O que a autopercepção dos Estados Unidos expõe sobre a mentalidade branca no Brasil, por Camila Koenigstein

É fato, os Estados Unidos têm grande capacidade para se vender para o mundo, e pouca facilidade para solucionar suas desigualdades.

Foto Eric Baradat - AFP

O que a autopercepção dos Estados Unidos expõe sobre a mentalidade branca no Brasil.

por Camila Koenigstein

Mais de uma vez li que o mundo dos memes expõe verdades inconvenientes. Não muito próxima dessa realidade digital, comecei a ver alguns interessantes, um em especial me chamou a atenção Ele dizia: Se Estados Unidos visse o que está fazendo nos Estados Unidos, Estados Unidos invadiria Estados Unidos para libertar Estados Unidos da tirania de Estados Unidos.

É fato, os Estados Unidos têm grande capacidade para se vender para o mundo, e pouca facilidade para solucionar suas desigualdades. As mazelas sociais, racismo e contradições do seu modelo democrático estão cada vez mais expostos. O narcisismo, que sempre marcou a sociedade estadunidense, já não é suficiente para frear a decadência total do american way of life, que Donald Trump pensou que resgataria para sua população branca, mas a configuração de uma geopolítica mais complexa vem impossibilitando seus avanços, ainda mais no cenário caótico da pandemia.

O mito narcísico é tão profundo que somente 42% dos norte-americanos  têm passaporte,muitos não sabem localizar ou diferenciar os países que compõem América Latina, o que expõe, mais que a impossibilidade econômica de viajar, o desinteresse, medo do outro e crença na superioridade cultural e ideológica.

Casos similares ao de George Floyd passaram em diversas partes do planeta, em algumas das quais são perpetuadas a truculência, intolerância, racismo e xenofobia do governo dos EUA. O holofote, contudo, nunca está apontando para essa direção, exceto nos filmes produzidos pelos norte-americanos, em que os bandidos são sempre os outros.

O branco de classe média no Brasil pode ficar chocado com as imagens de um senhor completamente imobilizado e sendo assassinado, ao mesmo tempo em que segue questionando o comportamento de Miguel, menino de 5 anos que morreu enquanto sua mãe trabalhava,  e teve de deixá-lo aos cuidados da patroa.

A admiração pelo modelo de democracia e lutas por igualdade na sociedade dos Estados Unidos não vincula o país a forte histórico de intervenções militares e instauração de ditaduras em quase toda a América Latina e Caribe, além da violência desmedida contra imigrantes que habitam seu território, algo que é somente recordado pelos “velhos de esquerda” que segundo o governo norte americano defendem regimes ditatoriais e nada sabem sobre “democracia”.

Países como Iraque, Irã, Paquistão, Iêmen, Somália, Síria, Vietnã, Cuba, Panamá, Haiti, Nicarágua, Jamaica, Guatemala, Filipinas, República Dominicana, Guiana, Chile, Camboja, Angola e El Salvador são alguma das pátrias que sofreram o impacto do modelo de “bem viver” que os Estados Unidos tentaram implantar, que só gerou graves problemas estruturais. No entanto, nada sabemos, do que se passa nesses territórios, nada do que acontece dentro deles nos comove, sobretudo em um mundo conduzido pelo midiático, que decide e seleciona o que vende mais, que países, corpos, histórias e casos geram mais atenção.

A grande contradição é que o mesmo país que aplica violência fora de suas fronteiras, para salvar o mundo, mata seus próprios cidadãos. Um grande pai que sacrifica seus filhos em nome de uma idolatria baseada na pseudodemocracia e liberdade.

Conceitos que o Haiti exigiu entre 1791 e 1804. Em 1804, é declarada a independência haitiana, sendo a primeira república completamente negra do continente, liderada por uma rebelião de escravos. No entanto, quando se reflete sobre esses conceitos, os Estados Unidos surgem com força a França também, mas nunca o Haiti. Afinal, em qual filme passou esse fato?

Então o que aconteceu no Brasil para que mortes tão similares no país tivessem o distanciamento midiático? Como uma morte gera comoção mundial, enquanto fatos similares passados em solo brasileiro não obtém adesão total da classe artística e da sociedade civil branca? Como o racismo presente em todo o continente é naturalizado, mas quando se dá nos Estados Unidos o tema tem outros desdobramentos?

Após as manifestações geradas nos Estados Unidos, alguns periódicos estrangeiros começaram a alertar sobre a situação do negro no Brasil, ainda que de maneira tímida.

Hay, sin embargo, al menos un país latinoamericano donde la policía mata a muchos más afrodescendientes que en EE.UU., tanto en términos absolutos como proporcionalmente. “La situación en Brasil es mucho peor que en Estados Unidos”, le dice a BBC Mundo Rafael Alcadipani, profesor de la Fundación Getulio Vargas y miembro del Foro Brasileño de Seguridad Pública, FBSP. (BBC-ESPANHA)

O caso George Floyd gerou espaço na mídia em todo o mundo, e rapidamente os brancos se deram conta de que vidas negras importam, lançando campanhas via redes sociais de apoio à população negra. De um minuto para o outro, o branco viu o que há séculos nega: vidas negras importam. Mas, ainda assim, importam só quando os Estados Unidos dizem que importam mais uma vez o grande pai do continente manda!

O interessante é que houve uma comoção generalizada, porém a morte de Pedro Gonzaga, rapaz de 19 anos que morreu asfixiado por um segurança da rede de supermercados Extra, não fez o Brasil parar.

Dentro do contexto da pandemia houve um aumento de mortes nas favelas que apontam para a letalidade do Estado, algo pouco é dito.Como sabemos, são os corpos negros que recebem diretamente a violência estatal, até quando o assunto será diminuído?

Como sempre, a mídia recorda as mortes mais recentes, como a de João Pedro, 14 anos, morto quando a polícia disparou 70 tiros em direção à casa em que ele estava.

Assassinatos como de Claudia da Silva Ferreira, auxiliar de serviços que, em 16 de março de 2014, teve o corpo arrastado pela rua após o porta-malas da viatura em que estava se abrir, segue como um número mais, seu corpo frio deixou de gerar interesse. Os policiais envolvidos estão livres, nenhum deles foi julgado.

A completa dissociação do processo sócio-histórico colonialista, classista e excludente a que são expostas tanto a população negra quanto a indígena, permanece, mais uma vez expondo que para sociedade brasileira sempre cabe um questionamento sobre a morte de negros no Brasil, inclusive de crianças, mas quando se passa nos Estados Unidos o impacto é de total comoção lá, sim, seguramente foi racismo. O absurdo é que tal sentimento jamais poderia ser seletivo, é, inclusive escolhendo a parte do globo que mais merece atenção.

A grande maioria nunca saiu às ruas com coletivos negros, com mães negras que perderam seus filhos.O máximo de militânciaresume-se a uma hashtag e um quadrado preto – sim, um quadrado preto – como formas de expor total indignação, ainda que os brasileiros saibam que no seu país mortes e mais mortes são índices, números que após alguns dias são esquecidos, um esquecimento branco, seletivo e hipócrita.

Temos programas jornalísticos sensacionalistas que mostram todos os dias jovens negros sendo presos, com apresentadores dizendo: São marginais, é isso mesmo”. Não há um olhar mais sofisticado de todo o jornalismo sobre a maneira como são feitas essas prisões ou chacinas. E nós também não temos um apoio da comunidade branca que se envolva naquilo como se fosse problema dela. E não falo dos brancos conservadores, porque já sabemos qual é a deles. Falo dentro do próprio coletivo que é de esquerda, que tem um olhar humanitário sobre a sociedade, mas que diz “aquilo ali é problema do pessoal do movimento negro, eu não vou lá”. — Luciana da Cruz Brito, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB)

Guy Debord, na obra A Sociedade do Espetáculo, expõe aspectos que permitem tal movimento: “Toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se representação” (DEBORD, 1997: 13).Com isso, só podemos constatar que, para a sociedade branca brasileira aquilo que tem valor é televisionado, os grandes filmes produzidos por Hollywood, que tiram proveito da opressão que geram, através de uma catarse que diretores brancos fazem para expurgar seus demônios e do resto da sociedade branca, que jamais aceita o título de racista, embora nunca reconheçam seus privilégios, esse fato é a afirmação do abismo entre o discurso e o ato.

Mas, agora ficou mais fácil seguir esse modelo, pois, além de filmes, temos as redes sociais. Os ditos progressistas que apoiam todas as causas e causa nenhuma, mostram sua indignação mais rapidamente.

Na sociedade do espetáculo basta um apertar de botão para que nós, brancos, tenhamos a consciência limpinha.

Fontes:

https://brasil.elpais.com/brasil/2020-06-02/mortes-em-operacoes-policiais-aumentam-no-brasil-apesar-da-quarentena.html

https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-52911312

http://www.bocc.ubi.pt/pag/negrini-augusti-2013-legado-guy-debord.pdf

https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-42630748

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52932110

Camila Koenigstein. Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em  Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade d Buenos Aires (UBA).

 

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3 comentários

  1.  “La situación en Brasil es mucho peor que en Estados Unidos”
    Muito pior!
    Afinal, aqui não é só o policial branco que pratica atrocidades contra o cidadão negro.

    Aliás, dando desconto a descendência alemã que se fixou em determinadas regiões do sul e mantem seu feudo por ali, em que outras regiões do Brasil predominam pessoas da raça branca?
    Por oportuno, vale lembrar que o
    conceito de negro é definido pelo Estatuto da Igualdade Racial como:
    “O conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas, conforme o quesito cor ou raça usado pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ou que adotam autodefinição análoga.”
    (Pardos = descendente miscigenados)

  2. Cada vez mais eu entendo a importância de Marielle Franco e porque quiseram a morte dela. O papel dela no empoderamento dos negros, dos gays, dos favelados e oprimidos poderia ser um começo para uma nova história. Sua liderança seria um ponto de inflexão neste racismo estrutural e velado, aos poucos esta falta de auto estima, este conformismo com o poder bruto da polícia, milícia e tráfico seira desmanchado. Mataram ela pela liderança que ela representava, os opressores viram que tinham muito a perder.

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