Observações sobre a crise sanitária – COVID-19, por Greiner Costa

Como pode ser observado em outros países, quando o ápice de casos e óbitos é atingido em cerca de 3 a 4 semanas os casos começam a se estabilizar, o que no Brasil apontaria para o final de maio.

Observações sobre a crise sanitária – COVID-19

por Greiner Costa

As informações a seguir foram organizadas após a atualização oficial de 10/04, 17:30. O quadro abaixo apresenta o número de casos confirmados nos últimos 39 dias.

Quadro Crescimento Casos Confirmados no Brasil
Data Nº casos Confirmados Novos Casos    por dia Variação Percentual
03/03/2020 2 0
04/03/2020 2 0 0%
05/03/2020 8 6 300%
06/03/2020 13 5 63%
07/03/2020 19 6 46%
08/03/2020 25 6 32%
09/03/2020 30 5 20%
10/03/2020 34 4 13%
11/03/2020 69 35 103%
12/03/2020 78 9 13%
13/03/2020 98 20 26%
14/03/2020 121 23 23%
15/03/2020 200 79 65%
16/03/2020 234 34 17%
17/03/2020 291 57 24%
18/03/2020 428 137 47%
19/03/2020 621 193 45%
20/03/2020 904 283 46%
21/03/2020 1.128 224 25%
22/03/2020 1.546 418 37%
23/03/2020 1.891 345 22%
24/03/2020 2.201 310 16%
25/03/2020 2.433 232 11%
26/03/2020 2.915 482 20%
27/03/2020 3.417 502 17%
28/03/2020 3.904 487 14%
29/03/2020 4.256 352 9%
30/03/2020 4.579 323 8%
31/03/2020 5.717 1.138 25%
01/04/2020 6.836 1.119 20%
02/04/2020 7.910 1.074 16%
03/04/2020 9.056 1.146 14%
04/04/2020 10.278 1.222 13%
05/04/2020 11.130 852 8%
06/04/2020 12.056 926 8%
07/04/2020 13.717 1.661 14%
08/04/2020 15.927 2.210 16%
09/04/2020 17.857 1.930 12%
09/04/2020 19.638 1.781 10%
       

 

(*) O quadro acima demonstra que nos últimos 21 dias (3 semanas) a taxa média de crescimento diário de casos confirmados de COVI-19 é de 16,0%, um crescimento que não pode ser informado como exponencial. Como temos visto no noticiário. Ainda não é. O que os gráficos a seguir confirmam:

Algumas hipóteses sobre o que poderá vir nas próximas semanas podem ser apontadas em visão geral, a partir dos os inúmeros indícios, artigos com estudos e notícias veiculadas nos portais de informação sobre a evolução da doença em outros países e especificidades locais:

  1. A primeira constatação: dada a entrada do vírus no Brasil por pessoas de alta renda, o espalhamento do vírus inicialmente se deu pontualmente e em setores de baixa concentração populacional, o que reduziu o impacto do espalhamento inicial;
  2. Esse fato somado à implementação precoce de medidas de contenção nas grandes cidades, verifica-se que as curvas de crescimento da doença não são acentuadas;
  3. É evidente no entanto a subnotificação tanto de óbitos como de casos confirmados de contaminação;
  4. A subnotificação tem origem também evidente no atraso nos resultados dos testes, que além disso estão sendo feitos em muito poucas pessoas no Brasil, diferente de outros países;
  5. A não realização de testes e o atraso em resultados é de longe o principal gargalo que produz subnotificação e prejudica as estatísticas oficiais atuais no Brasil;
  6. Na última semana tem sido noticiado a chegada e doação de testes e testes mais rápidos no Brasil;
  7. É portanto esperado que em algum momento milhares de confirmações de contaminação e também centenas de mortes sejam incluídas nos registros oficiais como causados por Covid19 devido a resultados de testes em atraso;
  8. Mais grave, começam a surgir informações sobre surgimento de casos confirmados e óbitos começam a ser registrados em periferias de grandes cidades, onde há maior população concentrada, regiões com pobreza e infraestrutura habitacional e sanitária precárias, onde as condições para isolamento social efetivo são muitas vezes impraticáveis – favelas, cortiços, habitações multi-familiares, ocupações etc.;
  9. O problema do espalhamento do vírus para regiões de maior contingente populacional que está se iniciando se soma como fator grave às campanhas realmente criminosas em redes sociais, e mesmo em pronunciamentos do próprio Presidente, contrárias ao isolamento social;
  10. De fato, pode ser observado nos últimos dias efetivo relaxamento nas condições de isolamento nas cidades;
  11. Os três fatores apontados acima (redução progressiva da sub-notificação, aumento da transmissão comunitária em regiões de pobreza e maior concentração populacional; e o relaxamento do isolamento por campanhas criminosas de grupos bolsonaristas) deverão produzir uma inflexão nos números relativos a casos confirmados de contaminação pelo vírus;
  12. Com o intervalo de alguns dias, o mesmo pode-se esperar venha a ocorrer com o volume de internações de casos graves e aumento expressivo do número de mortes;
  13. Esse quadro provável de ampliação de casos de contaminação e sua confirmação clínica até a 1ª quinzena de maio, aponta para a necessidade de extensão das políticas oficiais de isolamento e provável ampliação das restrições;
  14. E para a ampliação da batalha da comunicação produzida por grupos bolsonaristas e setores empresarias retrógrados;
  15. Em paralelo, como observação de caráter positivo, está ocorrendo a montagem de estruturas de apoio para fazer frente ao agravamento da crise que ainda não se apresentou, o que tende a criar melhores condições de tratamento e oferta de leitos e infraestrutura em UTIs;
  16. Esse fato positivo é resultado de iniciativas e planejamento de governos estaduais e prefeituras principalmente, em menor medida também do ministério da saúde;
  17. Não obstante, é esperado que pelo grande contingente populacional no Brasil, em especial regiões metropolitanas das maiores cidades, as estruturas mesmo ampliadas em grande medida recentemente, não serão suficientes para a demanda por UTIs e respiradores, de forma que um número significativo de óbitos pode ser esperado até o final de maio;
  18. Como pode ser observado em outros países, quando o ápice de casos e óbitos é atingido em cerca de 3 a 4 semanas os casos começam a se estabilizar, o que no Brasil apontaria para o final de maio.

 

Obs. finais:

  1. Ainda a verificar estudos que apontam para novos momentos de isolamento se tornando necessários no Brasil devido a repiques nas contaminações a partir do 2º semestre;
  2. Estudos aprofundados sobre as consequências econômicas da crise, com perspectiva de gravíssima recessão e depressão, exigindo a implantação de estratégias de sobrevivência para o capitalismo e para a sociedade, fundadas em políticas de renda mínima de cidadania e taxação regressiva de fortunas e lucros;
  3. Outros estudos ainda mais complexos apontando para mudanças estruturais na forma como a sociedade poderá se reorganizar, mudando substancialmente ou em importante medida as “leis” da economia de mercado, tornadas clássicas e de “pensamento único” em todos os setores da mídia e, de forma hegemônica, em universidades e centros de pesquisa, públicos e empresarias;
  4. Finalmente um sonho possível de transformação ainda mais substancial na forma como vivemos em sociedade com reflexos sobre a cultura consumista, competitiva, não cooperativa, individualista, visões de mundo e comportamentais mandatárias em sociedades capitalistas para o estabelecimento e construção de outras formas fundadas em solidariedade, sustentabilidade efetiva em todos os sentidos, proteção mútua e cooperação total.

 

Esse pode ser um mundo que está hoje em gestação. Globalmente.

Pode ser.

Caso os segmentos sociais que defendem e lutam pela humanidade, pela civilização contra a barbárie capitalista, os agrupamentos e movimentos democráticos mobilizados em nossa sociedade não se apresentarem de forma coordenada e integrada para essa batalha, mais uma vez o capitalismo financeiro globalizado poderá mudar tudo para não mudar o essencial. Nesse caso, a civilização perderá mais uma oportunidade.

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2 comentários

  1. excelente! informação qualificada e muito bem organizada. observações normativas que delas decorrem (20 a 22) e conclusão sao um desafio para os cidadãos de esquerda que buscam uma proposta que aponte para algo além do reformismo.

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