O Senado, os aplicativos e o universo político dos táxis, por Luis Nassif

 
Assim como outras capitais nordestinas, Maceió é uma cidade assolada pela crise. Ao longo da Avenida Durval de Goes Monteiro, que liga o aeroporto há mais estabelecimentos fechados que abertos, universidades, construtoras, lojas.
 
Parte dos desempregados encontrou trabalho nos aplicativos de carro, tipo Uber. Há de 8 mil a 9 mil licenciados, dos quais um grupo menor, entre 3 mil a 4 mil, em atividade.
 
Dentre eles, contadores, engenheiros, fisioterapeutas, advogados, aguardando a decisão do Senado sobre os aplicativos de veículos.
 
O mercado paralelo de táxis é pesado em Maceió e nas demais cidades. Há limites para a ampliação das licenças. Em geral, são monopolizadas por políticos. Até a entrada dos aplicativos, embora seja proibida a transferência, as licenças chegavam a ser negociadas por R$ 150 mil. Com a entrada dos aplicativos, a cotação caiu para R$ 30 mil.
 
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Mais que isso, a praça é dominada por donos de frotas. A diária sai por R$ 130,00 para os taxistas que, além disso, tem que se responsabilizar pelo abastecimento do veículo. Com a entrada dos aplicativos, criou-se um mercado fornecedor de automóveis, cobrando diárias de R$ 50,00.
 
Com os R$ 130,00 dia, ou R$ 2.600 mês, levando em conta os dias úteis, ou R$ 3.900 considerando os dias corridos. Com prestação de R$ 2.600 por mês, em um prazo de 24 meses, seria possível adquirir um veículo de valor superior a R$ 50 mil.
 
Com a economia proporcionada pelos aplicativos, muitos taxistas trocaram as frotas por carros, alugados ou adquiridos.
 
Por outro lado, houve um barateamento sensível nas tarifas de táxis. Uma corrida do aeroporto até a cidade pode ficar em R$ 80,00 no táxi comum, e em R$ 45,00 no aplicativos.
 
Agora, estão todos aguardando a definição do Senado.
 
Hoje em dia há 7 mil licenças de táxi em Maceió. No ano passado, a Câmara congelou por 20 anos novas autorizações, mas deixou uma cota de 500 para o prefeito aprovar. Se passar o projeto de lei no Senado, caberá à Prefeitura licenciar também os carros dos aplicativos. Se for aprovada, as 500 novas licenças certamente já terão donos. E não serão taxistas independentes.
 

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26 comentários

  1. Adilson não sei do que, é um

    Adilson não sei do que, é um vereador de SP.

    Ele é contra Uber, Ser despachante é mera coincidência.

    Como é que um cara pode ser contra um meio de transporte que cobra a metade do preço e ainda por cima te atende maravilhosamente ?

    Eu não sei.Pegunta pro Adilson não sei do que.

      • Ele é de direita mas nao é bem 1 troll e é cadastrado Vc é troll

        Ele é uma espécie de troll, mas é membro antigo daqui, e trolleia por prazer. Vc é provavelmente pago. Nao é cadastrado, nunca apareceu por aqui antes, entrou neste post, e no outro sobre o Uber, junto com uma nuvem de outros nao cadastrados (ou talvez o mesmo com vários nomes) p/ defender o Uber. Vá se catar!

  2. A triste realidade brasileira que o golpe construiu

    O Uber, que lá fora representa a precarização do trabalhador, aqui representa uma opção de trabalho um pouco menos infame.

    • O pior é que nao. Aqui representa a mesma precarizaçao…

      Que os taxistas auxiliares sao explorados nao é novidade nenhuma. Mas a soluçao p/ isso nao é “distribuir a exploraçao”, permitindo que, além dos donos de frotas, tb o Uber e os aplicativos explorem os motoristas… A soluçao é proibir a terceirizaçao, fazendo que uma pessoa só possa ter uma concessao de táxis, e nao possa terceirizar, ou no máximo um auxiliar por concessao. Com isso nao haveria mais esses problemas indicados pelo Nassif. Usar a exploraçao dos taxistas p/ argumentar a favor de algo que os ferra ainda mais é revoltante. É como dizer que os escravos eram explorados pelos donos de fazenda, e aí justificar que fossem exportados, ou vendidos p/ outros donos.

      Uber é coisa de classe média que quer levar vantagem em tudo. E que nao tem visao de longo prazo. O Uber está arrasando com os taxistas. Quando nao houver mais taxistas, ou muito poucos, acham que a tarifa do Uber continuará mais barata? Eles já cobram tarifa diferenciada em horas de rush, e sempre que há procura maior. E nao serao as prefeituras a regular a tarifa, mas a própria empresa que lucra com o serviço. Raposa tomando conta do galinheiro. Além disso, nao têm obrigaçao de ter seguro para os passageiros, se há um acidente o usuário se ferra.

      Sem falar no modelo de precarizaçao de trabalho, na concorrência desleal, no fato do dinheiro nao ficar no Brasil, etc. Problemas éticos, mas a classe média nao se importa com isso.

       

      • Eu também sou a favor do ideal

        Mas se o que temos é o possível eu sou a favor do possível.

        Veja os dados do artigo: os motoristas conseguiram desconto de 62% no insumo básico diária do carro, valor este que pode cair ainda mais se ao invés de alugarem, financiarem o automóvel.

        Em troca, tiveram que dar um desconto de 43% aos clientes em função do aumento de oferta.

        O grosso da renda total do mercado de aluguel de carro com motoristas ia pros proprietários de placa de táxi. Agora foi redistribuído para uma multidão de motoristas.

        Em troca o Uber fatura uma comissão, mas ela é bem menos gorda do que a que os proprietários de placa cobravam.

        • Vc gostaria de ceder 50% do seu salário p/ poder trabalhar?

          Claro que há quem tope, o desespero está grande. Mas os escravos tb eram alimentados, tinham casa e comida… É uma exploraçao imensa. O dono de frota ao menos arcava com a compra do carro — a diária p/ quem tinha carro era muito menor, era só pela concessao. O uberista é dono do carro, ou paga aluguel por ele, além da comissao paga ao Uber e do desconto na tarifa. É esse o modelo de precarizaçao do trabalho que querem implantar aqui no país, os empregadores nao aparecerem como os empregadores que sao, nao terem nenhuma obrigaçao para com os empregados, que serao “pequenos empresários”, que arcam com todos os custos mas, mesmo assim, estao sujeitos às regras do empregador e pagam comissao a eles… Ora, ora…

        • Viver de bico

          Nada como resolver um problema (menor) com uma solução que cria um problema muito maior. Na linguagem popular, é matar a vaca para acabar com o berne. O sistema de transportes nas cidades é um grave problema. Fato. O sistema de táxi é precário e corrupto em quase todas as cidades. Fato. Acabe-se com o táxi e entregue o sistema a uma transnacional virtual, que ela tomará conta do sistema por nossa conta. Simples assim. Isso é o que nossa classe média, média na renda, pobre nos argumentos, centrada unicamente na satisfação de seus próximos cliques no celular, quer fazer. O que o Uber está fazendo com seus “colaboradores” (como é engraçado esse termo!!!!) é permitir que eles …. vivam de bico. Nada mais antigo para um trabalhador que isso. É praticamente um regime de servidão, no qual o trabalhador paga para ter acesso aos usuários do sistema de táxi. 

          Se essa é forma que a esquerda neoliberal propõe para sairmos da crise economica, melhor, quem sabe, a reforma de temer, que minimamente garante direitos ultraprecários ao trabalhador. Não se esqueça: hoje são os taxistas; amanhã podem ser os trabalhadores do setor público federal da AGU, que podem ser trocados por horas de prestação de serviço de alguém que está desempregado e quer fazer um bico para melhorar sua renda. Por que não?  

  3. Essa disputa já acabou e o

    Essa disputa já acabou e o táxi já perdeu. Pode até não ser o Uber (como era mesmo o nome daquele programa que baixava música no computador e acabou com a indústria fonográfica, lá nos idos de 2000, 2001?), mas a tampa já foi aberta e não dá mais pra fechar. Máquina de escrever, máquina de costura, tudo passa, tudo sempre passará. E mais, o AirBnB vai acabar com a indústria hoteleira, o Netflix vai acabar com a indústria audiovisual, e uma longa lista de etc. Viva o capitalismo.

    FIM

  4. Uber
    Boa tarde, somos uma nação que temos direitos e deveres, ou seja LEIS, e se algo acontece de errado, em qualquer segmento, órgão etc., buscamos na justiça para que seja corrigido, mesmo sabendo que em nosso país a justiça é falha, note, estou mencionado “justiça” e não “leis”. Problemas existem, em todos os países do mundo, em qualquer setor, profissão, etc., seja no governo ou na iniciativa privada.

    O que não podemos aceitar, é que uma empresa de fora se instale em nosso país e não queira seguir as Leis.
    Qualquer empresa que quer operar em um país que não seja o seu é tem se adequar as normas, leis, os costumes etc., do país que ela for operar.

    Por tanto o que está sendo proposto é a REGULARIZAÇÃO, e não o FIM dos Apps.

    Essa concorrência por parte dos Apps é no mínimo predatória.

  5. Uber
    Boa tarde, somos uma nação que temos direitos e deveres, ou seja LEIS, e se algo acontece de errado, em qualquer segmento, órgão etc., buscamos na justiça para que seja corrigido, mesmo sabendo que em nosso país a justiça é falha, note, estou mencionado “justiça” e não “leis”. Problemas existem, em todos os países do mundo, em qualquer setor, profissão, etc., seja no governo ou na iniciativa privada.

    O que não podemos aceitar, é que uma empresa de fora se instale em nosso país e não queira seguir as Leis.
    Qualquer empresa que quer operar em um país que não seja o seu é tem se adequar as normas, leis, os costumes etc., do país que ela for operar.

    Por tanto o que está sendo proposto é a REGULARIZAÇÃO, e não o FIM dos Apps.

    Essa concorrência por parte dos Apps é no mínimo predatória.

  6. Isso são desculpas
    Isso são desculpas esfarrapadas para mais uma pirataria que são esses carros com aplicativos,o dono dessa idéia está milhonario enquanto os taxistas que tem o direito de exercer a função de transporte de passageiros,tiveram prejuízos financeiros incalculáveis.
    Safadeza.

  7.   
    Marcelo Zero: Capitalismo

      

    Marcelo Zero: Capitalismo acima da democracia esfola o trabalhador

    26 de outubro de 2017 às 23p8
    http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/capitalismo-acima-da-democracia-esfola-o-trabalhador.html
     

    Kapitalismus Über Demokratie (capitalismo acima da democracia)

    por Marcelo Zero, especial para o Viomundo

    O debate relativo ao aplicativo Uber, atualmente restrito a um embate entre taxistas e os motoristas precarizados dessa empresa de serviços, coloca algumas questões mais amplas e relevantes sobre o atual estágio e os novos mecanismos da acumulação capitalista no mundo e sua incompatibilidade última com a democracia substantiva.

    Com efeito, o tema do Uber e dos problemas legais por ele ocasionados em todo o mundo inserem-se na questão maior da mal chamada “economia do compartilhamento” ou da “sociedade em redes”.

    Os defensores desse tipo de economia argumentam que ela aumenta a eficiência da utilização dos recursos e da mão de obra, diminui custos e preços e permite que indivíduos, consumidores ou provedores de serviços, cooperem livremente em benefícios de todos.

    De fato, a internet tornou tecnicamente possível a constituição de uma sociedade em rede e de uma economia de compartilhamento cooperativo.

    No início, essa possibilidade de ampla cooperação em rede acarretada pela universalização da internet permitiu o surgimento de empreendimentos que têm como características a cooperação “horizontal” em prol do bem público.

    Um exemplo é a Wikipedia, uma enciclopédia pública, de acesso gratuito, que é construída e disponibilizada de modo inteiramente cooperativo.

    Outro exemplo tange à disponibilização dos softwares livres, como o Linux suas variantes, uma alternativa gratuita e cooperativa ao oligopólio exercido por gigantes como Microsoft e Apple.

    Tal potencial gerou a certa visão romântica e panglossiana desse tipo de “nova economia”.

    Alguns autores, como Jeremy Rifkin, vincularam essa potencial abundância cooperativa trazida pela revolução digital ao próprio “fim do capitalismo”.

    A economia do compartilhamento, segundo ele, exprimiria a capacidade humana de cooperação, não apenas entre pessoas que se conhecem, num círculo limitado por laços de parentesco e amizade, mas de forma anônima, impessoal e massificada, num quadro de igualitarismo.

    A internet poderia ser, assim, um instrumento de superação dos princípios econômicos do capitalismo e de superação da dicotomia capital-trabalho.

    Entretanto, essa visão romântica da internet como instrumento democrático e supostamente socializante e da economia de compartilhamento por ela proporcionada não ficou restrita à atividade econômica.

    Ela também se expandiu ao campo social e político.

    Com efeito, na década de 1990 o boom da internet nos países mais desenvolvidos, notadamente nos EUA, suscitou a esperança de que a rede mundial de computadores, um espaço em tese neutro e democrático, propiciaria a todos os cidadãos oportunidades únicas e homogêneas para informa-se, formar-se e cooperar ativamente. São dessa época, note-se, os principais escritos de Manuel Castells sobre a sociedade em redes.

    Chegou-se a argumentar que a internet e as “sociedades em redes” poderiam ser um sucedâneo à representação política tradicional e aos partidos, configurando uma nova democracia direta, mais radical, ágil e participativa, baseada em relações “horizontais e não hierarquizadas”.

    Desse modo, a internet, a sociedade em redes e a economia do compartilhamento chegaram a ser consideradas, no plano utópico, como alternativas ao capitalismo (especialmente ao capitalismo oligopolizado), ao sistema tradicional de representação política e às formas antigas de sociabilidade.

    Não obstante, com o passar do tempo foi ficando claro, para outros pensadores da rede e do mundo digital, que a internet está muito longe de ser um espaço efetivamente livre e democrático.

    Obras como Who Controls The Internet? de Tim Wu e Jack Goldsmith, The Net Delusion, de Evgeny Morosov e, sobretudo, The Digital Disconnect: How Capitalism is Turning The Internet Against Democracy, de Robert McChesney, compõem uma visão mais realista e sombria da internet e de suas redes.

    Essa última obra, em particular, demonstra como o mundo da internet é principalmente dominado pelos interesses de grandes companhias, que efetivamente moldam a rede mundial de computadores.

    Com efeito, essas grandes companhias, com suas tecnologias proprietárias e seu imenso poder de produzir e controlar informações, transformam a internet numa grande plataforma de afirmação crescente de seus interesses próprios e particulares, em detrimento, muitas vezes, do interesse público.

    Para quem tinha dúvidas desse domínio, a experiência malsucedida do Napster demonstrou cabalmente que quaisquer tentativas de se sobrepor aos interesses comerciais dominantes na rede serão devidamente contidas.

    Mas não se trata somente de interesses comerciais e econômicos. Há também os interesses políticos.

    As chocantes denúncias de Edward Snowden revelaram ao mundo que as grandes companhias que controlam o fluxo de informações da internet, como Google, Microsoft, Apple, Facebook, Yahoo etc. contribuem ativamente, através do sistema de espionagem PRISM, controlado pela NSA norte-americana, para transformar a internet numa gigantesca plataforma de controle político.

    Nenhum cidadão do mundo que esteja conectado à rede está livre desse sistema ubíquo e bastante invasivo de espionagem, que devassa e-mails, ligações telefônicas, mensagens de texto, arquivos e postagens nas redes sociais.

    Tudo isso, diga-se de passagem, é feito ao abrigo das leis norte-americanas e, como o grosso do fluxo de informações da internet passa por servidores que estão nos EUA, torna-se praticamente impossível contestar juridicamente essas atividades.

    As denúncias de Snowden também revelaram a possibilidade, e talvez até a alta probabilidade, de que os fluxos internacionais de informações da rede mundial possam não apenas ser devassados, mas também eventualmente manipulados.

    De fato, há viabilidade técnica para tais procedimentos. Em razão dessas denúncias, cresce no Brasil e no mundo as pressões para que a internet, um patrimônio utilizado por toda a humanidade, possa ser submetido a um controle multilateral e democrático, e não mais ao controle das grandes companhias de software e de um único governo.

    No que tange especificamente à possibilidade “libertadora” da “economia de compartilhamento”, como alternativa à economia capitalista, ela foi inteiramente erodida com o surgimento das chamadas “empresas-plataforma”, ou empresas de tecnologia e software que acabam oligopolizando a prestação de alguns serviços.

    O livro do economista britânico-canadense Tom Slee intitulado What´s Yours is Mine –Against the Sharing Economy, traduzido para o português como “Uberização: a nova onda do trabalho precarizado”, demonstra como a ideia utópica do compartilhamento cooperativo cedeu lugar ao seu exato oposto: a distopia de um hipercapitalismo desregulado.

    Muito longe de exprimir a cooperação direta e igualitária entre indivíduos, o suposto compartilhamento, argumenta Slee, deu lugar à formação de gigantes corporativos cujo funcionamento é regido por “algoritmos opacos” que em nada se aproximam da utopia cooperativista estampada em suas versões originais.

    Sob a retórica do compartilhamento escondem-se a acumulação de fortunas impressionantes, a erosão de muitas comunidades, a precarização do trabalho e o consumismo.

    A Uber, por exemplo, tem hoje um valor de mercado de US$ 70 bilhões, superior ao da Ford ou da General Motors.

    O suposto compartilhamento e a prometida reciprocidade acabaram se convertendo na oferta generalizada de trabalhos mal pagos e sem qualquer segurança previdenciária.

    Ressalte-se que, no atual quadro de crise crônica e profunda e num ambiente em que os sindicatos estão cada vez mais fracos, com os direitos trabalhistas sendo aniquilados, inclusive no Brasil, os resultados, no mercado de trabalho, são devastadores.

    Conforme afirma bem o sociólogo Ricardo Abramovay no prefácio à edição brasileira da obra de Tom Slee, este livro

    é uma importante denúncia contra o cinismo dos que se apresentam ao grande público como promotores da cooperação social e do uso parcimonioso dos recursos, mas que na verdade estão entre os mais importantes vetores da concentração de renda, da desregulamentação generalizada e da perda de autonomia dos indivíduos e das comunidades no mundo atual.

    São empresas que se apresentam publicamente como empresas de tecnologia, que apenas disponibilizam softwares cooperativos, mas que, a bem da verdade, são gigantes multinacionais de prestação de serviços, em diversos campos estratégicos.

    E seus supostos “parceiros autônomos” são, isto sim, meros empregados sem salários fixos, sem garantias e sem direitos.

    Uma escravidão tecnológica, mais perversa que a tradicional, pois se camufla em suposta autonomia e liberdade escolha.

    Na realidade, essas grandes empresas capitalistas tornaram a “economia do compartilhamento” uma completa falácia e estão produzindo, no nosso entendimento, as seguintes consequências negativas nos Estados nacionais em que atuam:

    a) Uma hiperconcentração do provimento de serviços, com a oligopolização transnacional de vários setores.

    Ao contrário do que se diz, não há concorrência real entre essas empresas, pois a empresa pioneira e líder em geral destrói os outros empreendimentos, numa dinâmica conhecida como o “vencedor ganha tudo”.

    b) Uma desregulamentação que impede ou dificulta o efetivo controle dessas empresas transacionais por parte do poder público, como o exemplo da Uber demonstra cabalmente.

    c) Uma desnacionalização do setor de serviços, que passa a ser controlado pelos interesses dessas transacionais desreguladas.

    d) Uma profunda precarização do mercado de trabalho, com redução de direitos e dos rendimentos, ocultada e mascarada pelo discurso falacioso da cooperação, do compartilhamento e dos “parceiros”.

    e) A implosão dos compromissos e regras assumidos no Acordo sobre Comércio de Serviços da OMC, pois a desregulamentação implícita dessas empresas transnacionais abre totalmente o mercado de serviços dos Estados Nacionais, independentemente do disposto no texto desse ato internacional.

    Assim sendo, a falaciosa “economia do compartilhamento”, materializada na Uber, AirBnb e várias outras transnacionais, longe de ser “alternativa ao capitalismo”, se constitui em forma perversa e dissimulada de hiperexploração da mão de obra em nível mundial, numa conjuntura em que a crise planetária impõe taxas de lucro descomunais e a fragilização dos trabalhadores.

    Ao mesmo tempo, ela erode a capacidade do poder público de regulamentar serviços e desnacionaliza segmentos inteiros desse setor econômico estratégico, o que mais cresce na economia internacional.

    O debate atual sobre a empresa Uber, muito contaminado pelos interesses imediatos dos taxistas e dos motoristas precarizados, deveria ser inserido nesse contexto maior de uma ampla discussão sobre a “uberização” da economia internacional e seus efeitos sobre a economia e a sociedade brasileiras.

    Tal “uberização” não tem efeitos apenas sobre ao mercado de trabalho, mas também sobre a soberania nacional e o controle público dos serviços.

    Portanto, ela demandaria a implantação de uma política destinada a enfrentar os seus amplos efeitos negativos, para além da mera regulamentação dos serviços do Uber.

    Tanto McChesney quanto Tom Slee têm razão. A internet vem se convertendo celeremente num instrumento poderoso de domínio econômico e político de um hipercapitalismo ultraconcentrador e desregulado.

    Trata-se de uma rede inteiramente dominada e conduzida por grandes empresas internacionais, as quais controlam a sua linguagem (os softwares e os aplicativos), as informações circulantes e suas transações econômicas.

    Com efeito, a ubiquidade da rede mundial possibilita e estimula a constituição de enormes e virtuais megaempresas transnacionais que perpassam fronteiras, destroem direitos trabalhistas, evadem controles de Estados nacionais, sonegam impostos e reduzem cidadãos a consumidores e trabalhadores regulares a mão de obra precarizada e barata.

    Ao mesmo tempo, as redes mundiais de informática facilitam a constituição de um capitalismo financeiro mundial, que evade qualquer controle democrático e dita políticas econômicas “obrigatórias”, independentemente das escolhas políticas feitas pelos cidadãos em eleições, o que torna inócuos os sistemas de representação.

    De outro lado, ela também permite que EUA e aliados exerçam vigilância sobre praticamente todos que estejam conectados às redes e realizem intervenções políticas difusas em qualquer parte do planeta, manipulando informações e as redes sociais com o objetivo de desestabilizar regimes pouco amigáveis aos seus interesses.

    Cada vez mais autores, como Picketty, por exemplo, vêm chamando a atenção para a incompatibilidade última entre esse hipercapitalismo financeirizado, desregulado e crescentemente desigual e excludente e a democracia real.

    A acumulação capitalista desregulada, “uberizada”, financeirizada e ultraneoliberal de hoje prescinde dos ideais iluministas que a legitimaram em seu início.

    O capitalismo atual prescinde também do ideário e das políticas da social-democracia tradicional, que criaram e afirmaram direitos sociais e econômicos e geraram o moderno Estado de Bem-Estar, como forma de dar sustentabilidade econômica, política e social a um sistema inerentemente instável e excludente.

    A acumulação capitalista crescentemente desregulada prescinde até da política e viceja em regimes formalmente democráticos, mas que não permitem escolhas reais aos eleitores e cidadãos.

    Tudo é dado pelas “escolhas técnicas” da “austeridade imprescindível” e das “leis” naturais do mercado controlado pelas finanças mundializadas.

    Kapitalismus über alles (capitalismo acima de tudo) parece ser o lema de um mundo pós-democrático, no qual a verdadeira democracia não passa, como no mito de Platão, de sombra de um ideal distante e esquecido.

    Nestes tristes trópicos, onde a realidade é mais crua e dura, a implantação do hipercapitalismo transnacional e da pós-democracia se faz com base em golpe, açoite e corrupção.

    A escravidão e a desigualdade, que historicamente conformaram o Brasil, agora retornam, tecnológica e politicamente renovadas, de braços dados com a modernidade pós-democrática e o ultraneoliberalismo econômico, às vezes legitimadas por simples portarias.

    A única solução seria restaurar, com urgência, antes que o Brasil seja totalmente destruído, a soberania popular.

    Mas, se a estratégia perversa das oligarquias funcionar, e Lula for excluído do próximo pleito, teremos, em 2018, a primeira eleição pós-democrática do Brasil.

    Uma eleição no qual inexoravelmente se escolherá mais um Temer, mais uma figura descartável, que apenas dará continuidade ao avassalador avanço do “capitalismo acima de tudo”.

    Teremos, de forma definitiva, um Brasil “uberizado”.

     

    • Contraponto interessante

      É um contraponto muito interessante, embora mais abrangente. Tina lido, no viomundo e me preparava para copiar e colar aqui. Parabéns pela iniciativa. O Nassif deveria elevar esse artigo a post, pois ele aborda não apenas a questão dos apliactivos em sí mas toda a questão das sociedades em rede, tambem dita de sociedades compartilhdas. 

      Vale a leitura.

      Cliquei nas 5 estrelas, mas não foi.

      Ah, meu filho está ralando na Uber e 99 com um carro que comprei para trabalharmos juntos e que infelizmente não pude começar porque quebrei o pé (calcanho e tornozelo) e estou me recuperando. 

    • Vale a primeira página do

      Vale a primeira página do GGN.

      Muito bem fazem alguns países, como a China, em optar por algum tipo de controle da internet.

      O Brasil queimando etapas, do século XIX direto ao XXI, ou seja, da escravidão para a escravidão, com muito pouco ou quase nada no meio, menos do que o mínimo de contraste para consolidar alguma consciência.

      Nestes tristes trópicos, onde a realidade é mais crua e dura, a implantação do hipercapitalismo transnacional e da pós-democracia…

      A internet foi e continua sendo mais uma ilusão a sonhar a derrocada ou transcendência do capitalismo. Quem transita por aqui somos nós: brasileiros, austríacos, zimbabweanos, noruegueses, russos e indianos; todos com as entranhas formadas dentro desse modelo. Pior para nós, tupiniquins, tão influenciados pelo povo que mais e melhor introjetou essa visão de mundo, o estadunidense.

      O capitalismo só desaba mesmo por dentro, pela educação que inverta e debilite os seus valores; o egoísmo/narcisismo e o utilitarismo, dois dos seus maiores pilares. O monstro interno é renitente, por muito pouco é incitado a se manifestar; a simples e unilateral modificação das condições externas, como mostra a história, não é suficiente. 

       

    • transporte….

      ALELUIA !!! ALELUIA !!! Finalmente se elevam as discussões. Liberdade, Liberdade…Abra as asas sobre Nós…”Chegamos finalmente ao X da questão. O fim da Escravidão, das Capitanias Hereditárias, da “Cosa Nostra” por todo o Brasil dona das licenças, dos alvarás, da sua vida. No Aeroporto Internacional de SP, na cidade de Guarulhos, a licença de táxi para trabalhar no Terminal chegou a custar até 1 milhão de reais (R$ 1.000.000,00). Os aplicativos não só deram liberdade para Trabalhadores. Deram liberdade para a Sociedade. Deram condições para a população andar de carro com ar condicionado ao invés de ônibus lotado e demorado. Pena que novamente através de pressão internacional, a qual estes serviços se originam. E não pela pressão da Sociedade Brasileira. A Sociedade Brasileira deve quebrar grilhões. Mas a Imprensa finalmente começa a atacar a podridão do Poder longe do Povo. É incrível, mas um simples táxi é um grande exemplo.

  8. Não consegui enxergar nenhuma

    Não consegui enxergar nenhuma preocupação com o taxista autônomo, que apostou sangue, suor e lágrimas, para comprar uma licença, gastos anuais com aferimento de taxímetro, alvarás de funcionamento, pinturas ou envelopamentos compulsórios, etc. Ouso dizer que no Brasil afora, incluindo não apenas os que circulam nas vias de acesso aos aeroportos das capitais turísticas, são maioria. Tais taxistas autônomos, adequaram-se às exigências das concessões dos poderes públicos municipais e seus custos e agora enfrentam a concorrência desleal do Uber e outros aplicativos. Se o livre mercado pode libertar os indivíduos dos grilhões dos monopólios, cartéis, etc, porque não falamos de uma uberização das concessões de rádios e tvs no Brasil?

  9. App de transporte é sintoma do problema

    Aliás, a rigor, a terceirização das licenças de táxi também é sintoma do problema.

    O problema, que ninguém quer encarar de frente, é que as cidades não apenas estão cada vez piores na mobilidade urbana, mas também não há nenhuma perspectiva de melhora.

    No Brasil, então, a coisa está ficando trágica: os sistemas de transporte de massa nas grandes cidades são piadas de mau gosto, TODAS as novas concessões de ônibus pioraram muito a mobilidade do usuário especialmente fora dos horários de pico, não há uma cidade em que as concessões de táxi estejam longe do que seria necessário para atender à demanda e por aí vai.

  10. O que eu sei é que logo, logo

    O que eu sei é que logo, logo vai ter muito engenheiro, principalmente, e outros profissionais pendurando seus diplomas no retrovisor do carro que dirige pelo UBER, porque a destruição da economia nacional vai levar junto os empregos. Bate panela, bate!

  11. UBER PLC28
    Senhores senadores
    Sou Marcos Bujes Ex Taxista do Aeroporto internacional Guarulhos a sete anos, hoje trabalho nos Uber 99 Cabify.
    Sou totalmente contra a PLC 28
    Diga não PLC 28

  12. Bola fora do PT

    Não sou contra que aplicativos sejam regulados, afinal eles devem pagar impostos como quaisquer outras empresas. Mas é inegável que a chegada deles no mercado permitiu que milhares de pessoas em todo o Brasil tivessem acesso a transporte mais barato e com melhor atendimento. Tradicionalmente, serviços de táxi têm prestado serviços caros e de baixa qualidade, e é uma pena que o PT lidere uma campanha que dificulte e muito a vida dos motoristas particulares que prestam esse serviço. Se os motoristas do Uber são “explorados”, por que o PT nunca questionou os milhares de taxistas que tem que pagar diária para rodar com um táxi diariamente? Hoje, tais motoristas tem a opção de auferir renda similar com menores custos.

    Nesse contexto, se os usuários estão satisfeitos com a possibilidade de escolher serviços de aplicativos e muitos motoristas têm alternativas para prestar os seus serviços, infelizmente, o PT se alinha com os poucos permissionários de táxi espalhados pelo país, numa proposta que vai drenar dinheiro da população para essa categoria. Uma verdadeira bola fora do partido.

    Que as empresas sejam reguladas, paguem seus impostos, que as prefeituras flexibilizem e diminuam o custo das suas licenças, mas que a população que hoje pode pagar menos não venha a pagar mais!!!

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