O silêncio dos homens precede o bocejo das mulheres, ai, que preguiça, por Mariana Nassif

O machismo vem promovendo machucados e feridas que variam de intensidade em vítimas que são, em sistema epidêmico, mulheres.

O silêncio dos homens precede o bocejo das mulheres, ai, que preguiça

por Mariana Nassif

O texto estrá atrasado, mas não mais o que a reflexão proposta pelo documentário.

O Silêncio dos Homens foi lançado em Agosto de 2019 em uma ação que, pelo que entendi, foi coordenada nacionalmente e pressupunha a exibição do filme e uma roda de conversa com os presentes.

Pra quem quiser ver, tem aqui.

De fato importante, até e especialmente para registro histórico do tardio movimento de uma suposta ruptura no tal código de silêncio que permeia o universo masculino. O tom impresso aqui, no meu texto-crítica sobe o filme, é muito mais de canseira/preguiça do que desconfiança. Acho importante, sim, o começo de qualquer movimento, mas creio ainda mais na continuidade e benefícios trazidos pelas mudanças e, vamos lá, são mais de 100 anos de atraso, reparo histórico vai ser o documentário que apresenta dados de queda em feminicídio. Pre-gui-ça, eye-rolling em três emojis, bêjo.

O machismo vem promovendo machucados e feridas que variam de intensidade em vítimas que são, em sistema epidêmico, mulheres. Dando um passo no espectro, mulheres negras. Meninas. Meninas e meninos. Os números, artifício bastante usado do doc., são e permanecem assustadores.

Nós, as mulheres, realmente esperamos mais de vocês, muito mais, do que uma abertura de diálogo. Até porque também nos acostumamos com a dinâmica machista de escutar o que agrada e, na prática, a coisa ser bem diferente. Então, queridos, corram. Façam. Falem, se quiserem. Elaborem seus dramas, seus medos, suas agonias, mas suportem o fardo. É o que fazemos via feminismo, rotineiramente. Estamos feridas sim, mas também exaustas e a descoberta de que o sistema machista também machuca os homens não nos cura, nem à sociedade. Então, a vontade que dá é de perguntar “mas jura que você só percebeu agora?”. Pre-gui-ça.

É tempo de agir. Agir mais e melhor, com mais amplitude, com todas as mulheres e não apenas com as “suas”. Porque este é um outro fator que muito me assustou no filme: o gatilho para a tal mudança no pensamento masculino se dá perante a paternidade, quer dizer, perante uma mulher grávida. Ouvi dizer que, no Brasil, são mais de 1,1 milhão de lares chefiados exclusivamente por mulheres cuja criação dos filhos também é exclusiva e 5,5 milhões de pessoas sem o nome do pai nos documentos de identidade.

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Essa, talvez, seja a crítica mais dura e cheia de interrogações que carrego: porque o “estalo” acontece perante uma mulher grávida? Quer dizer, se o gatilho do bonito não disparar, mantem-se a bizarra estatística: mais uma mulher abandonada com filho pra criar. Haja silêncio.

Respiro. Almejo os ventos da mudança e me coloco de prontidão – armas em punho, filha de guerreira que sou. Revejo o filme, converso com os caras que conduziram a apresentação pro aqui – as entrevistas virão, estava decantando raiva, mágoa e dúvidas, pois é. Entendo, sem encerrar as reflexões, que muitas das ações machistas rotineiras seriam erradicadas se o diálogo do homem começasse nele mesmo, ainda que silenciado externamente, olhando para o presente. Sim, são séculos de hábitos tóxicos e nocivos, mas realmente: empatia é uma coisa, seguir na barca da trouxa é outra.

Melhorem, apenas. Façam o barulho que quiserem pra falar do silêncio de vocês, e não se esqueçam do compromisso de apresentar, também estatisticamente, os impactos coletivos desses passos enormes na transformação cultural do macho. Como terapeuta, sugiro, de novo, que suportem o fardo, as desconfianças, os apontamentos. Mudar dói, dói pra todo mundo. Ego é um troço esquisito, complexo mesmo de lidar. Terapia acompanha melhor do que batata frita, sério, e pega bem com a mulherada (ironia, subterfúgio que ainda não consegui trabalhar quando brava). Alterar padrões dá trabalho, mas depois melhora. E deve melhorar pra todo mundo, não só pra sua mulher, pra sua filha: pra mim e pra minha também. Pra você, inclusive. O movimento contínuo de saída conduta machista é, sem dúvida, um enorme pilar na evolução dessa existência porquê, como bem diria o Pequeno Príncipe, aqui olhado sob o prisma da preguiça e cansaço desse mimimi todo, “devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras”.