Onde nasce a loucura de Bolsonaro?, por Luciano Martins Costa

Mas, voltando à pauta, é importante conhecer essa matriz liberal-fascista para entender o que acontece hoje no Brasil, inclusive a origem desses surtos de Bolsonaro.

Onde nasce a loucura de Bolsonaro?

por Luciano Martins Costa

Cresce a suspeita de que Jair Bolsonaro não controla mais suas próprias ações. Ensandeceu. Essa hipótese corre não apenas nas redes sociais, entre jornalistas e políticos: também há sinais de que militares integrantes do governo tentam conter o alucinado antes que ele provoque uma hecatombe. Governadores do Nordeste, ao formar uma comissão independente de cientistas para cuidar à sua maneira da COVID-19, sinalizam no rumo da desobediência institucional. Quero apenas lembrar que essa condição do presidente da República, se comprovada, não é um fato bizarro como pode parecer. É parte do contexto criado em muitos países do mundo pelo crescimento do negacionismo, pelo culto à ignorância, pelo retrocesso nas conquistas das ciências sociais, da psicologia social, dos estudos antropológicos em geral e até mesmo da neuropsiquiatria. Esse fenômeno está relacionado à política, de modo geral, ao populismo de modo transversal e diretamente conectado ao conjunto de crendices que qualificamos equivocadamente como “neoliberalismo”, “ultraliberalismo” ou “fundamentalismo liberal”.

Esse conjunto de crendices, que tem como gurus mais populares os economistas Fredrick Hayek, austríaco, e Ludwig von Mises, ucraniano, é o vírus que se apossou de operadores do mercado financeiro, empresários e principalmente dos analistas da imprensa. Essa é a matriz do pensamento dominante na maioria dos comentaristas de economia dos principais jornais, do rádio e da TV no Brasil. E nessa matriz do pensamento econômico é preciso destacar que a democracia, as liberdades individuais, os direitos civis não são uma prioridade, desde que o regime sustente o que costumam chamar de “neoliberalismo”. Em uma de duas entrevistas que concedeu quando visitou o Chile em abril de 1981, durante a ditadura de Pinochet, Hayek declarou ao jornal El Mercúrio: “Eu, pessoalmente, prefiro uma ditadura liberal do que um governo democrático onde falte o liberalismo”. O outro guru desse suposto liberalismo, Von Mises, escreveu no capítulo 10 de sua principal obra, “Liberalismo, um estudo sócio-econômico”, que o fascismo é um instrumento essencial ao liberalismo. No mesmo capítulo ele lamenta que o fascismo não costume durar muito e diz que os governos fascistas do século XX salvaram a civilização européia. Não faz as contas dos milhões de judeus, ciganos, homossexuais, pensadores, cientistas, pessoas com deficiência mental e livres-pensadores que foram assassinados.

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Para resumir, há um alto grau de loucura na teoria supostamente econômica abraçada por gente que você viu muitas vezes pontificando no rádio, na TV, nas revistas e nos jornais e que, hoje, se surpreendem com a loucura de Bolsonaro. O resultado dessa pregação é a constituição, na classe média brasileira, das multidões de midiotas que acreditaram na balela segundo a qual só o Estado mínimo garante o crescimento econômico.

Para começo da conclusão, deve-se atentar para o seguinte fato: quem usa a democracia para impor suas ideias econômicas à revelia da democracia, ou pior, interrompendo a democracia, age como um time que se inscreve no campeonato de futebol e quer jogar com equipamentos e segundo as regras do rugby. Por isso, considero que os chamados “neoliberais” não devem sequer ser admitidos num debate sério sobre política econômica. Escrevi, um dia, em algum lugar, que “o neoliberalismo é apenas uma espécie de reserva moral do fascismo”.

Em fevereiro de 2009 publiquei o primeiro artigo curto de uma série, intitulado “O fantasma do fascismo”, dizendo que o programa de recuperação econômica do governo Obama, chamado “Compre aqui”, alterado pelo congresso dos Estados Unidos, tinha um forte componente populista e cheirava a xenofobia. Cito um trecho da minha justificativa: “Um dos riscos das práticas comerciais protecionistas é que elas estimulam a xenofobia, rompem a corrente de solidariedade sem a qual não se poderá superar a crise”. No mesmo período, comentei que a política econômica do segundo mandato de Lula não tinha sustentabilidade, porque baseava a inclusão social no provimento de renda e ingresso no mercado de consumo, sem considerar a necessidade da educação para a cidadania, ação que ficava restrita quase sempre a campanhas pontuais, a cargo de ONGs, mas não era uma política de Estado. Quando Lula resolveu o conflito entre Marina Silva e Dilma Rousseff limando a ministra do Meio Ambiente, ele fez a escolha que desaguou em 2016.

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Mas, voltando à pauta, é importante conhecer essa matriz liberal-fascista para entender o que acontece hoje no Brasil, inclusive a origem desses surtos de Bolsonaro.

Um dos aspectos do chamado neoliberalismo é o fato de que, como admitem seus criadores, tal projeto precisa de um regime de exceção para assaltar o patrimônio público, distribui-lo a preço de banana para os financiadores. E um regime de exceção, para não sofrer com revoltas, precisa de alta dose de populismo. E o populismo sempre conduz a uma estratégia de isolamento, ao nacionalismo, à centralização de decisões em torno dos beneficiários (quase sempre o sistema financeiro e alguns setores industriais).

Cria-se, aqui, a contradição inescapável, uma vez que o pressuposto do chamado neoliberalismo é inserir a economia nacional na globalização.

Esse é o ponto em que Bolsonaro começa a discordar de Paulo Guedes, um sub-intelectual que enriqueceu com três anos de um salário mensal de 10 mil dólares no Chile de Pinochet. Entrou como uma espécie de ministro executivo, saiu banqueiro.

Onde nasce a loucura de Bolsonaro? Afora o fato de que se trata, desde sempre, de um alucinado com características de psicopata e sociopata, nasce na impossibilidade de ele fazer seu governo populista e ao mesmo tempo seguir os princípios do “neoliberalismo”.

Desde o começo de seu governo ele vive essa dicotomia, namora o autoritarismo, mas é alertado de que, se quebrar a institucionalidade, o Brasil perde conexão com o Banco Mundial, o FMI, as instituições multilaterais em geral. A crise do Coronavírus expõe mais claramente sua ruptura, o fracionamento de sua personalidade. Suas manifestações denotam o advento da condição que Michel Foucault chamou de “desrazão”, uma espécie de loucura social e cultural que geralmente não é vista como patologia. Sua insistência em contrariar a ciência, as recomendações dos organismos internacionais que organizam o combate à pandemia, indica que ele está avançando para além dessa condição. Jair Messias Bolsonaro enlouqueceu. Precisa ser interditado.

3 comentários

  1. Permanência de Bolsonaro na presidência vai servir para mostrar ao mundo que no Brasil não há como se proteger de todos os defeitos humanos…
    pelo que tem colocado de fake news na rede, podemos ver que ele mesmo está sendo vítima dos defeitos dos seus seguidores………………………é a perfeição técnica servindo de base para a imperfeição humana

    E a isto chamam de liberdade total e garantida para governar, tempos modernos. Esta loucura sem fim

  2. Permanência de Bolsonaro na presidência vai servir para mostrar ao mundo que no Brasil não há como se proteger de todos os defeitos humanos…
    pelo que tem colocado de fake news na rede, podemos ver que ele mesmo está sendo vítima dos defeitos dos seus seguidores………………………é a perfeição técnica servindo de base para a imperfeição humana

    E a isto chamam de liberdade total e garantida para governar, tempos modernos. Esta loucura sem fim

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