Observações assimétricas, por Francisco Celso Calmon

A militância de esquerda está de animus novo e está surgindo entre os eleitos quadros oriundos do movimento social.

Observações assimétricas

por Francisco Celso Calmon

É crível afirmar que a unidade da esquerda no Rio teria levado o representante único ao segundo turno.

A implosão da unidade começou quando Freixo desistiu da candidatura, mostrou pusilanimidade e deixou o PT sem outra saída senão apresentar candidatura própria, já com timing vencido. As divisões internas do PSOL, se não apreenderem com os novos ventos latinos e com esta eleição municipal, em vez de consolidar suas vitórias e crescer, se dividirão com mais sectarismo.

A unidade desfeita, se mantida, com Freixo ou Benedita, a esquerda teria chegado ao segundo turno e o resultado imprevisível. E o saldo político seria muito positivo, pela unidade e pelo resultado.

Em São Paulo os petistas, filiados ou simpatizantes, se dividiram no primeiro turno entre as candidaturas Boulos e Tatto, e, mesmo com uma divisão arriscada, levaram o candidato do PSOL para o segundo turno. E uma ampla frente apoiou o Boulos no segundo turno.

Teria sido diferente se a unidade começasse no primeiro turno? Com certeza que sim. A esquerda teria chegado com planejamento, mais forte e unida. Fazer um planejamento conjunto, antes de iniciar o pleito, teria modificado a história.

Cabe indubitavelmente a autocrítica do PSOL e do PT por não terem realizado as tratativas necessárias e eficazes para no Rio e em SP ter havido a união de esforços desde o primeiro turno.

A proibição de coligações proporcionais é em parte uma variável que não facilita a unidade da majoritária no primeiro turno. Para as candidaturas proporcionais o cabeça de chapa da majoritária tem um peso considerável na conquista de votos.

Restando o segundo turno para a união, pressupondo que uma das candidaturas solo vá para o turno seguinte, é um risco, principalmente quando o inimigo comum, bolsonarismo, continua a sanha destrutiva.

Em SP fomos, no Rio, não. SP passou porque, como afirmei acima, parte do PT apoiou Boulos desde que começaram as previsões favoráveis.

Estudos específicos merecem os casos de Porto Alegre, Vitória e também do fiasco de BH.

Há algo que merece análise de especialistas: razões para os dois maiores institutos de pesquisas terem errado tanto. Errando na previsão, bem acima da realidade e alcançando o dobro e o triplo da margem de erro de 3%, em favor da esquerda. Quais consequências devem ter tido nas campanhas da direita e na esquerda?

Assumir a derrota é o primeiro passo para uma análise ampla e realista. Querer supervalorizar os aspectos positivos, que houve sem dúvida, e bancar o avestruz no geral, pode gerar estratégias com vicio de origem da análise.

O anticomunismo existiu desde o Manifesto Comunista e se intensificou com a guerra fria. No Brasil até hoje temos esse sentimento das classes médias e acimas, e em parcela menor no que na atualidade denominam de pobre de direita.

Nessas mesmas camadas sociais o antipetismo existe. Podem tapar o nariz, mas não os olhos para constatar, analisar e saber como combater. Foram anos de massacre jurídico-midiático e mais recente do bolsonarismo. Não esqueçamos o powerpoint e as declarações de voto quando do impeachment da Dilma. Essas três forças colocaram o PT associada à corrupção. Como dissociar?

As fakenews se repetiram, o que fazer para que não que não perdurem até 2022? Ou como contrapor legalmente e na comunicação?

Nossos parlamentares devem usar as tribunas para falar para fora, para a sociedade. Discursos para mudar votos de colegas não funciona. Usem o espaço para se comunicar com o povo, mesmo com alcance restrito. Se guiem pelo eixo da luta de classes.

Sem trabalho na e de base, a esquerda tenderá a voos curtos, abatidos no ar; é necessário sustentabilidade social, consciente e ativa, do povo à democracia.

A conquista de votos deve ser fruto desse trabalho de FOP (Formação, Organização e Protagonização das classes trabalhadoras), sob pena de ficarmos refém do clientelismo, em cima da eleição, pelos fisiológicos da direita e as vezes da esquerda. Isto é como crescer como o rabo de cavalo.

As fundações do PCdoB, PSOL e PT, poderiam fornecer uma boa análise especialmente se fizerem juntas.

Não haverá Frente ampla com a participação do Ciro e PDT, se insistirem será implodida antes durante de depois.

Tijolo a tijolo. Primeiro tijolo, formar uma frente de esquerda, segundo tijolo, essa Frente decide.

A militância de esquerda está de animus novo e está surgindo entre os eleitos quadros oriundos do movimento social.

Vitoriosos e derrotados da esquerda deveriam fazer neste domingo a caminhada do agradecimento, e nela amarrar contatos para formar comitês de luta antifascista.

As tarefas mais importantes são as de longo prazo, as estratégicas, mas as de curto prazo devem estar em sintonia com elas. Sementes foram lançadas para o curto, médio e longo prazo, é cultivar para colher.

Francisco Celso Calmon, advogado, administrador, membro da coordenação do canal Resistência Carbonária, ex-coordenador nacional da Rede Brasil Memória, Verdade e Justiça.

 

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