O que os olhos veem, o coração sente?, por Ana Laura Prates Pacheco

Como se estivéssemos em um episódio da série Black Mirror, o que parece ter desfilado naquele evento foi a própria cegueira presente em nossa sociedade, cada vez mais afundada no pântano da paixão da ignorância, nada querendo saber sobre seu pecado original.

O que os olhos veem, o coração sente?

por Ana Laura Prates Pacheco

Fomos surpreendidos, essa semana, pela notícia da realização de um evento no dia 21/05, pela Comissão de Infância e Juventude (CIJ) da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Mato Grosso (OAB-MT) e a Associação Mato-grossense de Pesquisa e Apoio à Adoção (Ampara). No site da OAB do Mato Grosso, somos informados que se trata da segunda edição do desfile “Adoção na Passarela” no Pantanal Shopping de Cuiabá, e de que “o propósito é dar visibilidade a crianças e adolescentes que estão aptos para adoção no Estado. São menores de 4 a 17 anos”. A presidente da CIJ, Tatiane Ramalho afirma, dentre outras coisas, que “esperamos novamente dar visibilidade a essas crianças e a esses adolescentes que estão aptos para adoção. E, como sempre dizemos, o que os olhos veem, o coração sente”.

Várias entidades de direitos humanos e das crianças, bem como outros representantes de diversos segmentos da sociedade vieram a público manifestar sua indignação diante desse evento. Para além da flagrante violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente – como declarou a própria Defensoria pública do Mato Grosso –, muitas vozes denunciaram ainda, e com razão, aspectos como colocar as crianças numa posição de objetos e sua mercantilização.

Como Psicanalista, entretanto, me chamou a atenção o argumento de que “o coração sente o que os olhos veem”. Será? A frase faz uma clara alusão ao conhecido provérbio “o que os olhos não veem o coração não sente”, um dito popular que provavelmente se referia, originalmente, a situações de adultério, e que com o passar do tempo foi generalizado para qualquer situação diante da qual seja preferível “fechar os olhos” para não ter que entrar em contato com afetos dolorosos, conflituosos ou obscenos. Freud, que descobriu o inconsciente, desvelou a sexualidade infantil e inventou a Psicanálise, propôs que esse “fechar os olhos” é, na verdade, um tipo de negação. Lacan, alguns anos depois, revelou que se trata de um tipo de paixão – além do amor e do ódio, nossas velhas conhecidas – nomeada por ele de “paixão da ignorância”, ou seja, um obstinado “não querer saber nada” sobre o que nos provoca horror. Mas o que provoca horror sempre aponta para algo que chamamos de castração, e que simbolicamente tem a ver com nos depararmos com uma falta seja ela física, afetiva ou moral.

Foi na tragédia grega que Freud se inspirou para fazer essa articulação entre o olhar e o saber. Lembremos que no final de “Édipo Rei” de Sófocles, nosso herói fura os próprios olhos com o broche de Jocasta, até então sua esposa, ao revelar-se a verdade da qual tentou fugir durante toda sua vida. Édipo fora abandonado pelos pais Laio e Jocasta, pois o oráculo havia previsto que ele mataria o pai e se casaria com a mãe. Condenado ao infanticídio, ele foi salvo e adotado por um casal de camponeses. Anos depois, o jovem Édipo recebe a mesma previsão do oráculo, ou seja, que mataria o pai e se casaria com a mãe. Desesperado, foge de casa, julgando serem os pais adotivos aqueles a quem o oráculo se referia. Durante a viagem, envolve-se em uma briga na estrada e acaba por matar aquele que, sem saber, era Laio, seu verdadeiro pai. Chegando a Tebas, a terra que estava sem rei, é desafiado a desvendar o enigma da Esfinge, e por conseguir decifrá-lo, tem como recompensa casar-se com a rainha Jocasta e tornar-se o rei. Ele o faz “sem saber” que se tratava de sua verdadeira mãe.  Várias coisas acontecem até que ele descubra a verdade: que ele havia, “sem querer saber”, cumprido a profecia do oráculo. Freud descobre que, assim como todos nós, Édipo não queria ver o que estava embaixo do seu nariz, revelando que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Esse último provérbio contradiz o outro, e aponta para o fato de que o coração continua sentindo o que os olhos não veem. De fato, sabemos de cor (de coração) que a dor segue afetando o corpo mesmo quando a imagem falta. A experiência da psicanálise, portanto, implica em uma relação com o saber e o ver. Com a condição de que estejamos advertidos, entretanto, que nem tudo deve ser mostrado, pela simples razão de que nem tudo é visível. Daí a importância de, em seu ensino, Lacan ter destacado a função do véu do pudor, desde as mitologias antigas. Não se trata de um dilema moral, mas antes da ideia intrigante de que por detrás do véu na verdade há o nada, ou seja, aquilo que não tem imagem.

Na tragédia grega, lembremos que a decisão de Édipo de “não querer ver para o coração não sentir” teve consequências nefastas para Tebas e seus habitantes, que tampouco quiseram ver o que estava na cara. Com efeito, a polis (cidade) também é afetada pela ideia equivocada de que “o que os olhos não veem o coração não sente”. O problema da cegueira coletiva e de seu corolário, o que se pode saber, foi tratado de modo brilhante por José Saramago nos livros “Ensaio sobre a cegueira” e “Ensaio sobre a lucidez” nos quais a personagem da mulher do médico é a única a ver, e o que ela vê é a devastação e a agressividade que a civilização encobre. Ela, que é morta justamente por enxergar longe demais.

Voltando então ao caso do desfile “Adoção na passarela” e sua justificativa, encontramos uma curiosa inversão do dito popular na sentença: “o que os olhos veem o coração sente”. Mas, se como dissemos, o coração continua sentindo o que os olhos não veem, poderíamos inversamente perguntar o que realmente foi exposto de modo obsceno aos olhos dos expectadores do Pantanal Shopping, fazendo com que de fato muitos não tenham sido capazes de enxergar o que se expõe nessa bem intencionada iniciativa.

Como se procurou esclarecer na Nota divulgada pela OAB do MT no dia seguinte: “A falta de interessados na chamada “adoção tardia” faz com que seja urgente a adoção de medidas como a Semana da Adoção, que tornam público esse problema social. Conforme o Relatório de Dados Estatísticos do Cadastro Nacional de Adoção do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), 8,7 mil crianças e adolescentes aguardam por uma família”. Com efeito, os problemas em torno dos processos de adoção no Brasil, para além do excesso de burocracia são, sobretudo, problemas que refletem nossa flagrante desigualdade social.  Há ainda marcas profundas de aspectos da violência constitutiva de nosso laço social que ainda não foram superados. A proclamada miscigenação da sociedade brasileira não é fruto de um erotismo espontâneo, natural e sem conflitos. Ao contrário, historicamente, índios e negros, sobretudo mulheres e crianças foram desprovidos de cidadania e seus corpos tomados como objeto de exploração de toda sorte, inclusive sexual. Essa espécie de trauma fundante de nossa sociedade volta, com recorrência, e de modo especialmente notável nas questões relativas à infância.

A urgência em dar visibilidade e tratamento simbólico a esse problema, entretanto, não é o mesmo e não justifica expor crianças e adolescentes em uma passarela, em pleno templo do consumo que são os shoppings centers. Tentar equivaler a exposição de uma ferida tão profunda a um mimetismo de desfile de moda seria, no mínimo, de mau gosto. Mas o problema é bem mais grave. Por um lado, porque envolve a subjetividade daqueles que, assim como Édipo, estão às voltas com dilemas dramáticos de filiação e, portanto, de identidade, envolvendo afetos contraditórios e difíceis de lidar.  Por outro, o que esse evento revela é o sintoma de uma sociedade que, pela via do espetáculo, como diz Debord, expõe as crianças ao consumo ao mesmo tempo em que sua própria imagem passa a um lugar de erotização e mercadoria, em um processo que Jane Felipe de Souza chamou, em 2002 de “pedofilização”.

O mesmo falso moralismo que impede atualmente a educação sexual nas escolas e sonega à infância sua condição desejante, ao mesmo tempo incentiva sua espetacularização.  Os mesmos órgãos e entidades que, com a melhor das intenções, procuram proteger as crianças, as expõem sem pudor à lógica das cotações, como se a escolha por um filho fosse da ordem do “amor à primeira vista” na livre concorrência do mercado dos afetos.  Como se estivéssemos em um episódio da série Black Mirror, o que parece ter desfilado naquele evento foi a própria cegueira presente em nossa sociedade, cada vez mais afundada no pântano da paixão da ignorância, nada querendo saber sobre seu pecado original. Há casos em que os olhos veem o que o coração não sente.

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