O PT não acabou. Mas precisa se transformar, por Thaisa Torres Nunes

Foto: Ricardo Stuckert

O PT não acabou. Mas precisa se transformar

por Thaisa Torres Nunes

Uma avaliação do Partido dos Trabalhadores feita por uma militante

O Brasil do início desta década não discutia feminismo e direito ao aborto, a lei de estupro era mais branda, homossexuais não podiam se casar civilmente, empregadas domésticas não tinham direito trabalhista, cotas raciais e sociais não existiam, violência e morte de LGBTS, negros e mulheres nunca eram tratadas como homofobia, racismo e machismo. Reforma do sistema criminal e prisional era um tema marginal..

O Brasil avançou muito em direitos humanos e sociais. E ao avanço houve uma reação. É isso que significa a eleição de Bolsonaro. E ao invés de voltar ao início da década, a proposta do presidente eleito é retornar a metade do século passado.

O problema não é o PT ter perdido as eleições presidenciais. Antes fosse. Foi para quem nós perdemos. O PT foi muito bem nessas eleições. Mesmo depois de prenderem Lula – primeiro candidato a presidência escolhido pelo partido -e Haddad ter sido lançado como opção em setembro, em uma coligação pequena, apenas com o PCdoB. Em uma chapa com Manuela D’Avilla de candidata a vice-presidência, que tem opiniões bem à esquerda em muitos assuntos. Parecia ousado acreditar que teríamos alguma chance sem o centro da política brasileira, sem o PMDB- agora MDB- junto.

Mas fomos para o segundo turno. E recebemos 47.040.906 votos. Não foi o suficiente para ganhar eleição, o que Dilma chamou de “perder ganhando” se expressa aqui.. Perdemos nas urnas mas ganhamos quando optamos por não defender a agenda do oponente em troca de mais votos.

O antipetismo que elegeu Bolsonaro não é uma crítica real ao PT. Esse é o antipetismo de esquerda, que inclusive votou no Haddad no segundo turno. O antipetismo que elegeu Bolsonaro é uma capa, um disfarce. É uma justificativa para o conservadorismo ser plausível em nossa sociedade.

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Pode ser mesmo que não estamos sabendo dialogar. Ou escolhemos não dialogar com racistas, homofóbicos e machistas. E no meio de um clima de euforia e delírio nacional ainda somos no mínimo 45% de eleitores que defendem um outro projeto de nação. No país onde muitos de nossos pais ainda pensam como a Regina Duarte.

Haddad saiu gigante. A coordenação de campanha foi deficiente. Pouco dinheiro, pouco material. Éramos a campanha com mais propostas, e mesmo assim tínhamos condições de fazer ainda melhor. Freixo está certo quando diz que não debatemos segurança e corrupção como devíamos. E que a direita dominou o debate e a eleição no tema. Mas não tenho certeza se teria influenciado o resultado das eleições se o tivéssemos feito. As eleições refletem a sociedade. O debate da segurança pública e da corrupção sempre foi à direita no nosso país. O Brasil é conservador. E racista. E machista. É por isso que Bolsonaro ganhou.

Quem perdeu nessa eleição foi a tradicional direita brasileira, o PSDB, e o centro, o MDB. O PSDB saiu apequenado da disputa nacional, assim como o MDB. Me assusta intelectual que diz que 2018  foi o pior ano do PT. Então no pior ano do PT somos a maior força política eleita para o congresso e a segunda maior força se a régua forem os votos à presidência.

Diz também que o PT sem Lula será uma força minoritária. O PT já está sem Lula. E sem Lula somos o que somos. O PT foi o partido que mais elegeu governadores, quatro. O partido que mais elegeu mulheres deputadas federais. Mas não elegeu nenhuma mulher para o congresso em diversos estados, incluindo São Paulo. São Paulo é um bom exemplo para o perfil de eleito das nossas legislaturas: masculino, branco, meia-idade, classe média.

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Nesse sentido, o PSOL, conseguiu uma renovação importante no congresso e assembleias.  O PT não vai virar um PSOl. mas devia aprender algumas coisas com ele. Paremos de dar atenção a Ciro Gomes. Liderança não se escolhe, se torna. Se ele quiser vir junto com quem foi legitimamente escolhido pelos eleitores, Haddad, ótimo. Boulos sai grande desse processo. Não se reflete em votos, mas é quem ainda está fazendo a disputa, firme oposição de esquerda a Bolsonaro.

O jogo não está perdido. Está sendo jogado. É hora de o PT avançar e fazer ainda mais. Renovar seus quadros, arejar-se, eleger mais mulheres, negras e negros, jovens, LGBTs, indígenas e minorias em geral. E precisamos saber, quais os planos para 2019? Em quais pautas atuaremos? O que as lideranças estão fazendo? Vamos disputar a internet? E as ruas? Os mais de dois milhões de  filiados ao partido precisam de direcionamento. Liderança. Precisamos de uma avaliação acertada do momento.

Haddad não pode voltar a ser professor. Ou apenas professor. Ele tem que perceber seu papel central na disputa da democracia, na articulação da oposição a Bolsonaro. Minimizar a força e importância da Dilma é outro erro, ela deve ser colocada no papel que lhe cabe: única mulher já eleita presidente no país, inspiração para diversas mulheres. O PT não pode se apequenar nem se esquivar do papel que tem.

Se vamos ser acusados de tudo o que não fizemos – em troca da governabilidade e pressão da opinião pública, verdade seja dita, talvez agora seja a hora de propor e fazer. As pautas do Partido dos Trabalhadores sempre foram avançadas, mais avançadas do que seus governos de coalizão permitiram implementar. Podemos agora pautar regulamentação do aborto, educação sexual nas escolas, ampliação da licença paternidade, políticas avançadas de redução de danos e reforma da política de drogas, eleição de mais mulheres, mais negros, mais jovens. A saída é a esquerda.

A eleição deste ano expôs um país não apenas dividido entre eleitores de cidades pobres que votam em Haddad e eleitores de cidades ricas que votam em Bolsonaro. Mostrou também um país dividido entre quem defende direitos humanos e sociais mínimos e entre quem compactua com privilégios  históricos de classe, gênero, raça e orientação sexual e não aceita o diferente, beirando ao neo-fascismo.

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E nossa resposta deve ser a altura, uma frente de oposição a Bolsonaro e as forças conservadoras que seja mais do que reativa, ativa. Fortalecimento das pautas, dos movimentos sociais. Dos partidos de esquerda. No momento parece difícil acreditar na nossa capacidade de resistência e luta.. Mas a gente também luta existindo. O que não podem nos tirar são as esperanças de transformar a realidade em que vivemos. Ai terão vencido. Lutemos!

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Thaisa Torres Nunes é jovem, feminista e militante da esquerda do  Partido dos Trabalhadores

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19 comentários

  1. Para o Bolsa não importa que os operários ganhem cada vez menos

    Para o Bolsonaro não importa que os trabalhadores ganhem cada vez menos, não importa que os trabalhadores tenham cada vez menos direitos, importa que trabalhem e gerem riqueza para os patrões.

    Olha o que o Troglodita disse:

    “O trabalhador terá que escolher entre mais direito e menos emprego, ou menos direito e mais emprego”.

    Isso é um falso dilema, mas os Trouxas caíram.

    “Eu fui o único a votar contra [a PEC das Domésticas], para proteger. Muitas mulheres perderam o emprego pelo excesso desses direitos, inclusive”.

     

    Você pode levar o cavalo à fonte, mas não pode obrigá-lo a beber. Não foi falta de aviso.

  2. Como o partido que tem a

    Como o partido que tem a maior bancada na câmara, ainda ”não acabou ”?

       Sem dizer de 4 governadores eleitos.

         E com o candidato a presidente indo pro segundo turno.

           Quem acabou foi Marina,Geraldo e Lula–no sentido sonhar com a presidência.

  3. E precisamos todos rejuvenescer

    Velha Roupa Colorida

    (Belchior)

     

    Você não sente nem vê
    Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
    Que uma nova mudança em breve vai acontecer
    E o que há algum tempo era jovem novo
    Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer

    Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home”
    E meteu o pé na estrada, “Like a Rolling Stone…”
    Nunca mais eu convidei minha menina
    Para correr no meu carro…(loucura, chiclete e som)
    Nunca mais você saiu a rua em grupo reunido
    O dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor, quero cartaz

    No presente a mente, o corpo é diferente
    E o passado é uma roupa que não nos serve mais
    No presente a mente, o corpo é diferente
    E o passado é uma roupa que não nos serve mais

    Como Poe, poeta louco americano,
    Eu pergunto ao passarinho: “Black Bird, o que se faz?”
    Haven never haven never haven
    Black bird me responde
    Tudo já ficou atras
    Haven never haven never haven
    Assum-preto me responde
    O passado nunca mais

     

  4. Haddad por mais elegante e bem falante que seja, sem Lula não…

    Haddad por mais elegante e bem falante que seja, sem Lula não é nada.

    Parece que a “autodenominada esquerda” do PT esquece que o problema não é colocar alguém elegante e bem falante no comando do PT, o problema é lutar para que toda aquela série de conquistas que aparecem no início do texto sejam conservadas e na realidade Haddad não é o quadro para fazer isto.

    Estão tentando empurrar o Haddad guela a baixo na esquerda brasileira, mas no desenvolvimento da campanha se viu claramente que este quadro com a perda de tempo tentando atrair a direita para apopia-lo no segundo turno resultou num esforço inútil.

    Acomodações de cúpula, não servem para nada, pois NÃO EXISTE a chamada militância cativa do PT, há quadros burocráticos e por mais que a nossa autora, que tem uma formação acadêmica em termos de marketing, ache que política é uma questão de imagem e marketing e que colocar “novas lideranças” na direção partidária, é uma solução, engana-se a mesma, professores e estudantes antes de serem líderes até nas suas próprias categorias, não mostram nada de capacidade de mobilizar qualquer um.

    Quanto ao debate de segurança e corrupção, ficou claro que não existe nenhum grupo ou partido na oposição ao PT interessado em combater a insegurança e a corrupção, cair no falso discurso da Lava-jato, que simplesmente tirou a máscará na politização do seu herói, Sergio Moro. Por exemplo, jamais alguém levantou a voz contra a maior corrupção no Brasil que é a do oligopólio no sistema financeiro, ficam todos correndo atrás de ladrões de galinhas enquanto BILHÕES de lucros exorbitantes são obtidos por um sistema financeiro movido a grande corrupção, porém ninguém vai ver os bancos corrompendo os agentes do BC.

    Não é porque alguém se declara de esquerda do PT que alguém automaticamente seja de esquerda.

  5. Qual foi a atuação de Haddad no meio universitário?

    Quando se quer saber se alguém tem capacidade de liderança a primeira coisa a ser feita e verificar qual foi a atuação desta pessoa no seu próprio meio, e a dúvida que se deve levantar é o que foi Haddad como liderança sindical, social ou qualquer meio associativo no meio acadêmico. Cursos diversos, mestrados, doutorados e pós-doutorado não qualifica ninguém como liderança.

  6. Não é fácil lidar com a maldade

    “O Brasil avançou muito em direitos humanos e sociais. E ao avanço houve uma reação. É isso que significa a eleição de Bolsonaro”

    Essa afirmação é uma grande tolice que desmoraliza o post. É a velha dicotomia do bem e do mal atribuida à esquerda e especialmente àquela direita que não suporta ver os 20, 30 ou 40 milhões (escolha o nº) de brasileiros retirados da miséria pelo PT. 

    É possível que a causas sejam outras; o cansaço do eleitor, rotatividade necessária, gestão desastrosa de Dilma Rousseff, corrupção do PT, aparelhamento da Petrobras, uso do BNDES para criação de gigantes nacionais e emprestimos internacionais para financiamento de partidos e locupletação de políticos.

     

        • Dúvida ou ignorância?

          Não sei se você sabe que são 4 os principais estados do espírito perante a verdade: Ignorância, dúvida, opinião e certeza.

          Ignorar significa não saber, desconhecer. Se você não sabe responder, você não está na duvida, você ignora o assunto.

          Aproveita e pergunta aos universitários sobre os 4 estados do espírito perante a verdade a fim de que você não pague mico gratuitamente.

          Existir a que será que se destina?

          Da cajuína cristalina em Teresina

          Bééééééé!

    • A política do café com leite era rotatividade necessária?

      A política do café-com-leite foi um acordo firmado entre as oligarquias estaduais e o governo federal durante a República Velha para que os presidentes da República fossem escolhidos entre os políticos de São Paulo e Minas Gerais. Portanto, ora o presidente seria paulista, ora mineiro.

      https://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/politica-do-cafe-com-leite-acordo-marcou-a-republica-velha.htm

      Em time que tá ganhando não se mexe. O problema é que quando os trabalhadores deixam de perder os capitalistas deixam de ganhar. E aí, dependendo da correlação de forças, eles reagem caninamente para manter seus privilégios. Depõem ou matam presidentes por qualquer pretexto, como fizeram com a Dilma e com o Salvador Allende, respectivamente.

      Mas os lambe-sacos dos poderosos jamais reconheceriam isso.

    • Wilson,
      esses motivos podem

      Wilson,

      esses motivos podem explicar o porque do PT não ter sido eleito, mas não explicam a eleição de Bolsonaro, visto que eram 13 candidatos concorrendo a presidência. O bolsonarismo ganhou, não o anti-petismo.

  7. O maior desafio do PT
    Um dos maiores problemas do PT é que colaram na nossa testa a “CORRUPÇÃO”, sei que houve de tudo é mais um pouco para colar esta marca, mas é isto que ficou, é muito difícil fazer que eleitores mudem seu pensamento. O trabalho de reconquista de votos que já foram nossos, será difícil em curto prazo.
    O PT precisa ficar mais próximo ao seu eleitor, principalmente pelas mídias sociais, trabalhar para que nos sindicatos sejam presididos por pessoas que tenham ligações com o partido e assim aumentar nossos filiados, fortalecendo financeiramente o partido.
    Eu como eleitor do PT , desde a campanha Diretas JA, constato que é muito difícil se comunicar com o partido e seus políticos, já enviei diversos e-mails para deputados e Senadores é o único que me respondeu foi Paulo Paim.
    Envio mensagens pelo ZAP do Lula e sequer confirmam se leram a mensagem com simples OK. A imagem que PT me passa é de arrogância, não gosta de escutar seu eleitor. Há sim muito trabalho para fazer,e precisamos mudar sim.

  8. O maior desafio do PT
    Um dos maiores problemas do PT é que colaram na nossa testa a “CORRUPÇÃO”, sei que houve de tudo é mais um pouco para colar esta marca, mas é isto que ficou, é muito difícil fazer que eleitores mudem seu pensamento. O trabalho de reconquista de votos que já foram nossos, será difícil em curto prazo.
    O PT precisa ficar mais próximo ao seu eleitor, principalmente pelas mídias sociais, trabalhar para que nos sindicatos sejam presididos por pessoas que tenham ligações com o partido e assim aumentar nossos filiados, fortalecendo financeiramente o partido.
    Eu como eleitor do PT , desde a campanha Diretas JA, constato que é muito difícil se comunicar com o partido e seus políticos, já enviei diversos e-mails para deputados e Senadores é o único que me respondeu foi Paulo Paim.
    Envio mensagens pelo ZAP do Lula e sequer confirmam se leram a mensagem com simples OK. A imagem que PT me passa é de arrogância, não gosta de escutar seu eleitor. Há sim muito trabalho para fazer,e precisamos mudar sim.

  9. O maior desafio do PT
    Um dos maiores problemas do PT é que colaram na nossa testa a “CORRUPÇÃO”, sei que houve de tudo é mais um pouco para colar esta marca, mas é isto que ficou, é muito difícil fazer que eleitores mudem seu pensamento. O trabalho de reconquista de votos que já foram nossos, será difícil em curto prazo.
    O PT precisa ficar mais próximo ao seu eleitor, principalmente pelas mídias sociais, trabalhar para que nos sindicatos sejam presididos por pessoas que tenham ligações com o partido e assim aumentar nossos filiados, fortalecendo financeiramente o partido.
    Eu como eleitor do PT , desde a campanha Diretas JA, constato que é muito difícil se comunicar com o partido e seus políticos, já enviei diversos e-mails para deputados e Senadores é o único que me respondeu foi Paulo Paim.
    Envio mensagens pelo ZAP do Lula e sequer confirmam se leram a mensagem com simples OK. A imagem que PT me passa é de arrogância, não gosta de escutar seu eleitor. Há sim muito trabalho para fazer,e precisamos mudar sim.

  10. Pauta ausente
    Dois assuntos importantes que deveriam ter entrado nessa pauta, são:
    Redução da desigualdade de renda.
    Reforma tributária

  11. Viva o PT.

    Não morreu apesar das adversidades, ainda continua como mais expressiva agremiação de centro esquerda trabalhista brasileira.Que seja oposição à degradação de direitos dos cidadãos , do autoritarismo , de nossa degradação  civilizatória , sustentáculo de nossa soberania, indutor de nosso desenvolvimento .

  12. O PT se perdeu pela arrogância

    Acompanhei bem a evolução dos petistas pelos forum´s da internet desde a primeira eleição de Lula, e a transformação foi impressionante. De militantes idealistas e até meio porra-loucas, passaram a dogmáticos arrogantes tão logo experimentaram o gosto do poder e sentiram o cheiro da grana dos empreiteiros. Uma coisa que eu reparei desde o início das denúncias de corrupção, foi que os petistas raramente negavam as acusações. Preferiam afirmar que a corrupção era normal e necessária ao desenvolvimento.

    A amostra máxima dessa arrogância tem sido a afirmação, recorrente aqui nesse e em outros forum´s, de que o Brasil “só teve democracia durante os 14 anos do PT”. Aquele discurso, “Nunca antes neste país” etc etc. etc. Vamos ver se entendi. Se o eleitor vota no PT, é democracia. Se o eleitor não vota no PT, não é democracia. Essa mentalidade é uma herança da verve revolucionária que formou o PT, verve essa já abandonada na prática desde muito, mas ainda norteando os pensamentos e reações dos petistas. O revolucionário não se vê como um participante qualquer do jogo político, mas como um agente que está lá para mudar todas as regras e dar início a uma nova etapa supostamente limpa e isenta das imperfeições da etapa corrente. Por isso não aceita um não do eleitorado, pois a hipótese da maioria do povo não concordar com ele é, a prioiri, absurda. Pelo mesmo motivo, não se vê obrigado a submeter-se à legislação e à moral vigentes, pois a função do revolucionário é refazer tudo, inclusive a lei e a moral. Foi assim que os petistas deixaram escapar a bandeira da luta anti-corrupção, tão cara à população, que acabou monopolizada pela direita: afinal, segundo creem (ou criam até antes da queda) o combate à corrupção não passa de um preconceito burguês, moralismo simplório derivado da crença na inviolabilidade da propriedade privada, pois se roubar favorece a revolução, então roubar pode.

    Em meados da década passada, a república inaugurada pela constituição de 1988 parecia convergir para um bipartidarismo PT & PSDB. Mas o PT sempre manifestou um aversão tão intensa e tão difícil de explicar contra esse partido que é o mais assemelhado a ele próprio no espectro político nacional, que preferiu aliar-se às forças políticas mais reacionárias e venais do país. Ao invés da comodidade do bibartidarismo, aquele conhecido jogo de cena em que dois partidos se digladiam perante o público e se entendem nos bastidores, que poderia garantir uma longa permanência do PT no poder alternando com os tucanos, os petistas preferiram dar beijinhos em satanás. Na selva, o lógico é o coelho fazer aliança com a preá. Mas o coelho detestava tanto a preá que preferiu fazer aliança com a onça. Todo o mundo sabe o que acontece com coelho que faz aliança com onça, certo?

    Lula também se perdeu pela arrogãncia. Quando eclodiu o primeiro escândalo, aquele do mensalão, ele estava no auge do prestígio e poderia muito bem defender seus companheiros. Mas ao invés disso, renegou-os e lavou as mãos, porque achou muito bom que eles fossem liquidados e o deixassem sozinho no comando do partido. Agora está sozinho em uma cela.

    A história se repete: do idealismo à arrogância, da arrogâcia ao passo maior que as pernas, seguido pelo queda.

  13. Acho que o PT errou – e

    Acho que o PT errou – e continua errando – ao chamar para si a fama de “esquerda”. O PT é na prática o que o PSDB dizia – e continua dizendo – que quer ser: algo como “centro-esquerda” ou “por um estado de bem-estar social inclusivo”.

    O PSDB acabou revelendo-se, nos seus quadros mais expressivos, apenas mais um neoliberal privatista como tantos outros, como o partido do Bolsonaro (PSL), o tal de “Partido Novo” etc., mudando apenas no que eles mesmos chamam de “brand”. A ideia é inviabilizar o estado democrático sucateando-o e vendendo-o, e sabotar a independência do nosso país. Qual a diferença entre um amoêdo, um dória ou um alckmin e a turma de Moro e Bolsonaro? Eu não vejo nenhuma, todos esses, muito iguais, trabalham para nos manter colônia do dólar. Pobreza e burrice infinitas…

    Já o PT, firme de irritar no apoio às instituições democráticas – “se as instituições não estão funcionando é porque maus administradores as estão tocando e não porque instituições democráticas não funcionam” -, na tentativa de um jogo de ganha-ganha entre capital e trabalho e no estabelecimento de soberania nacional. Poucas vezes na história do nosso país fomos tão prestigiados, respeitados no cenário geopolítico mundial como quando o PT esteve à frente. Poucas vezes na nossa história empreendedores nacionais foram tão desobrigados a “pagar pau” para o dólar: outros enormes mercado se nos abriram e o mais legal: em igualdade de condições.

    Acho que o PT tinha que parar com essa bobagem de se dizer de esquerda e mostrar o que é mesmo.

    (***)

    Olha uma reportagem do OESP quando via o PT como ele realmente é, antes de embarcar nessa estupidez bolsonárica e privatista neoliberal de anti-petismo, “corrupção” e blá, blá, blá…

    https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,veja-os-principais-programas-sociais-do-governo-lula,130446

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