Olhai os próprios umbigos, principalmente em frente ao espelho, por Francisco Celso Calmon

A turma da esquerda que tem fixação no PT, ressuscita a velha e superada cantilena da autocrítica. Essa turma perdeu o bonde da história e não percebe.

René Magritte

Olhai os próprios umbigos, principalmente em frente ao espelho

por Francisco Celso Calmon

O processo boliviano de resistência ao golpe truculento ocorrido em 2019, no qual Evo Morales foi apeado ilegalmente da chefia do governo, traz várias reflexões para a esquerda e o povo brasileiro.

As reflexões requerem um pouco de conhecimento da história da Bolívia para evitar que a euforia com a vitória da democracia lá seja transportada mecanicamente para o Brasil, com história bem diferente. Não fazemos parte da américa espanhola, Simon Bolívar não passou por aqui, não temos história de libertação, nossos indígenas foram dizimados, e seus remanescentes continuam a sofrer perseguição e etnocídio.

A turma da esquerda que tem fixação no PT, ressuscita a velha e superada cantilena da autocrítica. Essa turma perdeu o bonde da história e não percebe, por antolhos, que as correções do passado estão ocorrendo num processo dialético, no qual as contradições de concepções continuam existindo, dentro e fora do Partido dos Trabalhadores.

É o óbvio ululante, mas sempre necessário relembrar: a contradição entre os que professam a conciliação de classes, como método reformista permanente, e os que professam a luta de classes, como motor das transformações estruturais, numa perspectiva revolucionária, são históricas. Não nasceram com o PT e nem se encerram dentro dele. Elas estão em toda a extensão da esquerda, e não apenas a brasileira, e sim a mundial.

As críticas do que o PT deveria ter feito e não fez, em geral são procedentes, se poderia e como, é que nos remeteria a uma reflexão reversa, só possível ser realizada em abstrato, pois a contrafação na história não existe. Entretanto, é viável tais análises quando em ambiente de sinceridade intelectual, ideológica e especialmente política, senão é explorada oportunisticamente para o vale tudo autofágico da esquerda brasileira.

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Toda experiência, mesmo quando em contextos históricos diferentes, contribuem para obter ensinamentos e colocá-los adequadamente em prática.

Sou dos que advogam que não houve a resistência na proporção necessária, desde o prenúncio (reação do candidato derrotado Aécio Neves e seu partido) até a concretização do golpe com STF e tudo mais (sabemos na atualidade que o mais incluía chefes militares como Villas Boas).

Não resta dúvida também que a tática da conciliação, incluindo no governo o representante dos bancos, Levy com seu kit de solução, só levou a piorar a situação econômica e política. E tudo indica que não traçaram nenhuma estratégia para abortar o processo golpista, foram reagindo a cada fase e provavelmente de maneira intuitiva, talvez em decorrência de informações desencontradas e pouco verdadeiras chegadas ao QG do governo e partidos democráticos, especialmente nas especulações jurídicas.

Não é possível engenharia reversa na política, contudo, a história ensina, resta saber se há alunos que queiram aprender. Enfim, como disse o Lula “… se eu conhecesse o tanto de história que eu conheço hoje há 50 anos atrás, eu teria virado um revolucionário.”

Então cabe algumas perguntas aos quadros dos partidos que, à guisa de comemorar a vitória do povo boliviano, aproveitou para dar estocadas no Partido dos Trabalhadores: por que esses partidos não aplicam o que pregam e se transformam em partidos de massa?; o povo não é monopólico do PT, está  à disposição de todas as forças de esquerda levarem suas concepções e propostas a Ele, e por que não fazem isso? Por que PSTU, PSOL, PDT, PSB, PCO, PC, PCR e demais invisíveis, não concretizam suas políticas, tidas como as melhores, e se transformam em partidos com força massiva, afinal, a prática não é o critério da verdade?

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O chão é de todos. Insiram-se nos chãos do trabalho, da moradia, da escola e da academia, e fomentem a organização e façam a formação política-ideológica, mister ao nosso tão despolitizado povo.

Os partidos autoconsiderados mais à esquerda do PT, alguns com mais de duas décadas, por que não conseguiram ainda ser uma liderança massiva? Talvez se usassem a energia revolucionária das palavras para a práxis junto aos trabalhadores e aos desamparados  dos direitos mais elementares e corrigissem seus rumos através do método dialético da crítica/autocrítica, que cobram mas não praticam, estivessem com efetiva liderança da massa de trabalhadores e contribuindo para a revolução social e  também para que o que querem do PT, ser revolucionário, viesse a ocorrer.  Entretanto, o prato que mais saboreiam é o da cantilena, senão mantra, do mea culpa, minha máxima culpa, como um ato de contrição religioso, do partido alheio – “Joga pedra na Geni, joga pedra na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa prá cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni”.

Se todas as tendências, correntes, de militantes antigos e a dos jovens, que usam em seus nomes a palavra revolução, pelo menos pregassem a sua necessidade aos trabalhadores, especialmente às mulheres e aos negros (maioria e a mais sofrida no país), estar-se-ia em outro patamar de organização e consciência de classe.

Repetem o apelo da unidade e nem internamente em suas entidades conseguem. Se não se reconhecem como são, fica mais difícil conseguir o mesmo de seus parentes nessa atomizada família democrática e socialista.

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Quanto aos que estão à direita do PT, como o PDT e o PSB, cujas recentes práticas são de traições aos seus criadores, deveriam fazer autocrítica dos desvios à direita e retornar para os lugares de centro-esquerda que na origem estiveram.

Se cada um fizer o seu dever de casa, fica mais próximo de se fazer o dever de casa coletivo.

Os ventos estão mudando, mas não fiquemos olhando a biruta, e sim o caminho da resistência revolucionária. É o povo trabalhador que tem que emancipar a si próprio. O papel dos partidos é fomentar a emancipação.

Francisco Celso Calmon é da coordenação do canal resistência carbonária e ex-coordenador da Rede Brasil Memória, Verdade e Justiça

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1 comentário

  1. “…e sim o caminho da resistência revolucionária…” Realmente, depois de 90 anos de Doutrinação, fica difícil sair da própria Órbita Umbilical. Mas uma questão realmente os Esquerdopatas Tupiniquins (da teoria em ler 2 livros) percebem a realidade. Nunca chegaram aos pés da consciência política dos Bolivianos. Não à toa ‘Guevara’ foi buscar sua Revolução em Terras Bolivianas, onde toda Estrutura Política e Intelectual poderia lhe dar respaldo. O Brasil era um caso perdido entre 3 ou 4 Alienados que acreditavam e acreditam que Socialismo é apenas Vitimização e Fatalismo. ‘ Che ‘ só olhou para o Brasil, quando foi homenageado por um Intelectual e Político de verdade Jânio Quadros. No restante foi só desprezo. Coincidência? Afinal somos a Pátria das Coincidências. Pobre país rico. Com seus Socialismo Meio calabresa, meio muçarela produzido pelo Nepotismo de um Fascista e seus Familiares Cúmplices Getúlio Vargas, Ivete Vargas, Tancredo Neves, Lutero Vargas, Aécio Neves, Alzira Vargas, Bejo Vargas, João Jango Goulart, Leonel Brizola,…O que poderia sais desta latrina? Mas de muito fácil explicação.

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