Os 70% e suas diferenças, por Rodrigo Medeiros

Para aqueles que não concordam com o caminho da construção da distopia tropical, conduzida pelas reformas liberais desde 2016, não basta retirar alguns elementos para que o circo continue praticamente o mesmo.

Os 70% e suas diferenças, por Rodrigo Medeiros

Não há dúvidas de que as ameaças à ordem democrática costumam unir os diferentes em torno de bases comuns em momentos históricos relevantes. Ideologias devem ser colocadas de lado no primeiro tempo do jogo, porém não devemos esquecer que alguns que hoje pertencem aos 70% e, portanto, rejeitam a escalada autoritária, apoiam a agenda econômica desde 2016. A luta política contra as ameaças autoritárias deveria fazer com que as diferenças de agendas ficassem para o segundo tempo das discussões.

São muitos os pontos que deverão ser debatidos posteriormente. Os sistemas econômicos e sociais são dependentes de trajetórias históricas, sendo que, de acordo com Piketty, em “Capitalismo e ideologia” (2019), ideologia e política moldam e sustentam essas trajetórias. O Brasil se desindustrializou prematuramente, antes de ter se tornado um país desenvolvido e o crescimento do seu setor terciário se mostrou fraco em produtividade. A interrupção ou o retrocesso do processo de avanço na sofisticação tecnológica das estruturas produtivas sinaliza que um país em desenvolvimento ficou preso na armadilha da renda média.

Na ausência de um novo boom de commodities, que ajudou a construir reputações políticas e a reduzir marginalmente as desigualdades sociais anteriormente, as perspectivas são ruins para o Brasil. Ficar preso na armadilha da renda média traz riscos à democracia, conforme estamos testemunhando. Afinal, grandes retrocessos institucionais, econômicos e sociais são possíveis na contemporaneidade, de acordo com Levitsky e Ziblatt, em “Como as democracias morrem” (2018). Um ambiente reprodutor de desigualdades sociais extremas é perigoso, segundo Runciman mostrou em “Como a democracia chega ao fim” (2018), para a estabilidade democrática dos países.

Países especializados em atividades malthusianas permanecerão pobres e com elevada concentração de renda, enquanto países especializados em atividades schumpeterianas serão capazes de elevar o nível de seus salários e atingir padrões de vida maiores. Do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, a especialização malthusiana é perigosa porque ela está vinculada a rendimentos decrescentes de escala, a círculos viciosos de pobreza, a grandes pressões sobre os recursos naturais e a uma baixa produtividade.

A história não terminou e devemos buscar aprender algo com ela, sempre. Em relação ao nosso processo de desenvolvimento, que foi adversamente afetado pela desindustrialização prematura brasileira, existem lições que já deveríamos ter aprendido com a trajetória de outros países. Não há desenvolvimento econômico e social com uma baixa densidade industrial. Creio que esse, por todas as suas repercussões, é um ponto central de discórdia no âmbito dos 70%.

Outro ponto correlato de discórdia diz respeito à inserção produtiva nacional na globalização. Em relação ao processo de globalização, tão questionado pela pandemia de Coronavírus (Covid-19), é preciso atentar para o risco e as consequências de que as cadeias globais de valor sejam distribuídas no sentido de que os países desenvolvidos fiquem com os postos de trabalhos mais qualificados, com as melhores remunerações, e que os países não desenvolvidos se especializem nas atividades que os países ricos não possam automatizar, de baixas possibilidades inovativas e produtividade intrínseca.

Afinal, para além de serem contrários às ameaças autoritárias, o que mais os 70% têm em comum? Para aqueles que não concordam com o caminho da construção da distopia tropical, conduzida pelas reformas liberais desde 2016, não basta retirar alguns elementos para que o circo continue praticamente o mesmo. Restam poucas dúvidas de que a má condução das reformas prejudicou a agenda do capital no Brasil e, nesse sentido, não devemos aceitar sermos usados para limpar o campo para que as mesmas sigam o seu curso entre nós. A retórica governista também afetou a imagem do país no exterior, impactando negativamente na imagem das instituições, das empresas e dos empresários brasileiros.

A pandemia encontrou a economia fragilizada no Brasil e ideologicamente dominada pelo liberalismo primário dos fiscalistas, segundo André Lara Resende. Como financiar o gasto público no combate à pandemia e qual será o papel do gasto público após o fim da pandemia também dividem os 70%. Há quem defenda publicamente prosseguir com a ortodoxia fiscalista e as reformas interrompidas na pandemia. Como bem disse o escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa, “algo deve mudar para que tudo continue como está”. Creio que essa relevante discussão sobre as diferenças entre os 70% já foi antecipada para o primeiro tempo do jogo contra a escalada autoritária.

 

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