O vídeo dos 30%: É pouco?, por Ricardo Cappelli

O grande obstáculo a um desfecho diferente continua sendo a ausência de unidade na oposição, que se dividiu até na avaliação do vídeo.

O vídeo dos 30%: É pouco?

por Ricardo Cappelli

Depois de muita ansiedade, finalmente tivemos acesso ao filme mais esperado da pandemia.
Na película, Bolsonaro comanda a reunião de um comitê revolucionário destinado a livrar o Brasil das instituições corrompidas, dos “ratos que infestam Brasília” e dos comunistas. Um verdadeiro messias liderando a “refundação” do país.
No meio da maior crise humanitária e econômica de nossa história, nenhuma palavra sobre o drama. A reunião foi uma tentativa de unificar o governo em torno de alguns “atributos”: Deus, família, liberdade individual e econômica, e nação.
Alguém se lembra de alguma proposta de campanha do Jair? Foram estes valores que o levaram ao Planalto. Tudo parece muito absurdo, mas pode fazer sentido para o seu eleitorado cativo.
O discurso radical, indignado e antissistema surfa na onda nascida em 2013 e turbinada pela Lava Jato. O fato de se tratar de uma reunião interna fortalece o atributo da sinceridade.  Os ataques ao “bosta” e ao “estrume” buscam fechar a porta pela direita.
Foi nítido como seu público saiu das cordas e retomou a ofensiva nas redes. O vídeo parece ter reunificado os seus 30%.
É pouco provável que ele extrapole este percentual. O caminho seria a retomada econômica, uma equação improvável com a permanência de Guedes no governo.
A batata quente vai agora para as mãos do PGR. Se ele decidir prosseguir, o jogo será resolvido no Congresso. O clima de “guerra fria” tende a se manter com provocações de parte a parte. Não parece existir ninguém com força para apertar o botão vermelho do míssil nuclear.
O grande obstáculo a um desfecho diferente continua sendo a ausência de unidade na oposição, que se dividiu até na avaliação do vídeo.
O PT marchou afirmando que Moro não sabe o que são provas, desmoralizando a narrativa do ex-juiz sobre a reunião. Os companheiros buscam sua suspeição no STF e a anulação das condenações de Lula. Jogaram o jogo Lula 2022.
O resto da esquerda, com uma ou outra exceção, seguiu com a Globo na linha de que a reunião comprovou a denúncia de Moro e os crimes de responsabilidade.
A oposição liberal também se dividiu entre os que viram provas, os que não viram, e os que, sem interesse na queda de Bolsonaro, criticaram o capitão por outros motivos.
A fragmentação favorece o presidente. A ameaça autoritária acabará impondo uma concertação das oposições? Os sinais são preocupantes. Ciro e LuLa já assinaram os termos de uma separação litigiosa.
O impacto da pandemia no eleitorado permanece sendo uma incógnita. Já ultrapassamos 21 mil óbitos e a pesquisa feita por um site de esquerda indica que Bolsonaro lideraria a corrida presidencial hoje com 31% dos votos, distante dos demais candidatos. É pouco?
Uma dica: na história das eleições presidenciais, nunca houve uma virada do primeiro para o segundo turno.

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8 comentários

  1. Pelo que parece, só o Sr. Miola sabe como encaminhar o processo político.
    Só faltou dizer o como e com quais forças. Falar mal das esquerdas parece ter se tornado um esporte da classa média.

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  2. Acho que muita gente ainda não percebeu que o PT foi apeado do poder para estancar a sangria, “com supremo com tudo”, em um movimento que a meu ver, iniciou-se com o propalado mensalão.
    Mas o que foi o mensalão, senão a continuidade das práticas de apoio político em troca da governabilidade estabelecidas desde a promulgação da carta magna de 1988?
    As respostas podem ser dadas por Collor, apeado do poder sabe-se lá porque e FHC cujo partido foi o pai dos métodos continuados por Lula, porém operados com maestria em favor dos menos favorecidos e do engrandecimento da nação, e que Dilma quis restringir e por isso sofreu o golpe.
    Golpe dado com a ajuda de quase todas as instituições, que preferem qualquer coisa a qualquer política de inclusão, até mesmo uma ditadura “democraticamente” eleita.
    O PT se tiver juízo, deveria ficar de fora dessa briga, já esteve no poder e mostrou a todos, entendidos e desentendidos, como se deve governar uma nação com eficiência, desnudando mais de 100 anos de governantes incompetentes e pilantras, portanto esta credenciado e tem apoio suficiente para disputar eleições a qualquer nível, já aqueles que só conseguem derrota-lo se conseguirem união de todos os espectros, encontrarão cada vez mais dificuldades, que o diga o PSDB, o maior responsável pela democratura hora estabelecida.
    Quem pariu o genocida, que o embale.

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  3. Em eleição para presidente pode não ter havido virada do primeiro para o segundo turno, mas em eleição para governador de SP já houve, em 1998- Maluf teve 32 por cento no primeiro turno contra 22 de Covas, e no segundo Covas venceu com 55 contra 44 por cento

  4. Por que ignoram a matemática? Considerando-se veridicos os 30%, que tentam firmar no imaginário da população (como uma lenda urbana), restariam 70%.
    Mas o que comporiam estes 30%? Militares e suas familias (mais ligados ao exército), PMs da região sudeste e evangélicos das seitas neopentecostais (estes em interseção com os dois primeiros)? Vale gastar energia para trabalhar este público?
    Creio que não.
    Levando em consideração a improdutividade deste desgoverno, que repleto de vendilhões e entreguistas vai continuar se arrastando em fake news, no noticiario policial, em falsas promessas economicas — que nao serão cumpridas (esperamos punições) — e também que NÃO TEM CARGO PRA TODO MUNDO, estes “30%” tem tudo para se transformar no numero real de apoio.
    É só esperar um pouco, sempre limitando constitucionalmente através do legislativo e do judiciário, as ações destes insanos contra a democracia e contra o bem estar do povo.

  5. Em teto que está desabando não se deve tentar tirar sequer as teias aranha…
    esquerda tem mais é que ficar de fora até que tudo desabe de uma vez, unir-se apenas para as estaduais e municipais

    a esquerda que conhecemos não merece ter que pegar um país completamente destruído por alguém como Bolsonaro;

    e caso pegue, a Globo será a primeira a defender que quem mais contribuiu para o teto desabar foi o PT

    Fez isso na saída de FHC, a quem até hoje chama de Ex-Presidente, enquanto ao Lula chama apenas de Lula

  6. O articulista cai na armadilha primária de habitar e cevar o mundinho “Bozo/anti- Bozo”, alimentando a Besta. Ao invés do deprimente papel de, depressivo, dizer o óbvio (“o monstro segue sendo alimentado e a oposição não achou seu rumo), deveria gastar seu tutano para introjetar aqui, dentro da bolha, o que o mundo todo viu: um espectáculo deprimente, inacreditável,de baixíssimo nível, nunca cogitado nos mais de 100 anos de República. Para completar, a maior pandemia do milênio só não ficou inteiramente de lado, pq um ministro lançou a estratégia canalha de aproveitar a distração que ela causa para f… com o meio ambiente. Desserviço, para quem não concorda com o Bozofascismo, esse artigo óbvio, que não abre os olhos de ninguém. Importante é mostrar caminhos concretos, argumentar para convencer os iludidos, mostrar o que o mundo está vendo e nós, brasileiros, obnublados por um desmonte midiático fundado no fantasma da corrupção, do comunismo comedor de criancinha, não conseguimos enxergar. Muda o foco, meu chapa!

  7. Dizer que Ciro e Lula assinaram uma separação litigiosa, de tão redutora a frase, chega a ser uma pós-verdade, induzindo a ideia que ambos concorreram pra isso. Lula acenou, no mínimo, 6 dúzia de vezes e só recebia paulada, frases chulas, piores que dos fascistas. Ciro, em sua ambição e vaidade, se perdeu. Bebeu até quase se afogar na fonte da esquerda e, quando conveniente, achando que viabilidade eleitoral só existe se falar mal de Lula, deu-lhe uma banana. A política dá voltas. Lula-maduro sofre hoje um pouco do que Lula-imaturo fez com Brizola. Mas o velho Briza, ao contrário de Ciro-eterno-imaturo (q hoje já é tecnicamente idoso, com 64 anos), tinha grandeza e sabia se sacrificar em nome do que era melhor pro país.

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