo desde o princípio com tudo isso e, agora entendo o que diz meu amigo Marcelo, “faria dez mil vezes de novo”, bem, além de bastante difícil por esta pequena sorte de poréns e alguns outros individuais e particulares de cada filho de santo, ainda estamos nos acostumando a refazer determinadas escolhas. Sim, escolhas pensadas, escolhas escolhidas e não mais aquele velho modelo que, quem sabe, a gente seguia antes de entrar pro quarto de santo.

Parece um pequeno pesadelo quando descrito assim, e confesso que depois de ler alguns escritos do blog O Candomblé, especialmente os da categoria Iniciação, só acho não ter esta impressão fortalecida porque olha, é muito forte mesmo, tem essa potência toda de verdade e então é simples decidir que apesar da carga que existe em viver em sistema hierárquico, receber algumas restrições que têm fundamentos secretos e outros tão lendários e ancestrais que não te resta nada a não ser respeitar, apesar do tempo que nos é exigido para que o desenvolvimento atinja determinado grau antes de sermos nós os responsáveis por iniciarmos outros filhos para os orixás, apesar de tudo isso e mais um tanto, por conta do que você tem a chance de aprender sobre si mesmo, semente plantada de auto-amor, por causa disso, vale cada coisinha.

Quando chego em uma encruzilhada mental e explodo, por exemplo, ainda que exploda e que não deseje mesmo mais passar por estes desgastes: é tão mais simples voltar pra mim mesma e pelo menos questionar o que estou escolhendo dali pra frente, se alimentar algo que irá me consumir ou algo que irá agregar. Vez ou outra ainda me cego, me calo ou falo demais, sinto demais e, então, percebo que não há de ser este o momento de decidir caminhos. Verificar feridas, memórias internas e dores que ainda estão em cuidado, e até mesmo aquelas que demandam cuidado eterno, ai, que preguiça sim, mas elas existem, bem, estas têm sido minhas ferramentas para praticar técnicas de enfermaria.

E isso tudo exige tempo e tempo, olha, é algo mesmo precioso. Tanto que pode ser orixá (e anda de mãos dadas com minha mãe Oyá). O tempo é o ar em movimento. O tempo e o investimento que a gente faz nele, dele e por ele, para ele: aqui mora a chave pro meu caminho feliz. Enormes parcelas do que chamo de infelicidade se instalam em mim quando determino meu tempo em prol de indesejos, que é como tenho chamado coisas que acho que quero mas que não deixam de ser apenas desejos de uma época que já passou. Desejo de testar, desejo de constatar, desejo de permanecer, singularmente o desejo de confirmar certezas que não são legais comigo. Ter o privilégio de enxergar que a vida que eu vivo é também e inclusive a vida que eu me permito ter, mesmo que dando um passo atrás em busca de espaço e tempo para que o novo se manifeste.

Curiosa, ao invés de assustada.

PARÊNTESE: parte estrutural deste percurso tem relação com um moço-floresta que planta belezas também por escrito e certa vez me disse que sentimentos bons merecem paciência e cuidado e, desde então, tenho prestado mais atenção nisso. Um moço que merece o investimento em leveza, carinho e despedidas, mas dele eu falo depois, até porque quando eu falo não paro, e a intenção deste texto é exatamente concluir por aqui que a experiência de parar, mesmo que exausta e aparentemente acabada, é necessária pra encontrar o tempo do Tempo e seguir, livre, livrinha. Vento que (é) chama.

Inclusive essa de espera entre os acertos do tempo tem tanto a ver com tudo isso e eu sigo aqui, querendo, inclusive, escrever graça pra você sorrir. Sorriu?

Curiosa, ao invés de assustada (isso é enorme). E pronta pro que trago por aqui, por ali e acolá, inclusive o que vem com a obrigação de um ano, o primeiro ano para Oxalá. Epa Baba!

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