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O sentido do diálogo em tempos de luta, por Renato Santos de Souza

O sentido do diálogo em tempos de luta

por Renato Santos de Souza

Outro dia assisti a um destes experimentos sociais que pululam na internet. Um casal homossexual foi colocado em um banco de praça e instruídos, os dois, a fazerem manifestações mútuas de afeto, indiferentes ao fato de estarem em uma via pública. Um ator ficava por perto recriminando-os, e instigando os passantes com frases como “isto é uma vergonha, você não acha?”. O objetivo foi testar a reação das pessoas, sem que elas soubessem que era uma encenação nem que estavam sendo filmadas. A maioria dos que foram filmados recriminou a recriminação, com frases como, “deixe eles em paz”, “eles têm o mesmo direito que você”, ou “se você está incomodado, que se retire”.

Apesar de demonstrar que muito mais pessoas do que se imagina são capazes de se importar e se indignar contra o preconceito, o ponto alto do experimento, para mim, ocorreu quando uma senhora, das mais combativas contra a discriminação homofóbica que estava sendo encenada ali, ao ser parabenizada pela equipe de produção e pelo ator, emocionada e orgulhosa da sua atitude, pediu para que ligassem para a sua filha, que vivia acusando-a de homofobia, e relatassem o seu feito: “Eu não sou homofóbica!”, afirmava ela.

O “eu não sou” homofóbica era uma tentativa de afirmação do seu “ser”. No fundo, o que ela reivindicava era o direito de não ser definida de forma arbitrária pela própria filha, em função dos vocábulos e conceitos que criamos e dispomos para definir o “ser” humano. Basicamente, porque eles só admitem respostas binárias: do tipo zero ou um, ser ou não ser. Ser ou não ser homofóbico, ser ou não ser xenófobo, ser ou não ser machista, ser ou não ser comunista, e assim por diante.

Esta não é uma limitação do “ser” humano, que em sua totalidade e generalidade, por certo é mais variegado, complexo, ambíguo, contraditório e incerto do que isto. Trata-se de uma limitação da linguagem.

Isto não é diferente de outras armadilhas linguísticas que nos são colocadas, verdadeiras cascas de banana na luta incessante que travamos, interna e externamente, para afirmar a nossa presença no mundo: para “ser” alguém. A exemplo da interrogação que o meu professor do antigo OSPB fazia para cada aluno no primeiro semestre da faculdade de Agronomia, no final dos anos 80: “você é capitalista ou comunista?”, questão que, aliás, tem sido refeita atualmente, espantosamente, como se as visões de mundo fossem um supermercado e só houvesse duas marcas a escolher. Dane-se a subjetividade…

À época, quando todos tinham posições firmes, eu respondi que não sabia, algo que num ambiente já povoado de certezas transmitia ignorância ou hesitação. E talvez fosse mesmo, afinal, eu já era frontalmente crítico da desumanidade capitalista de antanho, mas também não me satisfaziam os regimes autoritários do comunismo real, tal como me pareciam. Hoje vejo que responder àquela indagação é dividir toda a experiência de governança humana da sociedade em dois lados, é ver o mundo em preto e branco. É ter que colocar do mesmo lado o Chile de Pinochet, experiência neoliberal da Escola de Chicago de Milton Friedman, os EUA de Reagan e do Consenso de Whashington, e os sistemas de garantias sociais e individuais de Dinamarca, Suécia e Finlândia. E do outro experiências tão distintas como as de Cuba, da Albânia, Coréia do Norte e URSS.

A experiência humana real não se subdivide assim, em dois lados. Só o arbítrio pode fazer isto. E de fato, além do arbítrio intelectual que foi fazer repousar toda a variedade da experiência histórica humana numa categoria teórica ideal como o “modo de produção”, quem dividiu o mundo real entre capitalismo e socialismo foi o arbítrio de dois grandes impérios, EUA e URSS, que impuseram suas hegemonias onde puderam, sufocando tanto quanto possível toda e qualquer experiência social local. Então, toda a divisão estanque da experiência humana é arbitrária e autoritária.

Nossa linguagem, porém, mesmo com o fim da Guerra Fria, incorporou a arbitrariedade teórica e da luta destes dois impérios ao vocabulário corrente, e continua a definir o complexo, variegado, ambíguo e contraditório “ser” humano desta mesma forma, numa violência linguística não muito diferente daquela que faziam as duas grandes potências com bombas e fuzis.

Nietzsche disse certa vez, no Crepúsculo dos Ídolos, algo que eu repito como um mantra: “não nos estimamos mais o bastante, quando nos conhecemos. Nossas vivências mais próprias não são nada tagarelas. Não poderiam comunicar-se, se quisessem. É porque lhes falta a palavra. Quando temos palavras para algo, também já o ultrapassamos”.

Mais, em Sobre Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral, disse que “todo o conceito nasce por igualação do não igual. Assim como é certo que nunca uma folha é inteiramente igual à outra, é certo que o conceito de folha é formado por arbitrário abandono dessas diferenças individuais, por um esquecer-se do que é distintivo, e desperta então a representação, como se na natureza além das folhas houvesse algo que fosse ‘folha’”.

Ou ainda, em Reflexões de um Inatual, disse também que “tudo que se torna consciente justamente com isso se torna raso, ralo, relativamente estúpido, geral, signo, marca de rebanho, que, com todo o tornar-se consciente, está associada uma grande e radical corrupção, falsificação, superficialização e generalização”.

Por isto, para ele, a linguagem, as palavras, os conceitos e a própria consciência são obstáculos ao conhecimento do mundo e do “ser”, não um meio para chegar até eles. São, antes disso, instrumentos de interação e de ação sobre o mundo.

Esta mensagem é o contrário do “conhecimento vos libertará!”. Não, o conhecimento vos tornará prisioneiros no mundo farsesco da linguagem.

Levo isso como advertência toda vez que me aproximo de usar a flecha das palavras para definir o “ser” de alguém, sua genuína essência, sua verdade própria, o sentido transcendente da sua presença no mundo. Por suas próprias limitações, toda a vez que a linguagem é usada para firmar sentenças ela comete uma violência, no mais das vezes comparável àquela que ela mesma pretende corrigir ou combater.

Aliás, existe mesmo um mantra budista que diz, repetidamente: “vá além dos conceitos” (e eu o ouvi de uma monja no templo budista de Três Coroas neste inverno), numa declaração de que, para muitas tradições orientais, conceitos, palavras e ao final a própria consciência e a razão, são insuficientes para conhecermos o mundo e a nós mesmos.

A filosofia chinesa, por exemplo – sobretudo o Taoísmo -, supõe que o mundo das ideias, das abstrações teóricas e das palavras não são suficientes para abarcar a complexidade, a integralidade e a completude da realidade do mundo.

Dentre outras coisas, é por isto que a figura do sábio chinês não está associada nem ao conhecimento racional, nem ao uso hábil das palavras. “É melhor não saber que se sabe”, disse Lao Tzu, fundador do Taoísmo; e mais, “o sábio prossegue com sua vida sem atuar e dá seus ensinamentos sem empregar palavras”.

É por isto também que a língua chinesa é das mais difíceis do mundo. Nela, as palavras têm uma noção muito mais complexa e diversa que a nossa, e a consecução das frases não é dada apenas por regras gramaticais, mas também pela emoção contida nelas. A palavra, para eles, não é apenas um símbolo com um conceito claramente definido, mas um símbolo com forte poder sugestivo, que carrega consigo e expressa quando pronunciado, complexos de imagens e emoções indeterminadas. E uma mesma palavra dita de diferentes formas, pode conter inúmeros significados, quase impossíveis de serem dicionarizados, assim como uma mesma sentença ou palavra como um simples “eu te amo” pode ser dita de dezenas de formas diferentes e com vocábulos diferentes, conforme a intenção e o contexto da fala.

Sendo assim, imagina-se que todas as traduções para as línguas ocidentais da filosofia chinesa são, por definição, incompletas e precárias, porque reduzi-las a vocábulos escritos, e ao nosso vocabulário principalmente, corrompe irremediavelmente o seu conteúdo.

Michel Foucault revelou no prefácio de As Palavras e as Coisas, que aquele livro nascera da estupefação causada por uma peculiar taxonomia dos seres encontrada em uma enciclopédia chinesa, trazida à luz num dos textos de Jorge Luis Borges. Aquela classificação era algo simplesmente impossível de ser pensado para quem tem, como ele afirmou, a nossa idade e a nossa geografia.

Bem, como o mundo e os seres que nele existem não cabem nas palavras, então as palavras criam seus próprios mundos e seres.

A tônica destes enunciados é que devemos ter parcimônia em relação às nossas próprias verdades, pois elas são um rascunho muito particular, impreciso, parcial e talvez mesmo falso do que é o mundo, do que são os outros e do que somos nós.

Aqui neste pedaço de ocidente em que vivemos, ao contrário, usamos a extrema simplificação das palavras para definir cabalmente a realidade e os outros.

Em particular, na radicalidade da luta política atual, para satisfazer nossa necessidade de encontrar uma posição facilmente inteligível para nós, para nos abrigarmos do ataque alheio e para estarmos na companhia confortável dos nossos iguais (mesmo que só o sejam pela arbitrariedade de nossas próprias definições), seguimos o caminho fácil do “ser” binário: somos direita ou esquerda, neoliberal ou comunista, homofóbico ou não, xenófobo ou não, racista ou não, feminista ou machista, coxinha ou petralha, facistóide ou esquerdopata. Fazemos isto, obviamente, também com os inimigos, os adversários, os que estão do outro lado, sem o que poderíamos nos tornar perigosamente empáticos, e na luta política, empatia é muitas vezes confundida com fraqueza ou vacilação.

Transformamos vocábulos que no máximo representam posições polares, em um recurso binário que divide com um único muro todo o espectro variegado de seres que povoam e se estendem ao longo deste complexo campo humano. Por vezes isto ocorre dentro do mesmo lado, e pessoas são, com isso, empurradas a assumirem posições que não querem e a tornarem-se o que não são.

Assim, produzimos um mundo de seres coagidos pela linguagem e fissurados pelas palavras, como esculturas quebradas que, colando os cacos, só mantém íntegras as próprias sombras.

Esta tem sido a pior de nossas misérias nestes tempos lúgubres: perdemos a condição do diálogo, única possibilidade de corrigir as limitações e arbitrariedades da linguagem para nós, seres racionais, ocidentais e falantes que, diferentemente dos sábios orientais, não conseguem viver sem atuar nem ensinar ou aprender sem empregar palavras.

Por isto é que eu reafirmo o diálogo sempre que possível, mesmo com quem me parece indialogável. Mesmo que o diálogo seja duro e amargo como o Boldo, mas que, também como ele, permite corrigir o que nos atormenta e reduzir a violência do que digerimos mal.

A linguagem só alcança suas possibilidades humanas quando usada para a interação dos seres, através do diálogo. E o diálogo é sempre um encontro entre diferentes, uma vez que a identidade é só uma imposição arbitrária da cultura, da consciência e da própria linguagem. Como disse Nietzsche, não existe “a folha” para além das variadas folhas que colorem a natureza.

E o diálogo é a única possibilidade de alargar e corrigir os limites das palavras, dos conceitos, das categorias que criamos, dos significados socialmente construídos e fixados nos dicionários e nos livros teóricos. Fazendo circular sentidos e significados, o diálogo corrige não só a arbitrariedade das palavras como também as limitações da pessoa, de suas visões de mundo, do outro, de si própria e do efeito de suas interações humanas.

A palavra que dá voltas, que se acrescenta de sujeitos e predicados novos a cada rodada de conversa, que complexifica o objeto a cada fala, que ressemantiza o problema a cada proposição, que ora se afasta ora se encontra com o interlocutor, enfim, que redemoinha o mundo, os fenômenos e os seres à sua volta tentando abrangê-los à exaustão, esta é a única palavra que mantém vivos os seus próprios propósitos: o de servir à interação humana, de possibilitar a vida em sociedade e de promover o nosso próprio aprimoramento enquanto seres sociais.

Esta é a única possibilidade que ela tem, e não fosse para isto a linguagem seria a mais nefasta de todas as armas.

Por isso, enquanto houver diálogo continuarei acreditando na humanidade, quando ele se for totalmente, inclusive entre os que dizem estar do mesmo lado, fugirei para as montanhas.

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