O que separa o jornalista ingênuo do preguiçoso

do Observatório da Imprensa

LEITURAS DO ‘ESTADÃO’: O que separa o jornalista ingênuo do preguiçoso

Por Julio Ottoboni em 28/11/2013 na edição 774

O centenário Estado de S.Paulo deu uma barriga imensa. Publicada na quarta-feira (20/11) na editoria de “Economia & Negócios”, um dos espaços mais nobres do jornal, a matéria sob o título “‘Segredo para o sucesso é ambição e muito trabalho’, diz executivo” foi um festival de erros que devem ter facilitado em muito a vida de qualquer mal intencionado que conseguiu colocar a cara e o nome num dos baluartes da tida “grande imprensa”. Praticamente nada na reportagem era verídico, pelo visto somente o nome do indiano-brasileiro espertalhão. Endereços falsos, empresas inexistentes, negócios que só existem no universo imaginário (ver, neste Observatório, “Barriga em jornalismo também é ‘business’”).

O velho jornal acusou o golpe e buscou, enfim, apurar a história do indiano que está mais para o personagem do filme “Aventuras de Pi” que para o executivo cobiçado por todas as grandes corporações. Curvou-se, mas buscou uma saída digna. Refez a reportagem com alguns critérios até então não adotados, como apurar se eram ou não verdadeiras as informações. Um preceito básico no jornalismo em qualquer parte do mundo, pois o contrário seria ficção ou literatura.

Sob o título “Executivo retratado em reportagem é desmentido”, na edição de quarta-feira (27/11) o jornalão mordeu, mas não com o mesmo abocanho de tempos atrás. Mesmo veladamente, a prática do pecado capital da preguiça parece ter sido reconhecida e o vestuto Estadão acabou assumindo a protuberância abdominal jornalística e foi apurar, pelo menos, parte dos fatos – num mea culpa cada vez menos visto na imprensa. Ponto positivo, alguns quilos a menos na barriga. Diz a matéria:

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“Após a publicação da reportagem, no caderno ‘Fóruns Estadão Brasil Competitivo’, na última quinta-feira, porém, o Estado recebeu um e-mail com denúncias relativas à empresa e constatou uma série de inconsistências nas informações fornecidas pelo executivo”.

O que mostra que fonte sempre trata de seus interesses pessoais na abordagem de um assunto e que esses podem estar longe da verdade. Por isso, se apura. Não tem jeito: cerca-se o porco mesmo que este seja ensebado.

“Área nobre”

Descobriu-se então que o site da Nilla Business, até então uma empresa muito bem sucedida e sediada em Londres, gerenciadora de R$ 1 bilhão em ativos, com rede de restaurantes, uma linha aérea, 30 escolas de inglês, e que buscava oportunidades de negócios no Brasil, mantinha como endereço de sua sede um acanhado local no bairro da Lapa, em São Paulo. Lá se encontra uma simples empresa de jardinagem.

Entretanto, os endereços constantes como sendo de escritórios executivos em Londres, na Índia e em São José dos Campos, locais que também teriam sedes do complexo empresarial, foram deixados de lado – numa lógica um tanto tangencial à gravidade do caso, pois todos outros endereços também eram falsos ou só serviram de fachada. Bastaria uma breve pesquisa no Google para descobrir grandes, para não dizer imensas, incongruências informativas.

Mas o que intriga é a existência legal da Nilla Business. O jornal ainda deve essa explicação. Como se publica algo sobre uma empresa que ora é sediada em Londres, mas em seu site surgem endereços em São Paulo e no interior do estado, que dias depois das primeiras denúncias foi retirado do ar, numa clara demonstração de que o Taj Mahal construído especialmente para a reportagem era feito de cartas e ruiu no primeiro sopro? Ou melhor, espirro, pois nada ali cheirava bem.

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A chancela do Estadão ao falsário foi amenizada, mas o tempo apaga muita coisa e uma notícia mal apurada ou deturpada, principalmente no jornalismo impresso, ganha condição documental. A reação do jornal deveria vir para estraçalhar, muito próximo aos estragos feitos pela dentição de um mastim napolitano, mas preferiu-se a arcada dentária de um minipoodle. Mesmo o passado do executivo, que teria conseguido trabalhar em diversas grandes empresas com cargos de direção mesmo tendo 42 anos, deveria ser alvo de averiguação. Quem mente por pouco também mente por muito. É uma questão de índole.

Tanto que, como no poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, o fundador da Embraer e ex-ministro Ozires Silva, que não tinha entrado na história, acabou por surgir no site da Nilla Business como consultor e ficou furioso ao tomar conhecimento do caso, prometendo tomar providências legais contra a inclusão de seu nome no imbróglio.

O indicativo de que o travesseiro de penas foi rasgado ao vento veio no questionamento da reportagem ao próprio personagem da matéria:

“Sobre o fato de uma empresa que pretende atender grandes clientes corporativos estar sediada dentro de uma empresa de paisagismo, Bhaskar [Yelisetty Udaya Bhaskar] justifica que essa empresa ‘pertence ao grupo Nilla’. Diz também que a companhia em breve vai alugar uma sede própria, em uma área nobre de escritórios da capital”.

Então logo voltará a ser notícia, em algum desavisado veículo de comunicação, por ingenuidade ou preguiça. Ou, quem sabe, em páginas policiais.

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Júlio Ottoboni é jornalista e pós-graduado em jornalismo científico

 

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