Os desfechos mundiais da Crise de Hegemonia e nós, por Ion de Andrade

Oxalá eu esteja certo, a direita fascista parece anteceder uma derrocada geral e uma derrota histórica no plano da hegemonia, fenômeno de que já estaríamos vendo as luzes na vitória das esquerdas em Portugal, na Espanha, na Finlândia e na Inglaterra

Foto: AFP

A última rodada da Crise de Hegemonia no plano mundial parece nos mostrar três fenômenos entrelaçados: a esquerda democrática ganha poder, o centro se esvazia e a direita degenerada se converte em fenômeno satélite. Como nos situamos nesse cenário?

Os fenômenos históricos costumam demorar para se dar a conhecer por completo, resultam da expressão de variáveis sócio-políticas e econômicas que vão sendo obrigadas a revelar-se num efeito dominó. As últimas rodadas da crise de hegemonia em curso parecem posicionar três fenômenos simultâneos e inter-relacionados: o fortalecimento da esquerda, o esvaziamento do centro e a degeneração da direita.

Em entrevista recente, o pensador português Boaventura de Sousa Santos apresenta a ideia de que contemporaneamente somente a esquerda tem condições de assegurar a “democracia liberal”, ou seja, o Estado de direito como deve ser.

A vitória da esquerda na Espanha e Finlândia pode inclusive estar influenciada pelo laboratório histórico do fenômeno oposto, o Brasil, onde é direita degenerada que chegou ao poder. Com o esvaziamento do Centro, o polo que se beneficiou da vitrine que o bolsonarismo vem oferecendo ao mundo foi a esquerda.

Mas há mais elementos ainda nesse fenômeno: há um par de anos a esquerda está no Poder em Portugal, o Brexit na Inglaterra não decola e os Trabalhistas estão ganhando novo fôlego por lá sob uma configuração progressista. Finalmente, o golpe na Venezuela parece ter sido subjugado.

Esses fenômenos não são estanques, na verdade são parte de um mosaico da crise de hegemonia que se desenha mundialmente, mas, nessas últimas rodadas, quando o processo amadureceu mais, o que parece emergir é que o que lhe é central seja o fortalecimento da esquerda, mormente naqueles países em que ela conseguiu de forma mais abrangente preencher os espaços políticos deixados pela direita que ato contínuo à sua degeneração, enquanto força  hegemônica, foi forçada a abandonar as posições do Centro.

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Como brasileiros que somos devemos nos inquirir e estudar sobre o que fazer para que aqui também o fenômeno central, qual seja, a esquerda democrática no Poder e ocupando o Centro e a direita degenerada como elemento satélite, possa exprimir-se plenamente.

Temos, como diriam os planejadores, riscos e oportunidades.

Como Oportunidades, ainda que cumprindo um papel de Bois de Piranha, para salvar a Humanidade da direita degenerada, ou seja é em parte do nosso sacrifício que se alimentou a vitória da esquerda na Espanha e Finlândia, diria que temos um Poder Político que perde base de apoio ao respirar. Por último, esse contingenciamento de recursos para as universidades e institutos federais arruinou a base universitária do bolsonarismo que regrupava expressivos contingentes da nossa intelligentsia (se é que o termo pode ser aplicado). Qualquer autoridade que abra a boca perde apoio. E as sombras no horizonte não são desprezíveis. A oficialização de Lula enquanto preso político pela Associação de Juristas dos Estados Unidos, (que não é um braço do partido comunista americano), provavelmente alinhará o mundo jurídico mundo afora e é o primeiro veredito da História sobre a aventura brasileira. Se existisse um mínimo senso crítico dos segmentos que aspiram por um futuro no Brasil esse seria o momento de fazer as trouxas para abandonar o barco.

Porém temos riscos e temos fraquezas. Uma delas é que temos uma esquerda que terá dificuldades para ocupar os espaços deixados pelo ao Centro, e que queira ardentemente figurar muito mais como garantidora da “democracia liberal” como propôs Boaventura. Nossa esquerda está amarrada a um discurso que parece vetusto, surrado que pode conduzir no Brasil o fenômenocentral, (o fortalecimento da esquerda) a uma condição periférica. Para completar a autocrítica, base fértil para a inovação, é entendida como pecado ou como covardia, o que a impede de “lançar” uma grande iniciativa de ocupar o Centro  abandonado nesse fenômeno suicida que vem sendo a degeneração da direita.

O outro problema é que a nossa esquerda, essencialmente oriunda de setores médios, pensa (e materialmente é quase verdade) que está na Europa e não enxerga a centralidade da questão da inclusão à cidadania e mesmo à nacionalidade dos pobres e miseráveis que incrivelmente compõem 2/3 da nossa população. Pior talvez tenha papel parasitário do protagonismo popular que deveria como missão histórica despertar e induzir e teima, talvez por tédio da vida pequeno burguesa que tem, eternamente e sem remédio, em atuar em lugar do povo e a considerar o seu abandono como demérito, como se esse protagonista não estivesse á altura do seu idealismo. Não passa uma semana sem que circule na boa esquerda os velhos mitos do pobre de direita. Então há um divórcio que Jessé de Souza já tem tentado explicar, mas que desde Gilberto Freyre já é bem conhecido e que é, ou parece muito, muitíssimo ser, da órbita da Casa Grande e da Senzala. Se enraiveça quem queira, mas a adesão da nossa esquerda ao povo é essencialmente um discurso, mas não é uma prática.

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Estou evitando nesse texto de denominar a extrema direita de fascista, porque uma das características do fascismo foi a capacidade ideológica de alinhar por consenso a Sociedade Civil a ele, ao passo que agora o que parece é que estamos diante de um fenômeno de degeneração dos padrões civilizatórios da direita clássica, que parece, oxalá eu esteja certo, anteceder uma derrocada geral e uma derrota histórica no plano da hegemonia política da direita, fenômeno de que já estaríamos vendo as luzes na vitória das esquerdas em Portugal, na Espanha, na Finlândia e na Inglaterra, mas também na nossa miserável condição de boi de piranhas para uma humanidade que nem se lembrará de nós.

A nós cabe a tarefa cultural e política que hoje me parece inexequível para o nosso campo: ocupar o centro e incluir à nação e à cidadania os imensos contingentes populacionais de deserdados que são o Brasil de verdade.

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1 comentário

  1. Eu temo caro Ion, que estejamos é numa época caótica em que os espectros políticos se sucedem velozmente sem que nenhum consiga se firmar. O capitalismo está em colapso, não sei se é o ocidental capitaneado pelos EUA (e neste caso vamos assistir em breve sua reestruturação euroasiática, talvez não democrática) ou se é um colapso final do sistema. Nessas condições, não parece haver, nas democracias representativas, nenhum ator político capaz de oferecer alguma solução de médio prazo para a população. O ocidente está se tornando ingovernável e se se cumprirem as previsões de desemprego estrutural causada pela indústria 4.0, estaremos com problemas muito sério num futuro próximo.

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