O tempo, o implacável, o que virá, por Ricardo Cavalcanti-Schiel

(Comentário ao post “Contra diálogo, FHC está no lado errado da História, por Paulo Moreira Leite“)

“El tiempo, el implacable, el que pasó,
Siempre una huella triste nos dejó,
¡Qué violento cimiento se forjó!
Llevaremos sus marcas imborrables.

Aferrarse a las cosas detenidas
Es ausentarse un poco de la vida.
La vida que es tan corta al parecer
Cuando se han hecho cosas sin querer.”

(Pablo Milanés)

O problema de certos analistas é o de lerem a política com os olhos do desejo, e não com os olhos da racionalidade da própria política.

Em 2003 eu estava fazendo trabalho de campo na Bolívia quando eclodiu a “guerra do gás”, que viria a defenestrar o presidente neoliberal Gonzalo Sánchez de Lozada em outubro. Lá por setembro, o governo Lula enviou o Marco Aurélio Garcia como emissário, que chegou à Bolívia defendendo que as partes em conflito sentassem para conversar. A primeira coisa que eu pensei ao ouvir isso pela rádio Erbol, em uma comunidade quechua no meio dos Andes, foi: o “conciliacionismo” do Lula perdeu o juízo. Será que eles não percebem que qualquer momento de conversar por aqui já passou há muito tempo? o momento agora é de confrontação, e qualquer saída para essa crise só vai pôr seus termos na mesa após essa confrontação.

Parece que o “conciliacionismo” só se pauta pela conveniência própria, jamais pelos pesos e medidas da dinâmica política.
Em artigo hoje no Página 12, de Buenos Aires, nosso indefectível Eric Nepomuceno lembra que em dezembro de 2013, voltando do funeral de Mandela na África do Sul, FHC teria sugerido a Lula e Dilma abrir um diálogo político, ao que Lula reagiu dizendo que naquele momento o que lhe interessava era ganhar as eleições no ano seguinte. Agora seria a vez de FHC responder aos dois: “no gracias”.

O que a resposta de FHC revela não é que ele simplesmente se tornou um anão mesquinho e que ele simplesmente está “do lado errado da história”, como quer Paulo Moreira Leite, no 247. O que ela revela é que o tempo de uma possível pactação já passou.

Como os ouvidos de Lula, Dilma, seu ministério e o PT entraram em colapso para ouvir as mensagens políticas desde, pelo menos, as manifestações de junho de 2013, eles agora parecem não perceber que o tempo está se esgotando rapidamente para a sua sobrevivência política.

E com isso seguem em vôo cego, implacável, como se cumprissem o roteiro de uma tragédia grega, aquela que, segundo Aristóteles, se caracteriza tão apenas pelo encadeamento implacável dos fatos em direção a um destino do qual todos os atos dos personagens só fazem confirmar. A tragédia caracteriza-se por esse mergulho cego no incontornável, e não, simplesmente, na irrupção fortuita da fatalidade.

Em outro artigo reproduzido aqui no blog, Marcos Nobre argumenta que o grande fenômeno político dos dias que passam é a sobreposição do tempo do Judiciário sobre o timing da política partidária e eleitoral. Talvez. Talvez isso seja apenas uma questão de escala, porque o tempo da política está dizendo que, com 62,8% de aprovação popular, entramos agora, definitivamente, na agenda do impeachment.

O que este tempo nos põe agora é a expectativa para as manifestações de 16 de agosto, para o anúncio do parecer do TCU… Não adianta mais desejar que as coisas não sejam assim! Não adianta mais brandir todo o juridiquês do mundo para dizer que não haverá impeachment. É a possibilidade mesma do impeachment que está dada como fato político a se construir. Já não é mais tempo de retórica. Ou se trabalha com a política e com o arsenal que ela dispõe, ou o fato estará consumado.

O problema é que Dilma, seu ministério, Lula e o PT já não têm mais arsenal nem exércitos. Perderam-nos ao abandonarem qualquer vislumbre de programa de governo e embarcarem na canoa quebrada da duvidosa panaceia do ajuste fiscal. Perderam-nos ao traírem seus melhores combatentes imediatamente após as eleições. Eles só contam com um punhado de burocratas acomodados, obtusos e míopes, que se bastam em reiterar seus mantras enquanto o terremoto consome o solo aos seus pés.

Diante desse tempo implacável, ou só o inusitado salva seus pescoços ou caminharão todos, tragicamente, ofuscados por suas verdades e desejos resplandecentes, para o abismo que não conseguem enxergar.

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18 comentários

  1. Festival de idiotices

    O mais “desejoso” comentarista deste blog escreve, como sempre, um texto absurdo e sem nenhuma base fática, apenas, como ele diz condenar, com desejos e com premonições dignas de uma mãe Dinah de quinta categoria. 

     

    O futurólogo reacionário prediz que o impeachment é inevitável! Ou seja, recomenda que todos os seres viventes da face da terra, aqui em Pindorama, conformem-se com a inevitabilidade do evento golpista! Uau, mas que ser ‘revolucionário’, não?

     

    Não há nada a se fazer, o destino está traçado. Não há nada a se fazer, a queda de Dilma está definitivamente traçada. Esse tipo de futurologia fatalista é obra e graça de charlatães, de vigaristas e de impostores, nada mais do que isto. 

     

    Para haver um impeachment é necessário que haja um fato que justifique o mesmo. E este fato não existe. O futurólogo cita o TCU, mas como o charlatanismo do texto é uma constante, ele não diz – talvez porque não saiba – que uma decisão do TCU não quer dizer rigorosa e absolutamente nada. 

     

    O TCU não é um órgão judiciário, não é um dos três poderes da república e é apenas um órgão de assessoria do poder legislativo. A aprovação ou reprovação das contas de um presidente da república, pelo TCU, não quer dizer absolutamente nada. Só e somente o Congresso Nacional é que tem o poder de aprovar ou reprovar as contas de um presidente, podendo inclusive jogar na lata de lixo qualquer avaliação feita pelo TCU.

     

    Mais do que isto, se o Congresso reprovar as contas de 2014, o que é apenas uma hipótese, visto que o TCU sequer analisou a questão e a mesma, por óbvio, sequer chegou ao Congresso, isto não quer dizer que de forma automática se pode fazer um processo de impeachment. 

     

    E mesmo se os golpistas quiserem levar adiante o golpe do impeachment, o governo pode ir para o STF contestando o TCU e a própria admissibilidade de um pedido de impeachment com base numa reprovação de contas. 

     

    E mesmo se perder no STF, o governo sabe (e os golpistas também) que para se levar adiante um processo de impeachment é necessário que a Câmara dos Deputados aprove o mesmo com o voto de 2/3 dos parlamentares (342 deputados). 

     

    Depois de hipoteticamente aberto o processo pela Cãmara, ele vai para o Senado, onde é necessário que 2/3 dos senadores (54 do total de 81) votem a favor do impeachment para que ele seja aceito. 

     

    A oposição fracassada e golpista não tem 2/3 dos votos na Câmara e nem no Senado.

     

    Sinto desapontar o “ilustre” missivista, que cerra fileiras em favor da inevitabilidade do golpe, de braços e abraços dados com o PSDB, o DEM, o PPS, o Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Organizações Globo e outros sequazes. 

    • Faço minhas suas palavras.

      Faço minhas suas palavras. Ando de saco cheio desses profetas do apocalipse. Dão como certo que o PT está morto, assim como suas maiores expressões.

      Não sei de onde tiram isso, esquecendo que quem está “de lado de lá” não tem o mínimo de credibilidade para culpar seus adversários. Tentam o poder por meio de manobras, porque pelo voto deixaram de ter chances há muito tempo.

    • Derrotista da bola de cristal opaca.

      Escreveu bem Diogo. O missivista X-9 esqueceu de citar o caso”House of Card” presidente da câmara que certamente está com os dias contados.Tomara!

  2. Resumo do texto: um desejo
    Resumo do texto: um desejo deque as manifestações programadas para 16 de Agosto sejam um retumbante sucesso e que a Dilma seja “impichada” após reprovação de contas do TCU.

    O desejo não considera que a rapadura não será entregue de graças que, muitos irão defender não a Dilma, e sim a Democracia.

  3. Caro Ricardo,  falta apenas

    Caro Ricardo,  falta apenas combinar com os russos!!!

    ou voce acha que no Brasil existem apenas idiotas subservientes esperando o golpe.

    ja ouviu o ronco da cuíca? pois é , vai ouvir ja ja.

     

  4. O problema de certos

    O problema de certos analistas é o de lerem a política com os olhos do desejo, e não com os olhos da racionalidade da própria política.”(Luis Nassif).

      O desejo do analista é tudo o que consegui extrair deste texto. A realidade segundo a sua visão sudestina.

  5. ops, desculpe-me, não foi o

    ops, desculpe-me, não foi o Nassif, confundi os artigos. Estava ruim demais, mas como abri outra aba com artigo do nassif troquei as bolas. Peço desculpas ao Nassif.

  6. Menos, Ricardo .
    62,8% de

    Menos, Ricardo .

    62,8% de aprovação do impeachment não quer dizer nada.

    Primeiro porque existe uma manipulação imensa da opinião pública por parte de uma imprensa canalha, anti nacionalista e ditatorial. Tem uma diferença imensa entre apurar a corrupção (governos petistas) e engavetar a corrupção (governos psdebistas). E tem uma diferença imensa entre investir na Petrobras (PT)e entregar nosso petróleo para o mercado (Psdb).

    Segundo porque essa porcentagem não significa nada se não houver motivos jurídicos para cassar uma presidente eleita pelo voto popular. Precisamos decidir se somos o país da República das Bananas do Paraná ou República do Brasil onde existe uma Constituição e Leis a serem respeitadas.

    Terceiro porque esse governo tem dados positivos para apresentar e hoje mesmo é noticia: BRASIL ATINGIU METAS DE REDUÇÃO DE POBREZA E FOME DA ONU. É preciso decidir se um governo bom porque transfere renda para a nação ou porque  transfere renda somente para o mercado.

    Quarto o principal problema do governo é a comunicação. 

    Quinto o capital político deste grupo que esta no poder é infinitamente mais ético e decente. Enquanto líder,  FHC e asseclas (porque Aécio Neves dos aeroportos, Cássio Cunha Lima da chuva de dinheiro, José Serra do trensalão e sócio indireto de Daniel Dantas, Alckmin do trensalão, do Pinheirinho e dos massacres nunca apurados) náo tem 1% do compromisso com a nação brasileira que o Lula tem.

    Sexto porque está na hora de nós lutarmos, mesmo em desvantagem, para que a mentira, a manipulaçao e a hipocrisia não sejam novamente o véu que encubra esse país como sempre ocorreu salvo em pequenos períodos em que presidentes honestos e patriotas assumiram o poder como Vargas (em 50), Goulart e agora Lula e  Dilma .

    Eu particularmente estou furiosa e amargurada com Dilma e seu ministério, mas tenho certeza que todas as opções desta oposição corrupta, hipócrita e golpista que esta aí farão muito mais mal ao país e à nação brasileira do que o atual governo.

     

     

  7. “O problema de certos

    “O problema de certos analistas é o de lerem a política com os olhos do desejo, e não com os olhos da racionalidade da própria política.”

    Todos os antipetistas desejam acreditar que Lula mostrou de fato algum interesse numa conversa com FHC. E todo antipetista toma como certa qualquer fofoca criada por antipetistas, sem perguntar-se “quem fez o convite?” ou pelo menos “quem relatou que houve convite?”, ou algum fato concreto que fosse.

  8. Se o artigo parte de uma

    Se o artigo parte de uma premissa incorreta, de que Lula teria mesmo convidado FHC para um diálogo, algo que foi prontamente negado pelo Instituto Lula na própria matéria da Folha, todo o resto passa a não ter nenhuma validade.

  9. O fato é que a oposição, com

    O fato é que a oposição, com apóio do presidente da câmara dos deputados, do presidente do senado, com a anuência do vice presidente da nação, com apóio da midia, das pesquisas de opinião, de um setor da justiça, do TCU, da equipe econômica e do Banco Central, trabalham em favor da destruição do governo. Nisso, o articulista tem razão.

  10. Essa conversa pessimista até

    Essa conversa pessimista até parece encomenda do PiG. 

    Não há aumento de aprovação para o impeachment. O que aumentou foi o volume das vozes ferozes dos mesmos golpistas inconformados com a derrota nas urnas, agora alimentados pelo PIG e o suposto sucesso da sua interminável novela global de 1500 capítulos chamada “Lava Jato”.

    O povo não é besta. O povo fica aqui, quietinho, só olhando. Ninguém quer nenhum retrocesso da história e não vai aceitar que isso aconteça.

    Aos pessimistas, aos golpistas, àqueles que sonham com a volta das suas “exclusividades de classe média” e das injustiças que lhes favoreçam, a resposta virá já em 2016 nas eleições municipais.

  11. Lendo os comentários, não me

    Lendo os comentários, não me sai da cabeça o milenar provérbio chinês: o pior cego é o que não quer ver. E assim, vão se afundando cada vez mais sós em suas vociferações…

    • É sempre a mesma coisa

      Alexandre,

      Aconteceu a mesmíssima coisa quando, em dezembro do ano passado, eu publiquei este artigo aqui: http://ggnnoticias.com.br/blog/ricardo-cavalcanti-schiel/a-presidente-em-seu-labirinto-por-ricardo-cavalcanti-schiel

      Veja os comentários a ele. E note também como, hoje, esse outro artigo soa até ingênuo!

      De fato, parece que os comentaristas estão todos interessados em encenar a tragédia a que eu me referi no texto. Isso é… trágico! Não se trata de pessimismo, se trata de tragédia! Eles não estão entendendo o tom da coisa.

      Não se trata de exercício da profecia. Tal como o artigo de dezembro, se trata de uma tentativa de aviso, por parte de alguém que, ao invés de buscar um buraco onde enterrar a cabeça, tem o mau-hábito de querer olhar a paisagem de um lugar um tantinho deslocado.

      Eu sei que isso incomoda, mas, enfim, maus-hábitos são maus-hábitos…

  12. Por mais que eu tente não

    Por mais que eu tente não pensar na possibilidade de impeachment, a verdade é que essa possibilidade está posta. caso contrário, Lula, a quem conheço desde os tempos da Vila euclides, não passaria pelo vexame de enviar dois emissários para uma conversar com Fernando henrique cardoso. E o que fez FHC? Dedenhou publicamente. Não aceitou o chamado “abraço do afogado”. Lula não faria isso se a situação não tivesse chegado ao limite porque tem instinto de sobreviv~encia. Um instinto que parece estar se tornando pálido.

    O texto é de uma lucidez que chega a doer pela verdade dos fatos.

    E não acredito que a saída seja atirar pedras no carteiro e sim parar para, de forma desapaixonada analisar as razões pelas quais chegamos a esse ponto. dói saber que estamos nesse ponto, mas negá-lo é mais uma tentativa de tapar o sol com uma peneira. Peneira furada, diga-se de passagem.

    Atenciosamente,

    Luzia Jakomeit

  13. Sim!

    Estávamos inquietos e surpresos com a direita, juntaram os religiosos, os conservadores, o congresso de Renan com Cunha e a justiça na geral.

    Tomaram conta da economia e da politica!

    Não temos mais, está é a realidade, uma militância, um partido, um programa e uma politica.

    Batidas na porta, bati no primeiro semestre de 2013 e a jornada Gritou!

    Não! Não senhores ninguém gosta da verdade! Ou acordam ou outros tomam posse, seja da justiça, do congresso ou de distinto aventureiro.

    Uma imagem patética!

    como sempre uma acao pontual.

  14. Gostaria de ver um artigo do
    Gostaria de ver um artigo do autor na época da egrégia frase do nosso ex republicano presidente o “deixa ele sangrar’. Qual a diferença? É política? Não meus caros, é econômica. Dilma cuide da governabilidade e da economia. A politica não muda, fhc menos ainda.

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