O vício nos juros altos e o abandono das políticas de combate à inflação, por Lauro Veiga Filho

Depois de abrir mão de ferramentas de política econômica para conter os preços e assegurar liberdade total ao mercado para especular e aumentar preços, equipe econômica sugere volta da hiperinflação para impor arrocho nas despesas públicas

(Fernando Frazão/Agência Brasil)

O vício nos juros altos e o abandono das políticas de combate à inflação

por Lauro Veiga Filho

Ao longo de décadas, sucessivos ministros e respectivas equipes econômicas afundaram-se no vício dos juros altos como ferramenta para desestimular aumentos de preços e manter a inflação sob controle, tomada a priori como opção única para sustentar a estabilidade inflacionária – ainda que essa política tenha ajudado a corroer o equilíbrio nas contas do setor público e gerado um custo social elevadíssimo, além de promover brutal concentração das riquezas nas mãos daqueles que já eram os donos do dinheiro no País.

Em sequência, ministros e seus assessores abandonaram instrumentos que poderiam, hoje, contribuir para dosar o ritmo dos aumentos, especialmente no setor de alimentos. A pandemia complicou ainda mais a cena econômica, causando a mortandade de pais, mães, filhos, avôs e avós, mas também liquidando empresas e gerando descontinuidade na produção de matérias-primas e insumos industriais, além de exacerbar o desemprego (que já vinha avançando antes mesmo da crise sanitária se instalar por aqui).

Pressionados pelo dólar mais caro e pela interrupção do fornecimento (em alguns casos, em caráter definitivo), os custos industriais avançaram e têm pressionado os preços cobrados ao consumidor, mesmo num cenário de elevada ociosidade, redução da renda das famílias e desemprego histórico. Nos anos mais recentes, o governo desmontou a estrutura de conselhos e câmaras de discussão, que reuniam representantes do governo e das empresas, e que poderiam operar neste momento para articular uma reação à alta dos custos, buscando alternativas dentro do próprio setor privado para acelerar a reconstrução de cadeias destroçadas pela crise, com apoio da rede de bancos públicos; negociando limites à exportação de bens e mercadorias, em outro exemplo; e a liberação pontual de importações nas áreas mais afetadas pela alta de custos, onde isso fosse possível (já que, não custa lembrar, as cadeias de suprimento foram afetadas em todo o mundo pela pandemia).

Hipocrisia

No setor agrícola, não só foram abandonadas as políticas de formação de estoques reguladores, com o desmonte desses estoques, mas abriu-se mão de exercer qualquer tipo de controle sobre as exportações, ao contrário do que países do leste asiático fizeram ao adotar políticas para preservar o abastecimento doméstico e segurar os preços cobrados dos consumidores. Um liberalismo de vitrine que imobilizou a equipe econômica, por escolha própria, num círculo de giz ideológico. Há quem perceba certa dose de hipocrisia quando o ministro dos mercados e o presidente do Banco Central (BC) sacam do bolso de seus roupões felpudos a ameaça da hiperinflação para chantagear o Congresso a aprovar uma política de arrocho fiscal em plena crise econômica. Logo eles que abriram mão de qualquer política de combate à inflação, dando aos mercados liberdade total para especular e aumentar preços.

Entre janeiro e a primeira quinzena de novembro, a alta dos preços do arroz, das carnes e do óleo de soja respondeu por quase 36,1% da inflação acumulada no período, na medição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Naquele período, o arroz subiu 64,30%, mas foi “batido” pelo salto de 89,6% nos preços do óleo de soja, enquanto as carnes, em conjunto, aumentaram em média 16,47%, sob liderança da carne de carne de porco, 31,12% mais cara. Isoladamente, os preços da carne suína responderam por pouco mais de um quarto da “inflação das carnes” e por quase 3,7% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado naqueles 10 meses e meio.

A produção avançou no campo e poderia ter assegurado tranquilidade para o abastecimento, evitando soluços inflacionários ou minimizando seus efeitos. A safra de soja brasileira foi recorde no ciclo 2019/20, somando 124,84 milhões de toneladas, praticamente 5,13 milhões de toneladas a mais do que no ano agrícola anterior (119,72 milhões de toneladas). Mas as exportações do grão saltaram 23,7% no acumulado dos primeiros 10 meses deste ano em relação a igual período de 2019, de 65,847 milhões para 81,432 milhões de toneladas – ou seja, um acréscimo de quase 15,6 milhões de toneladas.

A produção de arroz, que chegou a superar 13,6 milhões de toneladas em 2011, havia recuado para 10,484 milhões de toneladas na safra 2018/19, mas avançou até 11,183 milhões de toneladas no ciclo seguinte. O problema foi que as exportações disparam, diante do recuo das vendas nos maiores países produtores. O Brasil ocupou o espaço e elevou as exportações em quase 67,0%, de 790,2 mil para 1,319 milhão de toneladas. As exportações de carne suína, impulsionadas pela China, aumentaram 39,0%, com altas ainda de 31,5% para as vendas externas de algodão e de 72,8% no caso do açúcar.

Inflação em baixa

O dólar mais caro contribuiu, de fato, mas o boom de exportações de alimentos fez reduzir a oferta doméstica, estimulando produtores a acelerar o embarque da safra e ainda a reter parte da produção colhida diante da alta nos preços aqui dentro, numa manobra especulativa que poderia ter sido desestimulada caso existissem estoques para regular ao mercado. Entre janeiro e as duas primeiras semanas de novembro deste ano, na média aferida pelo IPCA, os preços dos alimentos subiram 12,12% e responderam por 79,54% do índice geral, que alcançou 3,13% diante de 2,83% em igual intervalo do ano passado. Neste caso, os alimentos ficaram 2,42% mais caros e foram responsáveis por 20,9% do IPCA total acumulado até 15 de novembro de 2019. Descontados os itens que formam o grupo alimentos e bebidas, os demais produtos haviam registrado elevação de 2,24%. Na comparação com o mesmo período deste ano, a “inflação” dos demais preços, excluído o setor de alimentação e bebidas, caiu para 0,64% (ou seja, uma redução de 1,60 pontos de porcentagem). O dado demonstra que não há uma escalada inflacionária em cena, mas pressões geradas por erros na condução da política econômica.

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