O restaurante, por Lúcio Verçoza

Comer exige perícia, e quando sinto que a faca pode arranhar a superfície do prato, o meu coração vem à boca, como se meu pai estivesse me observando

Foto: Reprodução/Stuckert - enviada por Lúcio Verçoza

O restaurante

por Lúcio Verçoza

 

Com sua roupa branca de linho, com suas pernas elegantemente cruzadas, com seu cigarro que se movimentava dos lábios para a mão, ele me disse que iríamos ao restaurante. Naquele tempo o centro da cidade era a própria cidade. Saímos de casa, passamos pela Praça dos Martírios e descemos a pé pela calçada da Rua do Sol. O sol estava a pino. A roupa dele era branca, o branco do mais puro linho, e aquele homem que refletia o sol em seu rosto, era meu pai.

Entramos no restaurante. Pela primeira vez pisei em um restaurante. Cadeiras, mesas, pessoas conversando baixinho, um burburinho silencioso de quem conversa e olha ao redor. Sentamos a uma mesa. Um homem bem vestido logo entregou o cardápio para o meu pai. Eu não sabia o que era um cardápio, mas intuí do que se tratava. Não perguntei nada. Enquanto ele olhava o cardápio eu fingia naturalidade, como se eu sempre tivesse frequentado restaurantes. Não sei se notaram, mas tentei fingir certa naturalidade.

Durante os instantes em que meu pai lia o cardápio eu olhava para a sua testa, seus olhos estavam encobertos pela capa de couro marrom que guardava o papel do cardápio. Olhava para a sua testa como quem enxergava seus olhos. Depois criei coragem e mirei os detalhes da superfície da capa de couro do cardápio, as quinas tinham bonitos desenhos dourados. Ensaiei olhar para a mesa do lado, mas me senti constrangido. Então me voltei para o garçom, que com a espinha ereta aguardava o pedido. – Dois bifes à milanesa, um copo de limonada e um refrigerante.

Depois que o garçom se afastou, meu pai se dirigiu a mim com um olhar penetrante: – Garfo, faca e prato não são instrumentos musicais. Ele já havia dito isso para mim e meus irmãos em casa, no entanto nunca o vi falar com tamanha seriedade. Não me recordo se ele conversou algo comigo enquanto aguardávamos a comida, porém lembro que eu só pensava em não fazer barulho quando chegasse o prato, não queria desapontar o meu pai, desejava que ele se orgulhasse do modo como eu manejava os talheres – garfo com a mão esquerda e faca com a mão direita –, de como eu me portava educadamente no restaurante. Porém não sabia se eu era capaz.

O garçom trouxe o bife, dois pratos feitos. Esperei meu pai colocar o primeiro pedaço na boca.  Em seguida toquei no talher, uma gota de suor desceu pela lateral da minha testa, escorreu pelo pescoço e mergulhou no caminho da minha axila esquerda. Pensei que talvez fosse melhor largar o talher e tomar um gole de refrigerante, mas não sabia se isso era falta de educação. Então segui com o talher em direção ao bife à milanesa. A sensação era de que todo o restaurante me observava, se a faca riscasse o prato, se a carne caísse do garfo, se eu mastigasse de boca aberta, sentiria a vergonha maior do mundo. A vergonha dos olhares de reprovação e do desapontamento do meu pai.

O bife não era dos mais macios e, para o meu azar, a faca encontrou um nervo. Movimentei o talher sem tocar o esmalte do prato. Suavemente, cortava o primeiro pedaço, tentando encontrar a velocidade e a intensidade ideais do gesto. Para a minha sorte, na época meus dentes eram pequenos, assim conseguia fechar bem a boca na hora em que mastigava. No meio do bife me senti mais à vontade, todavia a minha mão ainda deveria estar gelada, como na primeira vez em que fui ao cinema com uma garota.

Desde então, meus dentes de leite caíram, os definitivos cresceram, alguns ficaram gastos e mesmo assim continuo me alimentando sem tocar os talheres no prato. Comer é algo que exige perícia, e quando sinto que a faca pode arranhar a superfície do prato, o meu coração vem à boca, como se meu pai ainda estivesse me observando, como se o restaurante parasse para me dirigir o olhar de condenação. Para minha sorte, agora consigo fingir bem certa naturalidade. Disfarço, finjo que meu coração não acelerou, e prossigo a refeição mastigando com a boca fechada e cortando a carne com movimentos suaves e graciosos.

 

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4 comentários

  1. Belo texto. Aberto a diferentes leituras… Lembra-me da minha infância, bem no início dos anos 60. “Menino, não coloque os cotovelos na mesa…”. Depois, vieram, e com suas razões, os anos de contestação. E, muito depois, a descoberta que havia, naquele feixe de normas complexas e contraditórias, certo sentido civilizatório, a ser pensado…

  2. O Horror, o horror, o horror

    Sou do tempo em que pai, mãe e filhos faziam ao menos duas refeições diárias juntos, o almoço e o jantar. E as correções de postura à mesa eram inevitáveis e recorrentes.

    Minha mãe invocava Marcelino de Carvalho, dia sim outro também, onde tinha sido educada [ Marcelino de Carvalho (São Paulo, 1905 – 1978), como era conhecido Antônio Marcelino de Carvalho, foi jornalista, escritor, cronista e um mestre de etiqueta nos anos de 1950, tendo seus livros permanecido clássicos nas décadas seguintes].

    Éramos preparados para não dar vexame na casa dos amigos dos pais, mostrar que “tínhamos recebido educação em casa”, que nossa mãe era zelosa e atenta para com a formação dos filhos. Um filho relapso à mesa, era uma prova de desleixo dos pais. Quer dizer, da mãe. Em viagens, éramos postos à prova, refeições em restaurantes eram um ritual. Isso nos idos dos 1960.

    A faca, ah a faca. Sempre que empunhávamos a maldita faca, vinha o questionamento implacável da minha mãe: “Por que a faca, vai pra guerra?”Olha os cotovelos na mesa”. Faca era pra cortar o bife, se houvesse. Fora isso, era pra ser mantida ao lado do prato, intacta. Imaculada. Virgem. Faca somente para aquilo que não pudesse ser partido com o garfo.

    A geração que aprendeu empunhar talheres à mesa está praticamente extinta, restam poucos exemplares, todos acima dos 60. Os demais, aprenderam a empunhar talheres nas praças de alimentação dos shoppings, sem a presença dos pais, esses chatos. E não conseguem comer sem faca, mesmo que seja uma lasanha. Ou um risoto. São produtos do seu tempo (deles). Degeneração dos costumes.

    Havia um rito. Havia um gesto. Havia uma etiqueta. Foi tudo por água abaixo, junto com o país, ralo abaixo.

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