O terror de Petra, por Frederico Firmo

Qual seria a razão de “Democracia em Vertigem” gerar tanto ódio entre representantes da imprensa e políticos?

O terror de Petra

por Frederico Firmo

Nas redes, a conversa ficou pesada com palavras de verdadeiro ódio. Na imprensa, a seção de cultura do Estadão dá uma descrição simplista  do filme e uma sutil, mas visível, torcida contra. No texto, deram tanto ou mais espaço  para os concorrentes. Não houve ataques ou críticas ao filme. Estes aparecem na mídia através de outros.

O Secretário Federal da Cultura, que viria a ser exonerado,  se apressou a repetir o discurso tucano-bolsonarista de que o documentário  não passa de ficção.  Nos comentários destes artigos, uma tropa – por vezes repetitiva – insulta a autora e, principalmente,  Lula e o PT com as mesmas frases.

O presidente critica, e ataca, e chama todos que gostaram – inclusive a comissão do Oscar – de urubus que gostam de lixo. Mas é mais uma convicção do que provas, afinal confessa que não viu o documentário. O ataque abjeto do presidente é noticiado, mas a imprensa não analisa nem toma qualquer posicionamento.

Os jornalistas de jornais televisivos e/ou impressos apenas enunciam o fato, e buscam uma declaração e/ou uma frase que possam colocar no meio do imbróglio, algo desabonador à autora e ao PT. Parece que é mais um assunto que será noticiado, e será retirado da pauta, até as vésperas da cerimônia do Oscar. Nota-se uma torcida surda contrária, visto que o filme não deixa dúvidas sobre o papel do jornalismo no golpe.

Um colunista econômico ataca o filme, chamando-o de confuso economicamente, por dizer que a menor taxa de desemprego no governo Lula era, na verdade, a menor desde FHC, mas não da história. Segundo o articulista, clamando por rigor, os governos Sarney e os militares alcançaram taxas similares.

Apesar de questionar o rigor de Petra, o articulista compara resultados de períodos anteriores, quando a coleta de dados e metodologias eram outras. Do alto de sua sapiência e cientificidade, afirma que pode fazer a comparação. Como se pode notar, é um argumento complexo e tortuoso para negar a taxa de desemprego dos governos petistas. Não conseguiu me convencer, mas seu problema não é convencer todos os  leitores, mas apenas reforçar a narrativa.

Quando resolve sair do economês, se junta a tantas outras manifestações cujo objetivo principal é defender a narrativa oficial, acusando a autora de viés ideológico. Mas não me surpreendo: afinal, economistas  em geral tem problemas de visão. Por exemplo: eles não enxergam o desemprego, apenas as reformas. Não se pode estranhar  que neguem o golpe.

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Em todo o movimento golpista, foi essencial (e continua sendo essencial) a destruição da história e a imposição de uma narrativa revisionista.  No início, defendiam a ideia de que todos os desenvolvimentos no período petista eram fruto do governo FHC. A narrativa de um governo de obreiros incultos era essencial.

Passados alguns anos de governo, a narrativa se esgotou. A assim chamada  centro-direita  já se encontrava nas cordas e, diante de Dilma, já não acreditavam mais na sua capacidade eleitoral. Mas vieram as manifestações. As manifestações descritas no documentário foram inicialmente execradas pela figura patética de Jabor, para logo depois serem apropriadas e instrumentalizadas, gerando o caldo onde o golpismo se concretizou. O documentário de Petra apresenta tudo isto para nossa reflexão. A indicação do documentário ao Oscar aterroriza, pois trás à tona uma história que questiona profundamente a narrativa golpista.

Alguns golpistas reagem fortemente quando expostos. Nos jornais, colunistas como Igor Gielow, que contribuíram para esta narrativa que aí está, estão indignados. Igor sabe que foi golpe,  mas fica incomodado quando exposto. Chama o golpe de conturbado processo de impeachment de uma presidenta inepta”. Isto é uma confissão de que sabe que foi deposição, e não impeachment.

O detalhe é que a economia tinha indicadores melhores do que o final de FHC, mas talvez o colunista tenha mentido que, para ele, virou verdade. Mas não creio que seja tão primário assim. Embora não tenha coragem de admitir, irá usar a desculpa  pós-moderna de que não existem fatos, mas apenas narrativas.

Na verdade, existem narrativas calcadas em fatos e narrativas calcadas em narrativas. Petra faz a sua narrativa pessoal sobre os fatos. A narradora põe o individuo e o humano diante dos fatos. Gielow e outros narram em cima de uma narrativa que eles mesmos criaram, e os apavora ver sua farsa descoberta. O que os apavora não é a narradora, mas os fatos narrados.

O golpe tem como base o controle da estória e a destruição  da  História.  A revisão  da história real se faz destruindo símbolos. Anos antes, através do mensalão, começaram a construir a narrativa. Pensavam naquela época em destruir o ministro da Casa Civil, José Dirceu, a quem consideravam como a cabeça pensante do governo. A maldição da Casa Civil se realizou, porém,  o governo Lula e posteriormente Dilma construíram sua história.

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E é esta história que vem sendo destruída e substituída por uma narrativa farsesca.  A Petrobrás do pré-sal e da autossuficiência em petróleo, da tecnologia de extração de petróleo em grandes profundidades, da forte influência na economia, a possível fonte de verbas para Educação e Saúde foi retratada como um  tubo de esgoto, mostrado diariamente no telejornal de maior audiência, com o objetivo de transformar  uma mentira repetida inúmeras vezes em realidade. O autor da frase foi homenageado pelo Secretário Alvim, mas já vinha sendo utilizada por Kamel.

Um juiz e um exército de procuradores, com o auxílio de delatores premiados e torturados, apareceram diariamente na mídia. Não acontece mais nada no país a não ser a destruição da história associando tudo à corrupção.

A destruição quase física de um presidente, sua família e amigos  só poderia ocorrer depois de destruir a instituição presidência, gerando um processo de impeachment que se abateu sobre a presidenta.

Era preciso destruir a história administrativa criando uma narrativa de incompetência, usando até mesmo o imaginário machista. Não se incomodaram em, a partir do legislativo, iniciar o maior e mais fulminante ataque na própria política e na economia do país. Paralisaram o país que necessitava de medidas urgentes, pois precisavam da destruição e do caos econômico para fazer parte da própria narrativa. E o objetivo é salgar a terra. Não querem que sobre pedra sobre pedra.

Mas mesmo testemunhando tantos fatos,  Gielow e outros colunistas nos alertam para a manipulação de Petra. Segundo eles, uma evidente leitura torta da realidade. Em defesa do Bolsonarismo ,adiciona imaginários ataques à democracia pelo PT. Segundo ele, o adjetivo PIG (Partido da Imprensa Golpista) foi  um atentado à democracia dos governos Petistas.

De novo, Gielow mostra dificuldades em enxergar e interpretar a realidade e/ou, muito consciente do que está fazendo, tenta reforçar a narrativa atual de que o PT é a outra face da moeda do Bolsonarismo. Tenho saudades da polarização entre PT-PSDB. Mas ela de certa forma continua, afinal o PSDB agora é Dória e, portanto, é a versão Jardins de Bolsonaro, inclusive na ignorância cultural.

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Josias de Souza, esta sumidade do colunismo social, é mais rasteiro e no tom rude das redes ofende o que tiver pela frente. Destila seu ódio e raiva contra Petra, pois afinal Petra destrói sua narrativa . Josias, Gielow e muitos outros, como lemingues, continuam marchando em direção ao abismo. Como sonâmbulos, vão alimentando  a fera e matando a instituição imprensa.

Uma coisa é divergir da interpretação de um mesmo fato outra coisa é negar o fato. E quando a imprensa despreza fatos e fica com a convicção, vai se destruindo. E não estão sozinhos nesta marcha. Um judiciário que se curva a um grupo que diz que provas e fatos não são importantes  também se autodestrói,  e há os que vivem naquela casa chamada Congresso, que acreditam que o mundo é ali. Este ano que entra os obrigará a ir ao mundo real, mas continuarão enxergando os fatos através da mesma narrativa.

Como a serpente mítica, vivem de comer o próprio rabo. Afinal, o que importa são as convicções e não os fatos.

E por isto o filme de Petra lhes causa terror. A história com seus fatos assombra a narrativa que gerencia a manada. Este é um governo que vive apenas no mundo das ideias, o que não significa racionalidade no sentido preciso. O governo vive da criação de um mito, um dragão ameaçador  que deve ser derrotado, mas que de forma concreta deixa suas próprias lombrigas destruir suas entranhas.

Trazê-los  à realidade será tão fulminante quanto trazer a luz aos vampiros.

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